A REVANCHE – ÚLTIMO CAPÍTULO

Caro ouvinte, caríssimo Oswaldo. A REVANCHE não está ao “Deus dará”. Eu não os abandoneis (mesmo sem dar o ar da graça há um tempinho). E por falar em graça, quem dá o ar da graça no último capítulo de A REVANCHE é a Graça, a servente do banco, que se aproxima da lixeira com um saco de lixo nas mãos. Oswaldo saca na hora. O que está dentro da lixeira literalmente vai para o saco, ou seja, o chiclete jogado fora por ele na lixeira que pode ou não estar dentro muito provavelmente de um copo descartável, também vai. E se ele não tiver uma sacada rápida, quem vai para o saco também será o próprio. Oswaldo saca uma idéia. Coloca as mãos no peito, tosse alto, de propósito para chamar a atenção de todos do banco. O policial e a servente também percebem o mal estar de Oswaldo.
Por Fernando Góes

O policial que voltara para o seu lugar na fila vai ao encontro de Oswaldo para socorrê-lo. Oswaldo deita-se no chão e fecha os olhos por um momento. A idéia é ganhar um tempinho para bolar um plano. Mas se por um lado Oswaldo ganhou um tempinho, por outro perdeu. De quem era aquela voz masculina dizendo “o senhor está bem?” e aquelas mãos batendo em seu rosto que tinham um cheiro forte de peixe? O plano de Oswaldo era desvencilhar-se o quanto antes daquelas pessoas e localizar o chiclete dentro da lixeira antes da servente, e é claro pagá-lo. Oswaldo abre os olhos e de novo dá de cara com o policial. A voz e as mãos com o cheiro forte de peixe eram dele. Oswaldo arregala os olhos e se levanta rapidinho. De pé e sem tosse, Oswaldo tranqüiliza as pessoas dizendo que com um copo d’água tudo estará resolvido, enquanto caminha em direção ao garrafão de água no centro do banco que está ao lado da lixeira. Mas para a sua surpresa, duas outras surpresas jogaram por água abaixo o seu plano: o policial o acompanha, segurando-o pelo braço e a Graça, a servente, aproxima-se dos dois com um copo d’água na mão. Oswaldo não aceita, o policial franze a testa, desconfia, afinal o cara não acabou de dizer que e só tomar água que passa? Então por que a recusa? A Graça insiste, o Oswaldo se irrita e sente um aperto mais forte do policial em seu braço. Oswaldo tenta desvencilhar-se, a Graça insiste com o copo d’água. A confusão está armada, de novo. O policial angustiado pergunta: você não disse que com um copo d’água tudo passa? Então por que está recusando o copo d’água? A Graça insiste mais uma vez. Oswaldo olha para ela, olha para o policial e não responde nada. Ele tenta desvencilhar-se mais uma vez, esbarra na mão da Graça. O copo cai no chão. O policial e a Graça pulam para trás. Era a chance que Oswaldo esperava. Sem o policial segurando o seu braço, Oswaldo corre em direção à lixeira e dá um “peixinho”, igual ao dos meninos da nossa seleção de vôlei comemorando mais um título. Oswaldo abraça a lixeira e grita para todos, inclusive para o policial que faz a vigilância do banco que ameaçava tirar a sua arma.
– Ninguém chega perto de mim.
A atitude do Oswaldo é a gota d’água para o policial, a Graça e as outras pessoas do banco desconfiarem. O mal súbito seria uma encenação? Todos ficam apreensivos com o que poderá acontecer daqui para frente. Talvez seja um assalto e a arma está dentro da lixeira. O policial tenta aproximar-se de Oswaldo que grita mais uma vez alto e, chorando, diz:
– Não chega perto. Eu só quero ele. Se eu não o pegar, eu não sei o que será de mim.
E enfia a mão na lixeira.
As pessoas começam a gritar, tumulto no banco. O policial intercede por todos:
– Calma gente. Todo mundo não se mexe. Todo mundo calado que ele pode ter uma arma.
