A prisão de Gilberto Gil em Florianópolis (1976)

Há 39 anos, em julho de 1976, Florianópolis emplacou manchetes dos principais jornais nacionais, por causa de um episódio que entrou para o folclore policial e cultural brasileiro.

Fac-símile da primeira página da reportagem da Manchete em 24 de julho de 1976.

Fac-símile da primeira página da reportagem da Manchete em 24 de julho de 1976.

O cantor Gilberto Gil foi preso num quarto do hotel Ivoram [Avenida Hercílio Luz, ao lado do Clube Doze de Agosto], porque portava um cigarro de maconha “para consumo próprio”. Vivíamos o auge da ditadura militar. Poucos meses antes, o operário Manoel Fiel Filho tinha sido assassinado no cárcere do Doi-Codi, em São Paulo. Mesmo destino trágico que teve o jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975. No clima do arbítrio, qualquer delegado de polícia ou inspetor de quarteirão sempre arranjava um motivo para se exibir e mostrar serviço. No caso de Gil, a intenção clara do autor da prisão – o delegado Elói Gonçalves de Azevedo – era se tornar uma celebridade, tipo “o xerife de Florianópolis”. Conseguiu por poucos dias, após a prisão de Gilberto Gil. Depois mergulhou no ostracismo profissional.

Diretamente dos meus arquivos resgato a revista Manchete de 24 de julho de 1976, com o relato fiel dos patéticos acontecimentos. É uma crônica bem-acabada sobre Florianópolis da época, destacando alguns personagens importantes da cidade, entre as quais o mítico juiz Ernani Palma Ribeiro, que percebeu a irrelevância do caso e conduziu a trapalhada do delegado para uma saída honrosa.

Texto de Tarlis Batista, fotos de Paulo Dutra, Rivaldo Souza e Paulo Leite, os dois primeiros “gente nossa”, já falecidos.

Nota – Este material saiu no meu antigo blog (blogspot), quando ainda havia limitação de postagens. Por ser muito extenso, foi publicado em quatro partes. Aqui está a reportagem completa da Manchete, digitada por mim. As fotos são escaneadas da revista, portanto, não têm muita qualidade. Valem apenas como documento histórico.

GILBERTO GIL

“Eu não sabia que era crime fumar maconha”

A intenção do delegado Elói Gonçalves de Azevedo não era a de prender os Doces Bárbaros – Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Betânia – por porte ilegal de maconha. Quem o policial queria ver atrás das grades era o jornalista Beto Studieck (sic – a grafia correta é Stodieck), do jornal O Estado, de Florianópolis. Antes do horário estipulado pela lei para efetuar a invasão de um domicílio suspeito, ele entrou no apartamento do jornalista e nada encontrou. Para não perder a viagem, reuniu a equipe e rumou para o Hotel Ivoram, onde não só os Doces Bárbaros estavam hospedados, como os seus técnicos, músicos, empresários e acompanhantes. Após se identificar na gerência e conseguir a relação dos hóspedes, o delegado e a equipe passaram à ação. O primeiro apartamento vistoriado foi o 306, de Gilberto Gil.

– “Nós batemos à porta. Quando o cantor respondeu, falamos que era da gerência – conta o delegado Elói. – Gil veio atender, perguntou qual era o assunto. Me identifiquei e revelei as razões que me levavam a fazer uma revista no apartamento. Sem se perturbar, o cantor abriu a porta, mandando que entrássemos. Procedemos ao exame dos armários e roupas. Quando encontramos na carteira o cigarro de maconha, perguntamos se ele era o dono da carteira e do cigarro. Sem perder a calma, Gil respondeu afirmativamente. Disse ainda que sabia ser ilegal o porte e a venda, mas a maconha era para o seu uso. Dei-lhe voz de prisão. Fomos revistar outros quartos. O seguinte foi o de Gal Costa. Ela não estava. A moça que ali encontramos disse que ela havia dormido no apartamento de Maria Betânia. Seguimos para o quarto de Caetano Veloso. Percebendo que éramos da polícia, Caetano começou a gritar por socorro. Quando se acalmou, pediu desculpas, dizendo que ainda estava sonhando. Examinamos o seu quarto e encontramos um vidro de Valium. Ele disse que o mesmo tinha sido comprado com uma receita médica, o que mais tarde foi comprovado.”

No apartamento 406 encontraram Maria Betânia e Gal, que também estavam dormindo e receberam os policiais vestindo trajes bastante sumários. Maria Betânia ficou tranquila, enquanto Gal reclamava da maneira como haviam invadido o apartamento.

