A Rádio Gaúcha e os 50 anos da RBS

Passa pouco das nove e meia da noite deste 3 de julho de 1957, em que os novos proprietários da Rádio Gaúcha comunicam ao microfone da PRC-2 a sua integração às Emissoras Reunidas. Arnaldo Ballvé e Maurício Sobrinho anunciam, para breve, a formação da primeira grande cadeia fixa do Rio Grande do Sul, o que, de fato, nunca vai se efetivar.

Balé e Maurício Sirotzky

Balvé e Maurício Sobrinho

O grupo, com uma dezena de estações no interior, vai sempre operar com suas rádios atuando de forma independente. O anúncio, no entanto, está na origem de uma outra rede, rede como grupo empresarial, o principal dos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Naquela fala quase singela, começa a nascer a Rede Brasil Sul de Comunicação.

Na véspera, em uma rápida cerimônia no auditório da Gaúcha no Edifício União, os dois já haviam sido apresentados aos funcionários, Ballvé como o novo diretor-presidente e Maurício na função de diretor geral da emissora. Duas semanas depois, no dia 18, uma assembléia dos acionistas da Rádio Sociedade Gaúcha S.A. efetiva a reestruturação societária. Arnaldo Ballvé fica com 51% do negócio, com o restante dividido em três partes iguais entre Frederico Arnaldo Ballvé, Maurício Sobrinho e Nestor Rizzo.
No entanto, a valer a pesquisa de audiência realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, de dezembro de 1957 a fevereiro de 1958, os esforços iniciais da Gaúcha não obtêm os resultados esperados. O levantamento do Ibope coloca a emissora em terceiro lugar na capital. Em Cachoeira do Sul, Pelotas e Santa Maria, a PRC-2 praticamente não é sintonizada. Além disto, os ouvintes dão um duro veredito sobre a qualidade do sinal colocado no ar: a Gaúcha aparece nos últimos lugares.

Pergunta padrão: Qual ou quais as emissoras de rádio que ouviu ontem (incluídos os períodos da manhã, tarde e noite)?
  Homens Mulheres Total
Farroupilha 33% 44% 38%
Guaíba 21% 19% 20%
Gaúcha 8% 11% 9%
Demais 15% 12% 13%

Pesquisa realizada pelo Ibope (dezembro de 1957 a fevereiro de 1958)

