A taça

Ele sempre andava bem vestido, perfumado, barba bem feita e cabelo arrumado. Como se não bastasse a boa aparência: a natureza fora muito boa com ele, diziam os amigos; tinha também uma conversa, uma lábia, que fazia qualquer político invejá-lo. Assim era Raul.

Preferia esse diminutivo; não gostava da escolha que o pai fizera uns 28 anos antes. O pai o registrou: Raulino Pinto da Silva. Desde pequeno mantinha uma indignação pelo pai que ao ir ao cartório registrá-lo, bêbado como quase sempre, e esquecendo o nome combinado com sua mãe: Arthur Silva, deu ao filho o nome do amigo de bar que o acompanhava, tão bêbado quanto ele; registrou o filho, Raulino Pinto da Silva. Raul, como costumava apresentar-se, ganhava atenção das mulheres tanto quanto dos amigos.

A lábia de Raul cativava amigos e encantava as mulheres. Nenhum amigo entendia como ele havia chegado aos 28 anos solteiro com tantas namoradas e demais mulheres apaixonadas. Raul costumava dizer que só se casaria com uma mulher rica, de preferência, muito rica. Poderia até ser mais velha que ele; a conta bancária era o ponto; dizia isso sem pudor algum. Afirmava que queria curtir a vida com o mínimo de trabalho.

Certo dia, numa festa de casamento, conheceu Maria Esperança da Glória. Educada, simpática, elegante; terna como uma mãe e delicada como uma princesa. Raul percebeu logo essas qualidades, mas não sabia da principal segundo os seus próprios padrões. Um dos amigos, Leonardo, disse a Raul:

– Que tal a dona Maria? Gostou dela? Passou uma conversa?

– Deixe de ser tolo, Leonardo. A mulher é fina, elegante, mas tem idade para ser minha mãe.

– Mãe? Talvez quase avó. Ela tem 68 anos. É 40 anos mais velha que você.

– Realmente, não parece. Daria a ela, uns, 56. O que mais sabe sobre essa senhora?

– Eu conheci o falecido marido dela, senhor Valter Glória Pereira. Não puderam ter filhos. Ele morreu há uns 10 anos. Infarto. Homem muito rico, aliás, milionário. Um respeitado empresário e empreendedor. Sem parentes de nenhuma das partes tudo ficou para dona Maria. Coitada. Tão rica e sozinha. Se bem que ela viaja bastante pelo mundo todo.

O breve e claro relato passado por Leonardo entrou como uma flecha na mente de Raul. Muito rica, milionária, sem filhos, viaja pelo mundo… Raul se despediu de Leonardo e aproximou-se de dona Maria com toda sua graça. Disse:

– Perdão, o vinho está à mesa e sua taça, vazia, posso servi-la? O garçom mais próximo parece estar bem ocupado. E uma bela dama, tão elegante e fina com uma taça vazia; algo me diz que isso não pode acontecer.

– Ora, que gentil. Pensei que não existissem mais homens assim, principalmente, tão jovem.

– Ainda que eu fosse um elo perdido; devo me honrar ao ouvir isso. Meu pai era assim. Aprendi a ser assim. Não posso me imaginar agindo diferente. Bem, já tive a honra de servi-la, agora vou deixá-la em paz. Algo que também aprendi, não importunar a ninguém, quanto mais, tamanha elegância e discrição. Aliás, uma combinação que podemos dizer, um presente raro, numa só pessoa tanta elegância e discrição. Até logo.

– Obrigada! Divirta-se. Sua namorada deve estar sentindo sua falta.

– Ah, sim, me divertir. Com respeito as músicas admito que sim. Boleros, valsas e tangos; aprecio muito. Me falta é uma parceira que goste das lindas poesias em forma de música. E não tenho namorada. Havia uma, terminamos. Tudo bem, ela terminou. Creio que ela tenha feito uma boa escolha. Para um homem que quer casar-se e constituir família unir-se em matrimônio com uma jovem de 23 anos que almeja uma carreira de sucesso; não daria certo.

– Lamento. Creio que um dia ela irá arrepender-se muito. Perdão, meu jovem, como é mesmo seu nome?

– Eu falo meu nome, mas prometa-me não dizer que sou jovem. Queria ter entre 40 e 50 anos, pelo menos. Meu nome é Raul. Só tem um detalhe, não tenho segredos com meus amigos. Aprecio a verdade, a essência das pessoas. Digo isso porque durante anos tive vergonha do meu nome, acredita-me?

– O que é isso, meu jo… Perdão. O que é isso, meu amigo. Se é que posso chamá-lo assim. Ninguém deve sentir vergonha de seu nome. Deve sim ser o som que mais apreciamos ouvir. Eu gosto do meu nome, Maria Esperança da Glória. Achou feio ou estranho?

– Tão lindo quanto a senhora. Maria, um dos nomes mais importantes do mundo. Afinal de contas, está nas Escrituras Sagradas. Que mulher incrível foi Maria. Esperança, uma palavra que nos faz viver e reviver. Glória, um dos alvos que nós, humanos decaídos tanto almejamos. E o que é glória senão o mais nobre dos sentimentos, o amor.

