A radiodifusão no Brasil

Pense por um momento no fenômeno do rádio e a tecnologia na qual se baseia. Já se passaram mais de cem anos desde que Marconi enviou a primeira mensagem de rádio que atravessou o Atlântico.
Por Caíque Agustini

Muito mais tempo decorreu desde que o físico alemão Rudolph Hertz, detectou em 1887 pela primeira vez as ondas de rádio identificadas como “ondas hertzianas”, transmitidas pelo espaço e detectadas por um receptor.

Um brasileiro muito mais tempo antes de Hertz, de Marconi e de outros pesquisadores, já estava dedicando-se à busca científica, estabelecendo os princípios básicos em que se fundamentaria todo o progresso e a evolução das comunicações, prevendo até a comunicação através do raio laser e através de satélites.

Tratava-se do Padre Roberto Landell de Moura, gaúcho, nascido em 21 de janeiro de 1861. Foi em Campinas que este padre-cientista iniciou a construção de aparelhos de sua exclusiva invenção.

Em 1893, levou à capital de São Paulo seus estranhos instrumentos e instalou um emissor no ponto mais elevado da Avenida Paulista, e um outro receptor no bairro e Morro Sant ‘Ana, a oito quilômetros de distância, onde realizou a primeira transmissão radiotelefônica, com fio e sem fio. Estava inventado o rádio por um brasileiro! A incredulidade popular era geral porque Pe. Landell conseguiu fazer com que um pequeno aparelho sem fios falasse sozinho!

Sem conseguir apoio do governo brasileiro, Landell de Moura foi para os Estados Unidos em 1901, na esperança de patentear seus inventos. Não conseguindo fazer demonstração da funcionalidade de seus inventos aos norte-americanos, desiludido, retornou ao Brasil, onde esperava novamente receber o apoio das autoridades brasileiras e conferir à sua pátria a primazia para colocar em prática de seus inventos. Com esta intenção, solicitou ao Presidente da República Rodrigues Alves, dois navios de guerra para que se comunicassem entre si e com a terra, por meio de rádio.

A mesma experiência foi realizada por Marconi, três anos após, com o apoio do governo italiano. Para saber a que distância da terra queria Landell os navios, o Presidente enviou um assessor ao cientista, que ouviu de Landell a seguinte resposta: “Em alto mar, na maior distância possível, quantas milhas pudesse, porque meus aparelhos podem estabelecer comunicações com qualquer ponto da terra, por mais afastados que estejam, aliás, isto, presentemente, porque futuramente servirão até mesmo para comunicações interplanetárias”.

Boquiaberto, o assessor presidencial transmitiu ao Presidente a seguinte informação: “Excelência, o tal padre é positivamente louco”. E a experiência, assim não foi realizada.Mais uma vez Landell de Moura sentiu-se frustrado por não conseguir testar seus inventos à serviço de sua pátria.

Em 30 de setembro de 1928, Padre Roberto Landell de Moura faleceu em Porto Alegre, aos 67 anos de idade, frustrado e desencantado com a falta de apoio e de reconhecimento às suas pesquisas na área da radiofonia. A literatura sobre os grandes inventos da humanidade não cita o nome do Pe. Landell de Moura, como inventor do rádio transmissor. Isto se deve a mais um daqueles grandes equívocos da história.

Mas a fama ficou mesmo com o jovem cientista, Guglielmo Marconi, que a partir de 1895, quando tinha apenas 22 anos de idade, assumiu a liderança dos pesquisadores no campo da telegrafia sem fios. Mais tarde, em 1897, o telégrafo foi patenteado e até hoje Marconi é conhecido como o inventor do rádio.

A invenção do rádio, segundo o historiador William Henderson, aconteceu na segunda fase da grande era das invenções modernas (1850 em diante) com a aparição das grandes firmas e monopólios e está relacionada entre as mais importantes técnicas que marcaram o início da Revolução Industrial, que iniciou-se na Europa Ocidental, a partir de 1750 e influenciou profundamente a vida de milhões de pessoas em quase todas as regiões do mundo.

