A sombra da modernidade chegou tapando o sol que brilhava e aquecia

Que as grandes cidades estão em pleno crescimento nos últimos anos todos já sabem, mas o avanço da construção civil atinge também as pequenas cidades espalhadas pelo país. Obras, construções de casas, prédios e investimentos na área tem sido vistos por todo o canto do país. Trata-se a meu ver de um mal necessário. Minha família é do sul de Minas Gerais, da cidade de Itajubá. Rodeada por montanhas, com clima seco e frio. Quem tiver a oportunidade de conhecer ou morar lá, vai perceber que mesmo no verão após as 4 da tarde, começa a refrescar, dorme-se até de lençol e as vezes de cobertor.

Lá ainda temos casas com alpendre, quintal com varal para pendurar as roupas e não as modernas lavanderias. Ainda vêem-se as antenas de televisão pé de galinha. Quando andamos pelas ruas da cidade, somos conhecidos pelo nome e não temos vizinhos, contabilizamos amigos que cuidam de nós, de nossa vida e de nossas casas. Há apenas 2 ou 3 semáforos espalhados pela cidade.

Fui criada numa casa onde o vitrô da cozinha dava para a Igreja São Benedito – que hoje é matriz – do bairro da Varginha. Assim, não eram necessários termos relógio em casa, nem de pulso, bastava abaixar um pouco a cabeça e olhar na direção do relógio da Igreja, que, na época do responsável Sr. João de Oliveira, estava sempre pontual.

Há memórias também auditivas desta época, quando no tempo de criança ouvíamos a Rádio Relógio Federal do Rio de Janeiro, que transmitia com o prefixo ZYJ-465 em ondas tropicais em 4905 kHz, que nos informava minuto a minuto, para que não perdêssemos a hora de ir para a escola ou para que o pai não chegasse atrasado ao trabalho.

Para quem acompanha o noticiário nacional, a pacata Itajubá, já foi citava em várias ocasiões, visto que por duas vezes já foi invadida pelas águas do Rio Sapucaí, que corta toda a cidade. A cidade e a região do sul de Minas Gerais foram destaque devido as sérias enchentes ocorridas geralmente no final do ano quando as chuvas costumam ser torrenciais. Nossa cidade também é notícia positivamente divulgando as pesquisas universitárias principalmente aquelas realizadas na UNIFEI.

Mas, com o avassalador crescimento imobiliário também chegou à Itajubá e as coisas começaram a mudar na cidade e principalmente no bairro onde nasci e cresci. Certo dia, um investidor na área da construção civil começou a comprar as casas da vizinhança, duas foram suficientes para a construção de um prédio, que terá dois blocos e 6 andares.

E o que aconteceu? Trincas e mais trincas surgiram nas sólidas e antigas moradias da vizinhança. A reclamação foi geral do ensurdecedor bate-estaca, mas a construtora se responsabilizou e fez todos os reparos necessários. Ficamos felizes? Claro que não. Teremos um vizinho alto e diferente, teremos mais movimento na rua apesar da modernidade tão necessária. Infelizmente não nos opusemos à chegada do espigão. E agora, teremos olhares vindos do céu a fiscalizar as nossas vidas e não será apenas o olhar do divino.

Mas o que mais nos entristece é que, embora o Sr. João de Oliveira (falecido) já não arrume mais o relógio da Igreja, que está parado há anos, com a subida do prédio não poderemos mais avistar o relógio, tampouco a torre da Igreja que sempre fez parte de nossas vidas. Quanto a Rádio Relógio carioca, não conseguimos mais sintonizá-la em nossos rádios domésticos.

Já o sol, aquele que sempre iluminava nossa casa, que aquecia as paredes, que ajudava a quarar as roupas brancas espalhadas pelo chão, que era citado com orgulho por minha avó e tias, se foi. Com a subida do prédio ao lado, hoje temos a sombra. No inverno a casa está gelada. Há agora poucas horas em que o sol aparece no quintal, hoje o sol já não invade a casa aquecendo e iluminando todos os cantos. Ainda bem que minha avó e tias não estão aqui para ver isso… elas já foram para o outro mundo.

A sombra da modernidade chegou tapando o sol que brilhava e aquecia. O sol que envolvia a casa da minha avó se foi…

2 respostas
  1. Tania Silva says:

    Pois é, Rúbia, eu tenho muito medo desta modernidade. Com ela vem o individualismo exagerado. As pessoas se trancam em seus apartamentos e nem olham para os vizinhos de porta. Fogem deles como se fossem inimigos. Muitas vezes agem assim também com os seus, entre suas quatros paredes. Como é bom o vizinho/amigo bater a nossa porta para desejar um Feliz Natal/Ano Novo e ser convidado a entrar para um brinde.
    Assim, fugindo desta sombra, é que procuro por cidades cada vez menores para viver. Desejo que minha filha tenha a seguir exemplos de companheirismo, vivendo num ambiente com prática do amor e respeito ao próximo…

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