Deste modo, ao longo de 1958, a Gaúcha procura reagir. Maurício traz de volta a Porto Alegre Walter Ferreira, que estava na Nacional, do Rio de Janeiro. Das outras emissoras, vai tirando alguns dos principais profissionais do rádio do Rio Grande do Sul. Da Farroupilha, a mais atingida, vêm, entre outros, o galã Paulo Ricardo, a radioatriz Lolita Alves, os músicos de Primo e seu Conjunto Melódico, o instrumentista Paulo Coelho, o sonoplasta Pedro Amaro, o radioator humorístico Fábio Silveira (conhecido como J. Bronquinha), o regionalista Dimas Costa e a cantora Elis Regina Costa. Das outras estações, contrata, por exemplo, José D’Elia, repórter e locutor da Difusora; Adroaldo Streck, repórter esportivo da Guaíba; e Adroaldo Guerra, animador, ator e diretor de radioteatro da Itaí. Em outra frente, reestrutura o Departamento de Notícias sob a chefia de João Aveline, que, pela primeira vez no rádio do estado, valoriza o papel do jornalista, colocando repórteres e redatores – e não profissionais de microfone – na captação e processamento das informações.
Em meio a esta fase de investimentos crescentes, morre, no dia 12 de junho de 1958, aos 62 anos, Arnaldo Ballvé, que é imediatamente substituído pelo filho. Mesmo com Frederico Arnaldo Ballvé no controle acionário da empresa, continua cabendo a Maurício Sobrinho o comando da programação da Gaúcha. A emissora inaugura, no mês de novembro, seus transmissores com 10 kW, promovendo a presença da Miss Brasil daquele ano, Adalgisa Colombo, em um grande espetáculo no Theatro São Pedro. Junto com a nova planta no bairro Sarandi, a PRC-2 comemora as contratações do ano em um anúncio publicado na mesma época na Revista do Globo com o mote “Tudo novo na nova Rádio Gaúcha”, também insistentemente repetido ao microfone.
Com “novos transmissores de 10 kW em ondas médias e curtas, mais potentes e superaperfeiçoados”, “novo som de alta fidelidade conseguido com os mais modernos equipamentos Philips”, “novas atrações que colocam em plano de destaque a programação da emissora” e um “novo elenco reunindo os mais aplaudidos cartazes do rádio gaúcho”, como diz o texto publicitário, a Gaúcha parece mesmo estar “melhor do que nunca”. Assim, em meados do ano seguinte, quando são anunciados os Melhores do Rádio 1958 da Revista TV, a PRC-2 pode comemorar uma vitória sobre a concorrência: 18 dos indicados pela imprensa especializada são da estação localizada no Edifício União, vários deles contratações recentes ou profissionais antigos valorizados pela nova direção da empresa. O prêmio principal faz justiça aos esforços de Maurício, eleito o radialista do ano.
No final de 1959, a Farroupilha esboça uma reação, contratando alguns profissionais como Karl Faust e parte da orquestra da Gaúcha, também aproveitados na recém-inaugurada TV Piratini. Já as negociações com Carlos Nobre, Fábio Silveira e Sady Nunes fracassam. No entanto, uma pesquisa de audiência realizada em 1960 vai demonstrar a decadência da emissora dos Associados, que aparece em segundo lugar apesar de, na prática, os dados apontarem um empate técnico. No total, a Gaúcha tem 6,9%; a Farroupilha, 6,6%; e a Guaíba, 5,3%. Aos domingos, a PRH-2 registra o seu pior desempenho, caindo para o terceiro lugar, entre 9 e 13h, em função do Programa Maurício Sobrinho, que, em 1° de maio, reestreara na PRC-2. À tarde, a estação da Caldas Júnior lidera, indicando que as suas transmissões esportivas consolidam-se na preferência dos ouvintes. Embora com pequenas diferenças na sua metodologia, as duas pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, nas primeiras quinzenas de janeiro e de junho de 1961, indicam que a situação de leve liderança da Gaúcha não se altera.
O gradativo declínio dos Diários e Emissoras Associados e, conseqüentemente, da antes poderosa Farroupilha vai permitir que, em meio à crise gerada pelo surgimento da televisão, a Gaúcha lidere o mercado local em meados da década, um pouco antes da reformulação da Itaí, responsável, a partir de então, por um dos principais fenômenos de público dos anos 60 e 70 no rádio do Rio Grande do Sul.

Situação da audiência (somente receptores ligados)
Período jan/61 jun/61 fev/65 out/65
Emissora
Farroupilha 23,3% (2°) 26,5% (2°) 18,0% (2°) 20,9% (2°)
Gaúcha 28,0% (1°) 27,3% (1°) 27,3% (1°) 24,0% (1°)
Guaíba 10,5% (4°) 12,5% (3°) 13,2 (3°) 11,6% (4°)
Itaí 11,6% (3°) 8,8% (4°) 10,4% (5°) 15,2% (3°)
Metodologia
Flagrante domiciliar
Período 9h – 22h 9h – 22h 7h – 22h 8h – 19h
Número de
entrevistados
10.560 pessoas 10.920 pessoas 8.000 pessoas 4.190 pessoas

Pesquisas realizadas pelo Ibope (1960, 1961 e 1965)

Décadas mais tarde, já com a Rede Brasil Sul consolidada e liderando em televisão e jornal o mercado do Rio Grande do Sul, a Gaúcha, optando pelo radiojornalismo pleno, voltaria a se destacar, não por acaso sendo identificada como “emissora líder do Sistema RBS Rádio”, afinal nela está também a origem do grupo.


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