As pessoas obedecem, menos a Graça que chega no pé de ouvido do policial e pergunta:
– Você não é policial? Cadê a sua arma? Saca logo ela enquanto esse doido não acha a dele. Mas que cheiro forte é esse de peixe, hein. É de você?
Nesse instante, entram no banco um senhor japonês e dois policiais com armas em punho. Os policiais gritam:
– Ninguém se mexe, todo mundo se deita no chão com as mãos na cabeça e fiquem calados.
As pessoas obedecem, menos o policial e a Graça que chega de novo no pé de ouvido do amigo e diz:
– Rapaz, você é bom mesmo, hein. Não sei o que fez, mas acionou rapidinhos seus colegas. Só me explica uma coisa, você é policial de zona portuária? Cara, que cheiro de peixe é esse.
O policial vira o rosto para a Graça, franze a testa, faz cara feia e sem falar nada dá uma gravata na moça que grita:
– Espera aí meu irmão. O que é isso. O cheiro está forte, mas não precisa fazer isso, né.
Antes da Graça continuar e gritar por socorro, o policial abafa a boca da moça com uma das mãos.
Mesmo deitados, as pessoas se entreolham sem entender o que está acontecendo, menos Oswaldo que está com a cabeça dentro da lixeira, procurando o tal chiclete que jogou fora. Ele nem desconfia do que está acontecendo. Com os olhos bem abertos, o senhor japonês aponta para o policial que está com a Graça e fala:
– É ele seu policial que roubou a minha peixaria e fugiu. Eu vi quando ele entrou no banco. Essa farda é um disfarce.
A Graça arregala os olhos, tenta gritar, mas é abafada pela mão agora do falso policial.
Um dos policiais de verdade grita:
– Solta a moça, rapaz. O banco está cercado.
O falso policial puxa Graça para um canto do banco e grita para os policiais.
– Se alguém chegar perto eu estrangulo a menina.
A Graça tenta desvencilhar-se dele e num impulso morde a mão do falso policial que grita, mas ele não a deixa fugir, aperta mais o pescoço dela enquanto a puxa para onde está Oswaldo. A idéia é aproximar-se de Oswaldo para ganhar tempo pensando em alguma idéia. Ao lado de Oswaldo e com a Graça tentando de todas as formas fugir, o falso policial grita:
– Ele está comigo. E tem uma arma na lixeira.
Alguma pessoas gritam, os policiais se entreolham e dão conta que existia um homem sentado, abraçado à lixeira com o rosto completamente dentro dela.
Um dos policiais grita para Oswaldo:
– Ei, você que está com a cabeça dentro da lixeira, saia daí com as mãos na cabeça.
Seguem dez segundos de silêncio total. Lentamente Oswaldo vai tirando a cabeça da lixeira e chorando fala:
– Eu não achei ainda moço. E se eu não achar? Eu só quero achar.
Um dos policiais fala baixinho para o outro.
– E se for granada que ele está procurando? Não está vendo a cara dele? Esse cara está é muito doido. Pede logo reforço que ele vai explodir tudo.
O companheiro pede reforço pelo rádio.
Depois dessa, o falso policial não tinha mais dúvida. Sua intuição estava certa. Ladrão descobre ladrão mesmo, onde quer que esteja, mesmo em fila de banco. Aquele cara esquisito que trocou olhares com ele na fila também era ladrão. E sua intuição diz mais: a julgar pelo teatro que está fazendo, o cara deve ter chumbo grosso escondido naquela lixeira. Seria seu dia de sorte depois de assaltar uma peixaria sem arma e depois arrumar um parceiro sem querer? Ou seria seu dia de azar? Ele se abaixa com a Graça que continua imobilizada pelo pescoço e fala ao pé de ouvido do Oswaldo:
– Cara, o lance é o seguinte: eu racho com você a grana da peixaria, mas passa logo o que você tem ai. Olha direito, impossível você não está achando. Faz o seguinte. Me passa aqui essa lixeira vai. Eu acho rapidinho.
