A saudade em pinceladas

Caros leitores, hoje assisti a uma defesa de doutorado cujo tema central circundava uma artista plástica local chamada Valda Costa. A autora, Jacqueline Wildi Lins, recuperou parte do rico acervo e contou um pouco da história dessa artista que circulava pela Floripa das décadas de 70 e 80, mas que se mantém no imaginário da cidade.
Por Marilange Nonnenmacher

Bem, eu fiquei cá pensando: quantos artistas plásticos favorecem a manutenção de uma memória urbana? Posso citar muitos, mas hoje começo pela intensa e colorida obra de Tércio da Gama.


Tércio da Gama. O Mito e a Magia da Ilha, 1998. Acrílico sobre tela, 150x50cm.  Foto: Marilange Nonnenmacher


Tércio Gama. Lagoa da Conceição, 2008. Acrílico sobre tela, 100 x 100 cm.

Antes de escrever-lhes estas linhas, tive que pedir autorização ao artista plástico catarinense Tércio da Gama, egresso do Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis – GAPF – criado em 1958, gostaria de mostrar-lhes como por meio da arte a memória urbana pode ser preservada, segundo mostra o estilo desse artista. 
Assim, apresento duas de suas obras que aprecio pelo grande apelo memorialístico, irradiado num transbordamento de cores numa montagem surrealista. Tércio, nosso artista manezinho, prima pela memória como recurso para mergulhar em suas experiências vividas, a fim de transportá-las para a tela e apresentar sua desilusão e instabilidade diante da frenética mudança no panorama urbano de Florianópolis que ocorreu, principalmente, após a década de 1970, com a construção do Aterro da Baía Sul. São vivências passadas para tela. São experiências pinceladas.
Para isso, ele recorre aos mitos, aos ritos de iniciação e ressurreição, à farra do boi, às rendeiras, às crianças e suas pipas, à Maricota, à Bernúncia, aos folguedos das festas do divino, às bruxas, às estrelas, ao Trapiche Miramar, à Lagoa da Conceição, ao Pão-Por-Deus, que entre outros elementos da mito-magia regional misturam-se convulsivamente na composição de Tércio, que sintetiza, a partir de seu olhar, a perda da pureza infantil e dos mitos e magias da Ilha que protagonizam os autos populares.
A perda da infância e do lúdico está contada em suas telas, e, tais elementos compõem sua seleção temática, como um recurso para demonstrar a dor da perda dos lugares tradicionais e de memória da cidade. Por meio da sua pintura, Tércio possibilita a criação do novo, singular, inesperado e inesgotável. O pintor, em sua essência, prima pela nostalgia e lamenta o esmorecimento das tradições, dos espaços, dos personagens e lugares onde se encenou sua infância e juventude.
Não pretendo no interior desta breve exposição analisar o conteúdo estético formal de sua obra, considerando que não tenho o domínio teórico e prático para tal mas, certamente,  são crianças soltando pipas, noites enluaradas, festejos locais, o Mercado Público, o Complexo Industrial Hoepcke, a Ponte Hercílio Luz, os barcos, a Bernúncia, as sereias, os cortiços, enfim, versões de um passado contado por meio de representações imagéticas do pintor e… que me contagiam.


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Por Marilange Nonnenmacher

Doutora em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e foi professora colaboradora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Dedicou-se mais recentemente à pesquisa e estudo de hábitos e costumes da cidade de Florianópolis e da Ilha de Santa Catarina onde reside.
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