Ali encontraram Pó de Pemba e outros materiais usados por Betânia no culto da sua religião. Na dúvida, recolheram tudo para exame de laboratório. No apartamento 308 encontraram não só alguns cigarros (baseados), como uma boa quantidade de maconha prensada, que “daria para mais uns 30 ou mais cigarros bem feitos”. Os suspeitos e flagrados foram colocados no apartamento de Caetano Veloso. No final, só Gilberto Gil, Chiquinho e Djalma foram conduzidos até a delegacia para serem autuados.

[Pergunta do repórter] – Foi pura intuição que o levou até o apartamento dos artistas ou havia alguma denúncia?

– “Tudo começou dois dias antes – respondeu o Dr. Elói. – Encontrando um informante na Praça XV de Novembro, indaguei sobre a apresentação dos artistas em Curitiba. Disse-me ter tido a impressão que eles haviam se apresentado completamente chapados, ou seja, dominados pelo tóxico. Li, não sei onde, há algum tempo, que Maria Betânia e Gal Costa haviam tido problemas com a polícia por porte ilegal de maconha. Reuni a minha equipe e ficamos de sobreaviso.”

Na manhã de terça-feira começou a repressão. A polícia preferiu dirigir suas atenções para os que residiam em Florianópolis e já vinham sendo observados. Foi o caso do jornalista. A visita de Caetano na tarde de terça-feira a um médico seu amigo (que já esteve envolvido num flagrante de porte de maconha) foi a razão para colocar não só o cantor como também o médico sob suspeição. Nada conseguiram apurar a respeito de Caetano, Betânia e Gal. Gilberto Gil, separado do grupo, esteve numa comunidade hippie na Barra da Lagoa. Na opinião dos policiais, ali aconteceu uma sessão de vaposeiros, que só não foi flagrada por ter sido realizada num local bastante devassado, permitindo a identificação de um dos comissários pelos hippies. “Desfizemos o grupo e resolvemos voltar na manhã seguinte, tentar os flagrantes”.

Os Doces Bárbaros, reunindo Gil, Betânia, Caetano e Gal.

Os Doces Bárbaros, reunindo Gil, Betânia, Caetano e Gal.

 

Ninguém contesta, na cidade, a ação dos policiais. No Senadinho, centro gerador de fofocas de Florianópolis, na Rua Felipe Schmidt, o delegado Elói Gonçalves de Azevedo passou a ser chamado de Pavão Misterioso. Foi a maneira encontrada pelos xerifes do Senadinho para condená-lo por ter colocado numa cela comum, medindo 2 por 4 metros, um bacharel em administração de empresas, que tinha direito a prisão especial. Não só por isso mas, também, por ter convocado a imprensa e tentar convencer Gilberto Gil a se deixar fotografar dentro do cubículo em que foi recolhido.

– “Se fizermos uma pesquisa, vamos chegar à conclusão de que 80 por cento dos habitantes da cidade não receberam muito bem a prisão do cantor. Outros 20 por cento não tomaram conhecimento ou não vão querer dar sua opinião” – diz o prefeito de Florianópolis, Esperidião Amin Helou Filho. E o comentário nas ruas é de que Curitiba entregou um abacaxi para Florianópolis. Desejando se promover, o delegado resolveu descascá-lo, criando um tumulto.

O policial mostrou vários processos onde está envolvida “gente famosa dentro e fora do Estado, que já foi presa e recebeu o artigo II da lei antitóxicos, número 5.726, de 20 de outubro de 1971”, que permite o recolhimento a um hospital por tempo indeterminado, mas suficiente para a recuperação do paciente. Ela só foi aplicada no caso de Gilberto Gil por decisão do juiz Ernani Palma Ribeiro, admirador do juiz carioca Eliezer Rosa, pai de sete filhos, que autorizou a liberdade, sob custódia, de Gil e Chiquinho para que o show programado não deixasse de ser apresentado.

– “Confesso que fiquei impressionado com a humanidade do cantor Gilberto Gil, quando ele se apresentou para prestar depoimento. Era um homem que reconhecia a sua transgressão e admitia, publicamente, o erro praticado. Não só isso, como o vício de fumar maconha.”

Perante o juiz, Gil declarou que havia começado a fumar maconha há oito anos, numa fase de ansiedade aguda. Disse desconhecer que o ato de fumar maconha representava um crime, embora sabendo que o tráfico e o porte eram passíveis de punição. Justificou também o vício como “uma maneira de melhor atingir uma introspecção mística necessária para se concentrar”. Não fez segredo de ter provado LSD no período em que morou em Londres, mas que não havia se tornado um dependente. Chiquinho, por sua vez, “confessou ser viciado em maconha e revelou desejar abandonar o vício”.