E num movimento rápido somente com uma das mãos, o falso policial arranca a lixeira de Oswaldo que tenta impedir puxando de volta. O falso policial puxa com mais força, Oswaldo faz força no sentido contrário e diz:
– Eu não saio daqui sem essa lixeira. A minha sorte está aqui.
O falso policial retruca:
– Larga essa lixeira logo. Se você não achou, eu vou achar.
Oswaldo se irrita, arregala os olhos, segura mais firme a lixeira e diz:
– Não vale você ou alguém achar. Tem que ser eu. Me dá essa lixeira.
Os policiais se entreolham, um faz aquele gesto característico para o outro de quem não sabe o que fazer.
Oswaldo segura a lixeira com as duas mãos e puxa com força. O falso policial segura firme, mas está em desvantagem, afinal um dos braços está sendo usado para imobilizar o pescoço da Graça. O falso policial avisa pela última vez:
– Cara, solta essa lixeira. Deixa eu achar para você. A nossa vida está em jogo.
Oswaldo responde:
– A nossa não senhor, a minha.
E com um puxão forte consegue arrancar a lixeira. Aproveitando da situação, Graça morde o braço do falso policial e sai correndo para onde o nariz estava apontando. Enquanto isso, os policiais correm e imobilizam o falso policial que fala:
– É o meu parceiro? Vão pegar não?
Mais uma vez os policiais se entreolham. Um deles mira seu revólver em direção a Oswaldo e presencia uma cena inusitada: Oswaldo de pé, cabeça baixa, enfiada na lixeira, uma das mãos na borda da lixeira e a outra dentro. O policial dá ordem de prisão:
– Você está preso. Mãos para cima.
Oswaldo continua a sua busca.
O policial repete a voz de prisão e Oswaldo grita de dentro da lixeira. O som é abafado, mas todos conseguem entender.
– Achei, achei, achei. Eu sabia que ia conseguir achar.
A apreensão toma conta do banco.
Oswaldo diz:
– Só falta eu tirar ele. Tá pregado no fundo de um copo.
O policial dá um tiro para cima. Algumas pessoas gritam, outras choram.
Oswaldo fala mais alto:
– Você está achando o quê? Que eu vou sair daqui sem ele?
O policial perde a paciência aponta a arma para Oswaldo e devagarzinho anda em sua direção.
O falso policial diz:
– Ferra com esse cara logo, seu guarda.
O policial chega em Oswaldo e vai tirando com umas das mãos a lixeira de sua cabeça. Com a outra aponta a arma para a cabeça de Oswaldo. Ele tira por completo a lixeira da cabeça de Oswaldo que levanta a mão e mostra para todo mundo.
– Tá aqui seu moço.
Todo os olhares são direcionados para a mão de Oswaldo. O policial sem entender nada responde.
– O que é isso?
Oswaldo responde:
– O chiclete que eu joguei fora. Ainda bem que achei, senão seria azar para o resto da vida. 
As pessoas se levantam, umas com cara fechada, umas chorando e outras sorrindo. O policial responde a Oswaldo com cara fechada:
– Chiclete? Então essa história toda era por causa de um chiclete? Eu só não prendo o senhor agora, porque nos ajudou a prender o ladrão da peixaria, mas o senhor terá que vir comigo para se explicar na delegacia.
Oswaldo responde tranqüilo e sereno.
– Tudo bem, eu vou, mas só depois que ir ao banheiro. Depois do que eu passei, eu não to me agüentando. Onde é o banheiro, hein? Ah, tem papel? Hoje mesmo eu passei um sufoco no banheiro da rodoviária. Se não fosse o meu lenço…
A Graça aproxima dele e responde:
– Tem sim, moço, fui eu mesma que colocou lá, mas eu sugiro que o senhor limpe com o seu chiclete. E se despede com um tapa na cara de Oswaldo.
O falso policial algemado passa pelo Oswaldo e diz:
– Cara, ouça o que eu vou falar, vai ter revanche viu.
A REVANCHE está no ar com uma próxima história. 


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