A REVANCHE 2

Caro ouvinte, antes de prosseguir a leitura, sugiro que leia o texto anterior com o título “A revanche”. Abri os olhos. O coração batia mais rápido. Outro presságio por vir? Não, dessa vez foi pesadelo mesmo.
Por Fernando Góes

E tinha acabado de acontecer. Estava fugindo de dois caras numa floresta (caro leitor, permita-me abrir parênteses aqui. É para uma boa causa. A segunda maior floresta urbana do Brasil, a Floresta dos Goiatacazes, fica aqui em Linhares. Mata Atlântica merece parênteses por toda a sua extensão, não merece?) quando encontrei uma lagoa (juro que não estou recebendo um centavo da prefeitura. Mas como citei lagoa, não posso deixar de falar que Linhares possui a segunda maior lagoa em volume d’água do Brasil, a Juparanã que já foi visitada inclusive por Dom Pedro II).
Prendi a respiração e mergulhei. Abri os olhos debaixo d’água. Precisava ver se os caras passaram. Via perfeitamente, eles estavam me procurando (tem algum estudioso de sonho que possa me explicar porque em sonho acontece algumas coisas estranhas, do tipo “ver perfeitamente mesmo debaixo d’água?”). Como sair daquela situação? O fôlego estava acabando, ia dar bandeira. Então só me restava uma coisa. Acordar. E por uma boa causa. Para não ser descoberto pelos caras ou então não encontrar pessoalmente com Dom Pedro II e lhe dizer que a Ilha do Imperador (ilhota bem no meio da Lagoa Juparanã que recebeu a sua visita) está do jeitinho que ele deixou (não disse que não estou recebendo um centavo da Prefeitura?). É que levei a sério até demais a história de deixar “a personagem entrar” e segurei de verdade a respiração (a minha segunda pergunta para o estudioso de sonho seria: isso é possível acontecer?). O susto foi grande, o coração é claro respondeu e acordei. Com outro susto, lembrei do compromisso do dia. Imediatamente procurei o meu celular no criado-mudo. Que horas são?
Marquei com os caras (os da rádio) às 8:30h. Outro susto. Cadê o celular? Pulei da cama e pisei em alguma coisa; pronto. Lembrei de tudo. Não foi que o olho azul ficou roxinho da silva mesmo! Nem a hora do óbito marcava. Quem foi o responsável? Para mim foi suicídio mesmo. Ser relógio, televisão, aparelho de som, computador e ainda telefone não deve ser fácil. E tudo funcionando ao mesmo tempo, o tempo todo e ainda ouvir reclamações. Mas que horas são? Liguei a televisão. O Louro José dava bom dia. A Ana ria. Calculei que devia ser umas 8:05. Dava tempo. Levantei, rapidinho me troquei, escovei os dentes, peguei o envelope com o projeto e o CD com o piloto do programa e quando estava abrindo a porta do quarto, a Ana me chama.
– Ei? Você que está saindo de casa agora. Tenho uma mensagem pra você.
Opa! Seria um presságio? As mensagens de otimismo da Ana são sempre bacanas. Mas que horas são? Nem um celularzinho por perto. Saudades do velho tic-tac. Decidi que mesmo contrariado não me atrasaria. Talvez fosse melhor mesmo não me influenciar pela mensagem e sai.
Cheguei na rádio e fui logo perguntando as horas. A recepcionista, muito atenciosa, pegou seu celular que estava na mesa e me disse.
– 8:33. Minto. Acabou de mudar. 8:34. E riu.
Se fosse no tic-tac, ela diria 8:35. Depois das horas, perguntei se os caras estavam. Ouvi um não. Ela me disse para aguardar que eles estavam chegando. Pensei comigo. Eu que perco a hora e os caras é que chegam atrasado? O celular dela toca. Era uma recepção pequena e nem que quisesse não ouviria. Era a mãe da moça. O papo se estica e pensei comigo. Quem sabe pergunto a mocinha, para ela perguntar a mãe dela, se ela ouviu a mensagem da Ana? Dessa vez a Ana falou para mim. Para mais ninguém. Tomo coragem, me levanto, aproximo da mocinha que diz:
– Pois não.
Abro a boca e a porta da recepção abre junta. Entram dois caras. Eram eles, pois um me pergunta.
– Você que marcou com a gente?
Balancei a cabeça.
– Vamos nessa? Não se importa se a gente conversar na cozinha, né?
Opa! Algo de podre cheirava no ar. E não saia da geladeira que um deles abriu daquele cubículo que eles chamavam de cozinha, apesar da geladeira ser bem antiga e a maçã parecer velha. Um deles me oferece uma, não aceito enquanto o outro prepara três cafezinhos.
– E ai? O que você manda?
Não acreditei. Apresentaria o projeto em pé, em uma cozinha (cozinha? Aquele cubículo?) e com um monte de gente passando toda hora?
Já estava desestimulado. Precisava reverter a má impressão. Decidi mudar a estratégia de apresentação. E comecei pelo final.
– Preciso passar um CD pra vocês.
– Me dá ai. 
Um deles pega o CD e o coloca em um aparelho que está em cima da geladeira. Play no aparelho. Pau do CD. Play again, pau de novo. Ameaço culpar o aparelho. Ia pegar mal, mas a vontade era grande. Pego o aparelho na mão e o examino. De perto constatei. Quanta poeira! Mas era demais. Dentro e fora. Que rádio era aquela que não limpa o próprio rádio que inclusive está na cozinha (lugar que deveria estar limpinho?). Sorrindo, um deles me oferece um cafezinho que aceito, e me pergunta:
– Não deve ter sido problema no CD?
A primeira e última golada do café desce quadrado. Um motivo, o caro leitor já deve ter imaginado. O outro é que o café estava péssimo. Nunca tomei um café tão ruim (com certeza esse não é de Linhares, terra do café, cacau, mamão e agora do petróleo e gás natural). Mas antes de responder, fui iluminado. Decifrei tudo. Não era para apresentar o projeto mesmo. A culpa é dela, a proibida, a maçã. O fruto proibido é o sinal. É isso. O cara lá de cima gosta mesmo de mim (não o de cima desse texto, o lá de cima mesmo). Agora tenho certeza que a mensagem da Ana era realmente pra mim e para mais ninguém. E respondi calmamente.
– Com certeza é o CD. Vamos fazer o seguinte? Marcamos outro dia.
– Beleza. Marca outro dia com a Ana, a recepcionista.
Precisa dizer mais alguma coisa? Por falar em “falar mais alguma coisa”, acho que falei demais. No próximo capítulo de “A revanche” (acho que já está sacando o motivo do título né), a mensagem da Ana (a Braga), a primeira história hilária e recheada de suspense e muito mais. A revanche só está começando.


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