A rádio e o estilo – 4

A grande diferença que se estabelece entre o veículo eletrônico e o impresso é que no primeiro o texto deve facilitar a audição, enquanto que no segundo a informação sempre pode ser lida mais de uma vez.
Por Paulo Brito, de Barcelona

O redator de rádio deve escrever, sempre, pensando que o seu ouvinte, normalmente, não tem a atenção voltada exclusivamente para o rádio. Deve levar em conta, também, que entre ele e o ouvinte interpõe-se o locutor, encarregado de interpretar a mensagem. Por isto, objetividade e simplicidade serão sempre os melhores fatores para estabelecer uma boa comunicação.

Uma boa maneira de superar os eventuais problemas de um texto de rádio é lê-lo em voz alta. Facilmente se conseguirá, assim, tornar menores as frases, dando mais ritmo à leitura, além de substituir os trechos que torna difícil o entendimento da informação. A musicalidade da frase também será melhor sentida com esta leitura. Se o redator tiver dificuldades de ler o texto que acaba de fazer, é provável que isto ocorra em maior grau com o locutor. E se o locutor não conseguir dar uma interpretação correta, o grande prejudicado será o ouvinte, que não entenderá a informação.
 
A ordem direta deve ser a preferida, mas existem informações em que a ordem inversa melhorará o entendimento da informação.
    
Exemplo:

ERRADO –  A Companhia de Energia Elétrica informa que vai faltar luz hoje no centro, das duas às seis da tarde.
CERTO – Vai faltar luz no centro, das duas às seis da tarde.

O bom senso do redator, buscando facilitar o entendimento do ouvinte, é o melhor juiz para determinar a melhor fórmula a ser usada.
      
Também devem ser preferenciais as frases e as palavras curtas. Ou, no máximo, as frases médias de até duas linhas. Para não se chegar a uma seqüência de frases curtas – o que tornaria o texto “foguete”, – o ideal é a alternância com frases médias.
 
É sempre bom tentar-se chegar ao lead de rádio. Isto é, uma frase de abertura que sintetize a notícia ou transmita no início a principal informação. Existem aquelas informações curtas, de duas ou três linhas, que são o próprio lead. Mas para as notícias médias – as de até seis linhas, que devem dominar os noticiários – é uma exigência. No momento em que escreve, normalmente o redator sabe o que os demais redatores estão escrevendo. Por isto, pode avaliar a importância que a sua informação terá no contexto do programa a ser editado. Isto deve ser levado em conta para determinar o tamanho da notícia, que deve ter a dimensão exata da sua importância no contexto do noticiário. Se todos escreverem notícias longas, o informativo se tornará monótono. Ao contrário, se todos escreverem notícias curtas, o noticiário ficará por demais telegráfico e é provável que o editor não terá o número de linhas suficientes para o  fechamento do noticiário.

O boletim do esporte

Normas gerais – A cabeça do boletim deve trazer sempre a notícia mais importante. Parece óbvio, mas não é: tem repórter abrindo boletim com detalhes de treino físico para só depois dar a principal informação do setor.

Adotar um tom mais pessoal – “conversei com fulano”, “sobre o que” – ao invés do plural de modéstia. É o repórter falando na primeira pessoa, dando seu testemunho sobre o assunto que está cobrindo.

A informação de tempo só quando estiver relacionada com o assunto da cobertura. Evitar todos os chavões possíveis. Exemplos clássicos:

– “Reina grande expectativa”. 
   (Ora, se não fosse assim não estaríamos cobrindo o  assunto).
– “O técnico está otimista”.
   (Se ele estiver mesmo, que diga no microfone.)
– “O time quer ganhar”.
   (Nem tem sentido querer o contrário, perder).

O locutor deve também corrigir o texto quando achar que não obedece a linguagem do rádio. Não pode nunca ler textos de jornais, pois a linguagem escrita é diferente da linguagem falada.
 
O repórter que estiver cobrindo, fazendo a cobertura jornalística  do time adversário dos clubes da cidade sede da rádio, sempre, devem incluir informações sobre a arbitragem em seu boletim.
 
O repórter responsável pela cobertura do clube ou time da sede da emissora deve dar o preço dos ingressos, a fim de orientar o torcedor. Incluir, se possível, também dados sobre o jogo da preliminar.
O preço dos ingressos não se aplica aos boletins de fora do Estado, a não ser quando se tratar de curiosidade. Vale o bom-senso.
 
Incluir a posição do clube na tabela de classificação do campeonato na apresentação do jogo.
 
Normalmente os boletins para a edição noturna são mais longos, mas nem por isso devem ser menos atrativos. Se o material do repórter indicar que o boletim será mais longo do que o normal, a solução é fazer dois boletins: a primeira parte com o noticiário do time local, por exemplo, e a segunda com o adversário. Basta, ao final da primeira parte, fazer a chamada para a segunda. Só a segunda levará a assinatura.
 
Gravações nos boletins: obrigatória em todos os horários, exceto no caso excepcionais ou de um boletim analítico. Não esqueça que a ilustração enriquece e dá credibilidade ao noticiário.
        
Nas gravações inseridas nos boletins deve imperar o bom senso: três perguntas para um só entrevistado é o máximo que alguém agüenta ouvir. Mais do que isso só se a entrevista for com o ou um Pelé.
 
Fora do horário noturno, uma ou duas perguntas é o ideal.
 
Ao dar a hora não esqueça que no rádio ela é sempre coloquial, ou seja duas horas da tarde e não 14 horas. Ninguém fala assim – quatorze horas, todo mundo fala duas horas se a locução estiver bem perto ou seja, se a você esta falando a tarde, não precisa dizer duas horas da tarde, basta dizer duas horas. Use daqui a pouco, logo mais, ainda pouco, hoje pela manhã, logo mais à noite, dentro de instantes, etc. Nunca diga duas e quarenta mas sim faltam vinte para as três horas.
 
Fale no rádio como você conversa com os amigos. Seja simples e claro, não procure mostrar erudição ou inventar sinônimos. As assinaturas devem ser as mais simples possíveis: de preferência o nome e o local.
 
Em viagem ou quando de eventos especiais, permite-se realçar o assunto que está merecendo cobertura. Boletins feitos no estúdio não levam, em hipótese alguma, o local na assinatura. Neste caso, o local é substituído pelo assunto.
 
Desnecessário dizer que o boletim é especial para determinado programa. Se ele foi divulgado naquele programa é claro que só foi para aquele programa.

Na próxima semana: A entrevista radiofônica e a forma de realização da entrevista.

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Por Paulo Brito

Jornalista, professor e cronista esportivo. Integrou o grupo de trabalho que decidiu pela criação do Curso de Jornalismo da UFSC. É autor do livro “Dás um banho Roberto Alves – o rádio, o futebol e a cidade. Trabalha em rádio participando de programas de debates. Atua como consultor voluntário do Instituto Caros Ouvintes.
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