A perda no caminho – 1/6

Promovendo uma sensação, simultânea e ambígua, de presença e distância, e despertando a participação ativa da imaginação dos ouvintes, o rádio – à época em que foi suplantado pela televisão – diferencia-se radicalmente do processo produzido pelas atuais programações de TV.

ESTUDO | Os 60 anos do rádio no Brasil

José Paulo Paes *

Melhor se faria a comemoração dos sessenta anos de rádio no Brasil se, em vez de evocar saudosisticamente os seus bons tempos se refletisse acerca do que representou a substituição do aparelho de radiofonia pelo aparelho de televisão no altar-mor dos lazeres domésticos. E essa reflexão bem que poderia tomar por epígrafe a velha anedota do sujeito que chegou em casa entusiasmado com o último aperfeiçoamento tecnológico de que tivera notícia: um televisor que, dispensando a imagem, só transmitia o som puro… 

À primeira vista, a atual hegemonia da televisão sobre o rádio parece configurar um caso semelhante ao da vitória do cinema falado sobre o cinema mudo. Trata-se, contudo, de um paralelo enganoso. O advento da trilha sonora é responsável pela morte histórica do filme sem voz, ao passo que o da televisão apenas acarretou uma mudança no uso do rádio como instrumento de diversão.

Expulso de seu lugar na sala de jantar ou de estar, conseguiu ele, graças ao surgimento do transistor, sobreviveu como bom companheiro portátil para as horas em que seu usuário não esteja hipnotizado diante do vídeo. É bem de ver, porém, que esse rebaixamento de posição trouxe consequências de vulto para o tipo de programação tradicionalmente veiculada por ele. A radionovela, os sketches humorísticos, os musicais e os concursos de auditório transmitidos ao vivo – vale dizer a parte “nobre” da programação – desapareceram de vez, transferindo-se com armas e bagagens para a televisão.

Sobraram para o rádio apenas os programas de música à base de gravações e os noticiários jornalísticos. É então que tem início a tirania dos “disc-jockey”, que só cede lugar, e assim mesmo ocasionalmente, ao repórter policial ou ao locutor esportivo.

* José Paulo Paes (Taquaritinga, 1926 — São Paulo, São Paulo, 9 de outubro de 1998) foi um poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta brasileiro.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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