A Pátria calçou as chuteiras?

Não sei se você que eventualmente está lendo este texto pensa diferente, mas eu não consigo desejar que a nossa seleção faça fiasco dentro das quatro linhas, que saia derrotada de campo. Nunca consegui. Pode ser babaquice minha (talvez minha natureza de classe média, sei lá!), eu fico em frente da televisão torcendo por goleadas, nem que seja dessas de um a zero. Não consegui torcer contra a seleção brasileira nem durante a ditadura militar quando éramos só setenta milhões em ação, por que torceria agora?

Na Copa de 1970, patrocinada por uma ditadura militar, fomos às vilas, saída de escolas, saídas de fábricas, paradas de ônibus – correndo risco de prisão – distribuindo panfletos impressos em mimeógrafos a álcool para “conscientizar” as pessoas de que o futebol era uma espécie ópio do povo; dizíamos que o General Emilio Garrastazu Médici estava usando o futebol para se fortalecer no poder. Tínhamos convicção de que os militares manipulavam o mundo subjetivo das pessoas com a Copa, do mesmo modo que fazem (e esperam) todos os governos quando se enfiam num evento dessa natureza.

Já escrevi que mitos, símbolos, subjetividades, autoestima, espiritualidade são elementos que integram a vida das pessoas como o arroz, o feijão, o travesseiro, a casa, o sexo, o emprego, e outros quesitos desse gênero mais próximo da vil materialidade; uma Copa do Mundo se insere na perspectiva em que a alma da população entra em pauta e quando existem carências evidentes no país é natural que muitos outros possam ser contra tal inciativa. Essa questão é tão complexa que nós que arriscávamos a vida condenando a ditadura e a Copa de 1970 dávamos um jeito, clandestinamente em relação aos demais companheiros, de ficar na frente da TV na hora do jogo do Brasil. Contrariando o espirito revolucionário que nos movia e sem que alguém planejasse, nossa organização parava nas horas dos jogos do Brasil (e isso foi de norte a sul do país, conforme depoimentos que ouvi há quinze dias em Porto Alegre).

Não sei se você que eventualmente está lendo este texto pensa diferente, mas eu não creio que alguém que torça contra a seleção por achar que ela se tornou instrumento de propaganda do governo de plantão possa ser menos patriota do que sou. Cá entre nós, manifestar descontentamento com os gastos da copa apontando que teríamos outras prioridades é legitimo, o cidadão tem o direito de achar que educação, saúde, estradas, portos, segurança são questões mais relevantes do que patrocinar uma copa. Até por que gastar 30 bilhões de dinheiro dos nossos impostos é algo inexplicável.

Não sei se você que eventualmente está lendo este texto pensa diferente, mas eu não creio que torcer com ardor pela conquista do hexacampeonato mundial significa ser a favor e apoiar tudo o que o governo de plantão está fazendo. O governo, neste caso eleito democraticamente, achou que patrocinar um evento (a Copa da FIFA) que vai mexer com minha alma era coisa boa, o que posso fazer?

Não sei se você que eventualmente está lendo este pensa diferente, mas eu não consigo encontrar uma explicação plausível para ausência do ex-presidente Luiz Ignácio Lula da Silva das arquibancadas nos dias de jogo do Brasil. No meu entendimento quem mais está deixando de prestigiar o evento é o Lula. Quer dizer, na hora que a Pátria calça as chuteiras ele se mixa? É dose pra tiranossauro!

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *