A REVANCHE 4

A revanche parou. Afinal, o amedrontado do Oswaldo precisava de um tempo. O suor corria-lhe à testa e a adrenalina, no sangue. Mas a revanche precisa continuar. Oswaldo enfia a mão no bolso esquerdo de sua calça, arregala mais os olhos, abaixa o olhar em direção ao bolso.
Por Fernando Góes

O movimento faz com que o suor de sua testa escorra para o chão. Oswaldo mexe, insistentemente, sua mão dentro do bolso como alguém que procura algo muito importante, mas não acha. Ele solta um sorriso tímido. Lembrou de algo engraçado que aconteceu naquele mesmo dia pela manhã. O lenço que ele sempre carrega foi deixado de “brinde” na lixeira do banheiro da rodoviária. Para Oswaldo, lenço é para isso mesmo: não passar por maus lençóis, pelo menos em banheiro de rodoviária.
Em fila de banco, dá-se um jeito. Oswaldo tira a camisa de dentro da calça e com ela, limpa o suor de sua testa. O nervosismo dele já se denuncia pelo suor excessivo. Oswaldo tenta acalmar-se, levanta a cabeça, olha para cima, fecha os olhos, respira fundo, vai abaixando a cabeça enquanto solta o ar bem devagar ao mesmo tempo em que vai virando o rosto em direção à lixeira. Oswaldo abre os olhos e então descobre o policial em sua mira, ao lado da lixeira, saboreando um copo d’água, encarando-o. Imediatamente, Oswaldo tira os olhos do policial, mas percebe que, antes de o homem de cara de poucos amigos voltar para o seu lugar na fila, ele olhou para dentro da lixeira. Oswaldo passa a mão na testa encharcada, limpa o suor com a manga da camisa, olha para baixo e logo vem em sua cabeça duas perguntas. Será o policial, na verdade, um assaltante disfarçado de policial? Uma pegadinha? Uma única certeza. O olhar do policial não é de quem está interessado em alguém, mas, afinal o que aquele policial pode querer com Oswaldo?
Oswaldo não quer perder tempo pensando em respostas. Ele se conhece, e sabe que só tem um jeito de resolver a aflição pela qual está passando. A angústia só terá fim quando ele for até a lixeira de novo e comprovar se o chiclete que jogou fora, caiu dentro de alguma coisa e permaneceu por lá. A probabilidade é muito grande do chiclete ter caído dentro de um copo plástico, por exemplo, e ter ficado lá dentro. Afinal a lixeira está debaixo do garrafão de água que está ao lado de um suporte com vários copos de plástico, e com certeza, pelo menos alguns caíram de cabeça para cima. Oswaldo, quando jogou fora o chiclete, não comprovou se ele caiu dentro de algo e permaneceu ali. Ele desconcentrou-se com a encarada do policial. Se o chiclete caiu dentro de alguma coisa e permaneceu por ali, Oswaldo acredita em azar na vida, como por exemplo, passar por debaixo de escada ou ver gato preto. Para Oswaldo, o que for jogado por ele em uma lixeira ou em outro recipiente qualquer, não pode cair dentro de alguma coisa e permanecer por ali. Se Oswaldo comprovar que caiu e tirar, não tem problema. O problema é não retirar, se ele comprovar que caiu dentro. Essa é a superstição de Oswaldo que decidi esquecer o policial e ir lá comprovar se o chiclete realmente caiu ou não dentro de algum copo. Antes, porém, Oswaldo levanta a cabeça, fecha os olhos, faz uma massagem com as mãos no ombro, balança a cabeça de um lado para o outro, e vai virando a cabeça para onde está a lixeira. Oswaldo abre os olhos, toma um susto, arregala mais ainda os olhos, o coração acelera. Oswaldo sente um pingo de suor da axila direita escorre-lhe pelo braço quando vê a servente do banco se aproximando da lixeira com um saco nas mãos. Caro ouvinte, com a aproximação da servente, mais uma A REVANCHE se aproxima do final. Até a próxima.


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