A ponte do olhar

Agora, como numa estrada deserta, a ponte Hercílio Luz está em silêncio. A passagem está interrompida como um desafio adiado.

Foto AS/Caros Ouvintes

Foto AS/Caros Ouvintes

Mas apesar do seu silêncio, sobre a ponte podemos falar muito tempo. Seus perigos, sua história, personagens, seu significado afetivo, as lembranças da travessia. Pedestres não podem atravessá-la. Apenas contemplar. A ponte. A paisagem. Os pássaros.

De comunicação física e elemento de comunicação geográfica, a primeira ligação Ilha-Continente virou o lugar da lembrança, do momento. O platonismo de uma não-ponte.

Por seu estado de deterioração, por seu abandono, a ponte se transformou em ruína. Símbolo da modernidade que envelhece. Uma ruina da modernidade. Hoje poderíamos dizer que a ponte é também um espaço midiatizado. Uma espaço para ser visto através de algo, uma representação na tela, na página do jornal, no souvenir.Um elemento assimilado visualmente pela população. Uma produção caleidoscópica de imagens da ponte-monumento.

O símbolo que melhor representa a cidade. Sua imagem evocativa, seu eterno cartão postal. Uma referência visual, simbólica, afetiva. A cidade de Florianópolis se traduz nas imagens da ponte.

A ponte Hercílio Luz serve atualmente para olhar. Virou lugar da contemplação. Resultado de um afastamento físico, táctil. As impressões são de quem olha de fora. Olhar exterior. A ponte do olhar.

Mas evocação só não basta, na verdade para participarmos da ponte é preciso estarmos presente. Nem literatura, desenho, fotografia conseguem dar a impressão da qual só a própria experiência é capaz.

Lembranças da travessia.

A ponte se tornou um lugar deserto. Um lugar do silêncio. Uma imagem melancólica do abandono, atravessada pela ferrugem, por andaimes podres de manutenção. A sensação da passagem sobre a ponte foi vetada ao público com a interdição nos últimos anos.

O assoalho de madeira deixava entrever o mar. E a ponte tremia com a passagem dos carros. O mar calmo ou de águas turvas e crespas das baías identificava o vento. Fazia parte do cotidiano a direção dos ventos.

A interdição da ponte velha

O ponto de partida desta reflexão é a interdição da ponte ocorrida janeiro de 1982. Existe uma série de antecedentes preocupantes sobre o risco de queda manifestados em laudos técnicos, o estado de conservação que a ponte manifesta, a queda de uma ponte similar nos Estados Unidos em 1967 – a ponte Ohio –, o  laudo do IPT – Instituto de Pesquisa Tecnológica de São Paulo, mostrando que havia uma fissura na barra de olhal da ponte em novembro de 1981.

Neste período passavam sobre a Ponte Hercílio Luz 25.000 veículos. Houveram (sic) engarrafamentos imensos na ponte Colombo Salles com a interdição gerando uma pressão para a construção da terceira ponte.

A segurança da ponte um assunto sempre polêmico

O “drama” torna-se realidade no final do ano de 1981, quando o IPT – Instituto de Pesquisa Tecnológica de São Paulo S.A. vistoria a ponte Hercílio Luz, concluída em 18 de novembro, recomenda sua interdição por apresentar riscos aos usuários (mesmo sabendo dos transtornos que uma interdição poderia causar para a população). Foi constatada falha (a fissura numa barra) em um “olhal”.

Em 24 de janeiro de 1982, a partir do relatório do IPT, a “ponte velha” (como já era então chamada) é interditada. Nesta data passavam cerca de 25.000 veículos por dia sobre a ponte Hercílio Luz – 43,8% do tráfego local. Dias após a interdição, em 26 de janeiro, acontece sobre a ponte Colombo Salles um dos maiores engarrafamentos da história da cidade.

O clima parecia ser de pânico. A manchete do jornal O Estado, em 27 de janeiro, era representativa na reportagem: O medo sobre à cabeça, ninguém sabe o que vai acontecer, os moradores demonstravam medo, pensando no que poderia acontecer no caso de a ponte cair.

Dede a interdição de 1982 (são passados por volta de 14 anos) a ponte parece estar jogando com a sorte. A interdição por tanto tempo é como um ato de iniciação ao desaparecimento – um ritual de passagem. Esbarrando na falta de recursos.

A reabertura em março de 1988 e fechamento em julho de 1991

A ponte Hercílio Luz é reaberta em 15 de março de 1988 para tráfego leve – pedestres, bicicletas, carroças, motos e ambulância, das sete às vinte horas, fechando em dias de ventos fortes ou de chuva, por precaução. A reabertura parecia acenar com uma esperança de reutilização. Muitas pessoas organizavam passeios até a ponte – transformou-se numa opção de lazer.

Em maio de 1989, é inaugurado o Museu Histórico da Ponte Hercílio Luz, localizado na cabeceira insular da ponte, onde funciona o escritório de manutenção da ponte.

Em 03 de julho de 1991, a ponte Hercílio Luz é fechada novamente por falta de segurança, permanecendo interditada até hoje. O então Secretário de Transportes e Obras afirma “Se não pode passar automóvel, é porque há risco, e se há risco não deve passar ninguém”.

De três de julho de 1991 até hoje a ponte permanece interditada para a população, recebendo uma manutenção descontínua. Existe um projeto de reforma estrutural, que esbarra na falta de recursos.

Ponte Hercílio Luz corre risco de desabamento.

Ventos fortes, o próprio peso, a fadiga do material e até uma brusca mudança de temperatura podem romper a sustentação. O lugar que foi o primeiro ponto de ligação Ilha-Continente, tão importante na época, representando o progresso, a modernidade, já não tem mais a função que lhe foi destinada.

[Texto sobre a Ponte Hercílio Luz, escrito pelo professor da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, Mário Coelho, em 1995, para o Documentário “Ponte Hercílio Luz: Patrimônio da Humanidade”, do cineasta Zeca Pires. Colaborou o economista Luiz Gonzaga Galvão].

2 respostas
  1. Luiz Gonzaga Galvão says:

    Convenhamos,a Majestosa só não foi demolida,porque um Grupo de Manezinhos da Ilha,em 1995,reuniu-se e criou o “Movimento SOS Ponte Hercílio Luz” que até hoje está atuante.Naquele ano,este Grupo colocou junto ao vão central da Bela,um Belo e “Sensível”,Coração Vermelho e Pulsante para acabar com o “Movimento” que estava surgindo na época,liderado por “estrangeiros”,que queriam a demolição do nosso Patrimônio Maior e,por conseguinte,dar um “Aviso” às Autoridades constituídas sobre o desleixo governamental para com a “Viúva” e para enfatizar que Ela seria,a partir daquele dia,protegida pelos Manezinhos,bem como,para “sinalizar”,que esta Terra tinha “Dono”… .

  2. Aguinaldo Filho says:

    Chegada a hora do Ministério Público e o Lava-Jato passar o pente fino nos responsáveis pelo status quo da ponte. Certeza que cabeças rolarão e milhões poderão até serem recuperados.

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