No Brasil, uma barulhenta experiência não entusiasmou os brasileiros: foi a modesta estréia do rádio que aconteceu no dia 07 de setembro de 1922, durante as comemorações do primeiro Centenário da Independência. O transmissor foi instalado no alto do Corcovado e tinha uma potência de 500 Watts. O ato oficial foi prestigiado com o primeiro discurso transmitido através do rádio, pelo então Presidente Epitácio Pessoa e que foi ouvido somente por alguns componentes da sociedade carioca em suas casas, através de 80 receptores especialmente importados para aquela ocasião. Durante alguns dias, após a inauguração foram transmitidas óperas diretamente do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, mas por falta de um projeto que desse continuidade, as transmissões terminaram.

Mas a instalação definitiva da radiodifusão nacional somente aconteceu oficialmente no dia 20 de abril de 1923, com a emissora “Rádio Sociedade do Rio de Janeiro”, fundada por Edgard Roquette-Pinto e Henry Morize, transmitindo educação e cultura aos brasileiros de elite.

Anos depois, Roquette-Pinto, assim recordava a primeira fase do rádio no Brasil: (…) a verdade é que durante a exposição do centenário da Independência em 1922, muito pouca gente se interessou pelas demonstrações experimentais de radiotelefonia, então realizadas pelas companhias norte-americanas: Westinghouse na Estação do Corcovado e Western Electric, na Praia Vermelha. Muito pouca gente se interessou. Creio que a causa principal desse desinteresse foram os alto-falantes instalados na exposição. Ouvindo discursos e músicas reproduzidos, no meio de um barulho infernal, tudo roufenho, distorcido, arranhando os ouvidos, era uma curiosidade sem maiores conseqüências. (…)

Isso comprova que ouvir rádio nesses tempos, era mais uma aventura para aficionados que propriamente um prazer. Havia poucos aparelhos receptores, todos bastante precários, exigindo complicadas regulagens para captar de modo fugidio os sinais e as emissoras tinham um caráter amador, quase que de clubes. Transmitiam uma programação voltada para um público restrito: longas conferências, leituras de trechos de livros, música erudita. Viviam da contribuição de sócios abnegados e quase todas abominavam a idéia de transmitir anúncios. Foi nesse ambiente que se deu a ação do governo. Em 1932, um decreto governamental do Presidente Getúlio Vargas transformou o rádio em instrumento de ação política, permitindo a veiculação de publicidade. Em troca de “favor”, transformava em concessão estatal o direito de operar as emissoras.

Amigos do governo foram privilegiados nas concessões e montaram uma programação voltada para os consumidores de música popular. O impacto da mudança foi violento,dando início à era das comunicações de massa, tornando-se o principal veículo de integração cultural do país, com poder para criar verdadeiros ídolos nacionais como Francisco Alves, Orlando Silva, Noel Rosa e as “Cantoras do Rádio” Carmen e Aurora Miranda:

“Nós somos as cantoras do rádio
Levamos a vida a cantar
De noite embalamos o teu sono
De manhã nós vamos te acordar.

Nós somos as cantoras do rádio
Nossas canções cruzando o espaço azul
Vão reunindo num grande abraço
Corações de norte a sul.”

Após a fundação da primeira emissora, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, outras emissoras foram influenciadas por ela e fundadas em várias cidades do país. No Paraná, a primeira emissora radiofônica foi a Rádio Clube Paranaense. O jornal curitibano Gazeta do Povo de 20.08.1924, por exemplo, fez referência à Rádio Sociedade do Rio de Janeiro que, durante sua transmissão captada em Curitiba, parabenizou a Rádio Clube Paranaense como “a mais nova das sociedades de Rádio do Brasil”.

A Rádio Clube Paranaense, a veterana PRB2 e atualmente, a B2 para o gosto popular, foi ao ar pela primeira vez, às 11 horas da manhã do dia 27 de junho de 1924. O fato aconteceu na Mansão das Rosas, residência do ervateiro Francisco Fido Fontana, que ficava na Avenida João Gualberto, com a presença de alguns curitibanos de visão. Na mesma ocasião, os fundadores escolheram a primeira Diretoria da Emissora: Presidente Francisco Fido Fontoura; Direção Técnica Livio Gomes Moreira e Secretário João Alfredo Silva.

Nascia assim, oficialmente a terceira emissora de rádio no Brasil. Hoje, após setenta e nove anos, é a única em funcionamento. As outras duas, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e a Rádio Clube de Pernambuco, fundadas quase na mesma época, há muito tempo, deixaram de existir.


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