– “Com essas informações, determinei o internamento de ambos, designando o Dr. Pedro Largura, diretor do Manicômio Judiciário, para apresentar um diagnóstico sobre as condições dos dois na próxima segunda-feira.”

Quanto à hipótese do processo ser transferido para uma outra cidade, não existe a menor possibilidade. Ele tem que correr na cidade onde o delito foi praticado. Embora não podendo revelar o seu diagnóstico, o Dr. Pedro Largura é favorável ao internamento de Gil e Chiquinho, devendo fazer essa recomendação ao juiz Palma Ribeiro. A Promotoria, através do Dr. Valdomiro Baroni, não deverá criar obstáculos, recorrendo da sentença, caso seja essa decisão do juiz Palma Ribeiro, “considerando que o Poder Público tomou as providências cabíveis no caso, ficando o restante para ser cuidado pelos médicos.”

– E você, Gil, como recebeu tudo o que está acontecendo?

– “Não tenho imunidades para portar e fumar maconha, pelo simples fato de ser cantor conhecido e representar alguma coisa em termos culturais para o Brasil. Estou naquela de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Sou responsável por tudo o que está me acontecendo e terei contas a prestar unicamente a meu filho. Não tenho problemas de culpa. Eu uso a maconha e sabia que portá-la era um crime. Desconhecia que fumar também era um crime.”

Caetano Veloso: a polícia local queria incriminá-lo, mas não encontrou provas.

Caetano Veloso: a polícia local queria incriminá-lo, mas não encontrou provas.

 

“Como todos não pensam assim, tenho que aceitar as coisas como elas estão se apresentando. Acho, no entanto, que já era tempo de se começar um estudo mais profundo da questão. Não estou fazendo apologia do uso da maconha – é mais uma questão da personalidade do indivíduo. Não defendo, volto a repetir, a maconha. Eu a uso. Como poderia também usar cigarro ou o álcool. Só não consigo entender como é que um indivíduo que pratica um crime sob o efeito do álcool tem atenuantes, e o que pratica o mesmo crime sob os efeitos da maconha tem agravantes. Essa vem sendo a tônica dos encontros com o Dr. Pedro Largura, uma pessoa fascinante. O fato de tê-lo encontrado já justifica tudo o que me aconteceu.”

– Por que você não pediu que fosse colocado numa prisão especial, tendo em vista o seu grau universitário?

– “Na hora em que o delegado fez a minha qualificação, revelei ser portador de um diploma universitário. Não adiantou nada. Acredito que ele estava querendo fazer-me passar pelas situações mais degradantes possíveis e não levou em consideração esse detalhe. Mas não estou aborrecido. Ele está agindo dentro dos seus padrões e quem sou eu para condená-lo? E mais, essa não é a questão mais importante no momento.”

– E os Doces Bárbaros?

– “Se a Justiça conceder a liberdade para seguir trabalhando, ainda que sob custódia ou sursis [não conheço muito bem essas questões jurídicas], os Doces Bárbaros deverão continuar o seu plano e o trabalho interrompido aqui em Florianópolis. Pelo que está me sendo possível observar, será muito mais cedo do que muita gente imagina.”

O músico Chiquinho, que foi preso junto com Gilberto Gil.

O músico Chiquinho, que foi preso junto com Gilberto Gil.

 

Gilberto Gil e Chiquinho, até o início desta semana, ocupavam o apartamento 16 do Hospital São Sebastião, perto do centro de Florianópolis. A decisão foi do juiz Palma Ribeiro, que exerce um controle das visitas que os dois artistas recebem. Mas todas as facilidades lhes são concedidas para que possam entrar em contato com os seus parentes e amigos. Roberto Carlos telefonou do México oferecendo seu advogado para cuidar dos assuntos de Gil. O mesmo fez Sílvio César, que é advogado.

– “Há males que vêm para bem – diz Gilberto Gil. – Essa hospitalidade eu já conheci, mas não sabia ser tão grande. Foi por isso que eu e Caetano insistimos tanto em fazer a apresentação em Florianópolis. E tudo o que está acontecendo comigo não modificou em nada a admiração que sentia antes. Pelo contrário, jamais irei esquecer a pessoa do juiz Palma Ribeiro, pelo seu equilíbrio, e do Dr. Pedro Largura, pela sua inteligência, sensibilidade e compreensão.”

[Publicado por RICMAIS, 05/04/2014]

1 responder
  1. Paulo M. Lima says:

    Grande besteira fez esse delegado. Lembro que a repercussão nacional desse caso foi extremamente negativa para a imagem cultural de Florianópolis. Lastimável o ocorrido.

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