A Rainha do Lar

Finalmente ela se convenceu de que a empregada não viria mais. Foi quando a moça mandou a irmã buscar o dinheiro pelos dias trabalhados. Ela ainda perguntou se a moça estava doente, se precisava de um adiantamento; uns dias de licença, quem sabe? A irmã disse que não, que só precisava mesmo do dinheiro e ela que se despreocupasse, pois a moça já estava trabalhando em outra casa, há três semanas. Três semanas. O tempo exato do abandono do emprego! Vadia!

Para ela, o pior de ficar sem empregada não era ter que fazer todo o serviço; era agüentar as reclamações: _ Coooomo, não tem cueca limpa?! Eu tô usando a mesma cueca há três dias! _ O feijão está mal cozido. _ Na casa da minha mãe isso nunca aconteceu, e olha que ela tinha seis filhos pra criar!

Ela podia suportar tudo, mas comparação com a mamãezinha já era demais; então respondeu: _ Olha aqui, meu bem. Cada um tem suas prendas. O feijão da tua mãe pode ser melhor do que o meu, mas eu te ofereço umas coisinhas que ela nunca te deu! Com licença!

Estava assim, explodindo por qualquer coisa quando alguém disse que conhecia uma moça que estava precisando de emprego. Viria na segunda-feira e, dependendo do acerto, já ficava o resto do dia. A moça chegou cedo. Era forte, parecia boa para o serviço, mas não demonstrou muito entusiasmo.

Ressabiada, mas decidida a não deixar passar aquele cavalo encilhado, ela fez poucas perguntas cuidando para não espantar a candidata e já dava por encerrada a entrevista quando a moça passou à sua lista de exigências. Num átimo, ela, de patroa, passou a candidata à patroa.

A moça quis saber se a casa tinha máquina de lavar roupa, se teria que cuidar de criança ou de idoso, levar cachorro para “passear”, etc. Ela respondeu que não, era só o serviço normal da casa. _ Pois muito bem. Disse a moça. _ Por onde é que eu começo? Foi aí que ela, deixando-se levar por repentina fúria, perguntou:

– Calma! Tu falas francês?
– Não.
– Tocas piano?
– Não! Respondeu a moça sem esconder a surpresa.
– Então não vai dar! Disse ela, apontando a porta da rua.

No dia seguinte o telefone tocou. Era uma candidata encaminhada por não sei quem. A patroa perguntou se ela tinha experiência. A moça respondeu:
_ Tenho. Só não sei passá roupa e não posso lidá com Omo nem com detergente porque me dá unhero. Não posso barrê a casa e nem tirá pó, no chão eu só passo pano molhado. E também não mexo com alho nem cebola porque me dá “bolde espirro”. E, se a gente se acerta, na semana que vem eu preciso de cinco dias de folga porque eu vou viajar pra ver a minha mãe.
_ Tá. Tu começas pelas férias, não varres, não lavas, não passas e não cozinhas. Tu fazes o quê, minha filha?
_ Eu faço o resto, ora! Ela respondeu aparentando surpresa.
_ O resto pode deixar que eu faço! E bateu o telefone na cara da vadia.

Um mês depois alguém ligou perguntando se ela já tinha arranjado empregada, pois a vizinha da prima ou a prima da vizinha, ela não entendeu muito bem, estava à procura de emprego. A pessoa ficou de encaminhar a moça já no dia seguinte.

Às oito em ponto a campainha tocou. Ela pensou: _ Essa é das boas! A moça era muito alta, tinha olhos verdes e o cabelo loiro natural, coisa rara hoje em dia. Antes que a patroa pudesse abrir a boca, foi a moça que começou a entrevista:

– Tem criança na casa? Por um instante ela ficou paralisada, depois resolveu entrar no jogo.
– Tem. Eu tenho três filhos e um cachorro.
– Vou logo avisando: eu não cuido de criança e nem de cachorro.
– Dos meus filhos cuido eu e do cachorro cuidam as crianças, ela retorquiu.
– Tem máquina de lavar roupa?
– Tem. De lavar roupa e de lavar louça, secadora e aspirador de pó, espanador, vassoura, enceradeira e rodinho.
– Eu chego as oito e saio às quatro; não venho no sábado e só trabalho se for pelo salário com todos os direitos. Tudo bem?
– Tudo bem. Mas eu não vou querer os teus serviços não, querida.
– Mas a senhora não tá precisando?
– Tô. Mas aqui em casa só tem vaga para empregada doméstica, minha filha. A vaga de Rainha do Lar já foi preenchida!

Dito isso fechou a porta e foi tratar da vida que o filho caçula já estava gritando: – Manhêêêê, termineeeei. Vem me limpáááá… E a gente ainda acha a vida monótona, às vezes. Feliz Dia das Mães!

*Histórias reunidas. Baseado em fatos reais.

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