A propósito das companhias

Nada mais ameaçador para os pais abnegados do que as más companhias. Mamãe temia menos o capeta do que elas. É o que ela me dizia quase todo santo dia. Como boa católica sempre estava atenta aos sermões dominicais do padre da Matriz de Santo Antonio. Seguidamente ele tratava dessa questão e certa vez disse: todos nós somos influenciados, para o melhor ou para o pior, pelas pessoas com quem convivemos cotidianamente. Eis algo tenebroso, assustador, diabólico: o inimigo morar dentro da casa da gente!

Há muitas passagens sagradas sobre o tema: 1) Provérbios 13:20: Anda com os sábios e serás sábio, mas o companheiro dos tolos sofre aflição; 2) Coríntios 15:33: Não vos enganeis. As más companhias corrompem os bons costumes; 3) Gálatas 5:7-9: A influência de má companhia pode ser desastrosa; Provérbios 12:26: O justo é cauteloso na amizade, mas o caminho dos ímpios os faz errar.

Diante disso pode-se afirmar que a má companhia é invenção diabólica? Ainda hoje não saberia definir o que é má companhia. Sei, que ela desorienta, desvirtua, quebra o que denominamos vida fluindo na normalidade. Desafia, com altiva arrogância, a tudo e a todos. Não fosse a intrigante influência que exerce sobre a pessoa de bem, de forma imperial, o mundo não listaria tanta mazela, não sofreria tanta atrocidade, tanto horror, não teríamos tanto medo do futuro.

A questão das más companhias sempre me intrigou! Embora não se tenha definição convincente é fácil entendê-la com exemplos dizia o professor de moral e cívica (disciplina imposta pelo golpe e que faz falta nestes tempos de democracia): mosca na sopa, cachorro com sarna…

Lembro, como se fosse hoje de manhã, dona Adalgira em prantos, abraçada ao cadáver do filho, morto com 18 facadas no beco escuro ao lado do bolão, gritar que se não fossem pelas más companhias, que ela não cansara de alertar desde que ele era pequeno, seu menino ainda estaria vivo. O futuro da humanidade depende da capacidade de nos livrar das más companhias, disse o pastor no velório.

O porém, nesse tema que a pessoas se debruçam a tanto tempo, é descobrir onde está uma má companhia antes dela começar a agir. É coisa difícil de fazer. Quando eu era pequeno, por exemplo, ninguém dava um níquel furado pelo Ivan: colava nas sabatinas, roubava araticum da viúva Joana, mentia que ia à missa e ia jogar futebol, aos 15 já andava pelo meretrício, era único da turma a fumar e a beber. Pois aos 17 anos ganhou uma bolsa de estudos num internato e hoje está sujeito a virar santo. Já o santinho do Rubens, menino mais certinho não havia naquele tempo, cumpre pena na cadeia local por latrocínio, extorsão e roubo.

Pensei, ao passar os olhos nas estatísticas malucas que o Brasil acumula em homicídios, roubos, estupros, assaltos, contrabando de armas e drogas e matutei: só falta as autoridades culparem as más companhias por esse caos entre nós…

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