A ponte condenada

A situação da ponte Hercílio Luz, que completa 90 anos em 2016, lembra do repisado caso do marido que flagra a mulher na sala com o amante e decide se desfazer do sofá.

Foto AS/Caros Ouvintes

Explico: tem uma porção de gente sem noção que quer derrubar o principal símbolo de Florianópolis porque diferentes governos venais e incompetentes desviaram o dinheiro da recuperação do monumento para campanhas políticas ou para outras obras que consideraram mais importantes. O crime houve, mas o problema é outro: esse pessoal vê tudo que é histórico e os remanescentes do patrimônio arquitetônico como coisa velha que atrapalha o progresso da urbe.

Esses tipos são perigosos, porque ignoraram que um povo sem memória não sai do lugar. Dizem que a ponte é um estoque de ferro sem serventia, que por ela se esvai o dinheiro que deveria ir para o leite das criancinhas, que é uma mina para o usufruto de governantes corruptos. Claro, os catarinenses escolhem mal, esperam atoa que os eleitos pensem no bem do eleitorado e, na primeira chance, querem destruir um ícone que os identifica perante os demais brasileiros. Pensa-se (pragmaticamente) na utilidade de uma travessia para veículos e pedestres, mas ao menor rumor se age (emocionalmente) como se a culpa fosse do sofá…

Aliás, virou moda gritar que Santa Catarina é um  exemplo por causa de algumas posturas de seus representantes em Brasília. Ora, os senadores e deputados não nos representam, porque votaram em peso pelo impeachment quando quase um terço dos catarinenses defende a permanência da presidente da República. Todos eles são brancos, como 80% dos congressistas num país mulato, e traduzem as vontades das camadas mais ricas num Estado de muitas desigualdades que a mídia procura esconder. Temos muitos deputados ruralistas num lugar de minifúndios, e gente que é expressão das oligarquias num momento em que se insinuam os golpistas dos tempos de Getúlio Vargas e de 1964, que nunca aprenderam a viver longe de benesses, privilégios e regalias.

Votando à questão da Hercílio Luz, uma enquete sobre o destino da velha ponte daria a dimensão do abismo: a maioria defende a desmontagem da estrutura não porque, tecnicamente, ela é inviável, mas por causa das falcatruas feitas em seu nome. Ou seja, condenamos a travessia à ruína e votamos nos legisladores e mandatários que não são um reflexo da maioria, mas um estrato conservador que vê os gastos com saúde e educação, por exemplo, como um poço de despesas, nunca como investimento para um futuro melhor.

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