– Estou encantada com você. Há muitos anos não ouvia um homem em tão pouco tempo proferir tantas coisas boas. Ah, vai me achar uma esnobe. Não digo só por ter me elogiado. Você é tão elegante e gentil que me deixou perdida e sem graça. E veja se eu lá tenho idade para ficar: sem graça.

– Só sei, Maria, que sempre é tempo de amar. De buscar essa glória que trazes desde o berço. Primeiro, perdão por não dizer, dona Maria ou senhora Maria. Estou sem graça também. Nunca havia me sentido assim antes. Parece que somos amigos de infância. E, afinal de contas, meu nome. Se rir, vou apreciar seu sorriso. Me chamo, Raulino Pinto da Silva. Pronto, falei.

– Pois acho um belo nome. Forte. E tenho certeza de que foi seu nobre e elegante pai que o escolheu com muito cuidado. Deve ter se inspirado em algum grande nome; talvez um monarca ao qual agora não nos vem à mente, ou quem sabe um personagem de nossa rica literatura. Uma coisa é certa, seu pai escolheu esse nome com o mesmo cuidado com que lhe ensinou tanta gentileza. Talvez fosse o nome de algum importante amigo dele.

– Creio que ele estava mesmo inspirado quando escolheu meu nome. E, algo me diz que Raulino fora um grande amigo dele.

Semanas se passaram e os amigos perguntavam ora com ironia ora com preocupação quando eles iriam se casar. Raul e Maria encontravam-se todos os dias. Cinema, teatro, restaurantes, bares, festas. Passados dois meses do primeiro encontro Raul reuniu os amigos e anunciou o casamento. Leonardo foi o primeiro a protestar:

– Raul, Raul, tudo bem. Você é o mais bonito da turma, tem uma lábia incrível, já curtiu com a dona Maria, mas casar? Me diz uma coisa, vocês já…?

– Isso é lá coisa que se pergunte, Leonardo. Mais respeito.

– Calma, rapaz. Desculpe. É que você já teve pra mais de 50 namoradas e sempre falou numa boa.

Luiz, um dos amigos, ponderou:

– Tá certo, Raul. A decisão é sua, mas pense bem. Você tem 28 anos, ela tem 68. E daqui a 10, 20 ou 30 anos? Não que ela vá durar tanto, mas quando ela ficar bem velhinha, o que vai fazer?

– Que coisa, quantas perguntas. Vim dar uma boa notícia e convidar vocês para o casamento e recebo isso?

O Raul está certo – disse, Felipe – vamos comemorar. Sempre fomos amigos e unidos; se um está feliz, todos estão felizes.

O casamento foi um sucesso. Não era apenas Maria que não tinha mais família; Raul era filho único, seus pais já haviam morrido e não tinha notícias de parente nenhum. Os amigos de Raul e uns poucos convidados de dona Maria celebraram a união. Os amigos de Maria olhavam com desconfiança para esse casamento. Maria era uma mulher não apenas milionária; pertencia a elite da região de Florianópolis.

No dia em que o casal completava dois anos de casamento Raul ouviu sua esposa fazer um pedido, aliás, ela raramente fazia um pedido:

– Raul, quero ter filhos com você.

– O quê?

– Sim, filhos. É o que falta em nossa relação, em minha vida.

– Meu amor, Maria, nós temos planos de fazer viagens.

– Temos viajado desde que nos casamos, há dois anos. Sempre quis ser mãe. Ah, vamos meu amor. Não nos falta nada e nada faltará aos nossos filhos.

Em alguns meses adotaram um menino de 3 anos que vivia num orfanato, Raphael. Dois anos depois adotaram dois irmãos, também do mesmo orfanato, Miguel, de 4 anos e sua irmã, Emília, de 6 anos.

Maria e Raul fizeram a festa de 10 anos de casamento. Ela com 78 anos mantinha a mesma aparência do dia em que se conheceram. Raul, com 38, havia engordado e mesmo com os pedidos da esposa, que só isso lhe pedia depois da adoção das 3 crianças, para que se cuidasse mais; não queria perdê-lo, dizia ela, com voz delicada e um olhar apaixonado.

Os amigos de Maria já eram poucos quando ela se casou, agora, 25 anos depois, na festa de bodas de prata, eram um ou dois, mas não tiveram condições de ir à festa. Os amigos de Raul estavam preocupados. Sabiam que Raulino era boa gente, mas também sabiam do seu casamento por interesse, interesse nos milhões ou bilhões que tinha dona Maria e que o amigo imaginara que alguns anos após o casamento, enquanto ainda jovem, iria usufruir a fortuna da esposa, quando viúvo. A festa estava linda. O jantar, o lugar, tudo maravilhoso. Maria, aos 93 anos, já mostrava sinais de idade avançada. Ao mesmo tempo, qualquer um que olhasse sua elegância e rosto saberia que havia sido uma linda mulher; há traços na alma e na aparência que o tempo não consome. Ela, num belo vestido azul, entrou no restaurante ao som de saxofone e violino da música, Bésame Mucho. Manteve passos lentos não por ela, mas por Raul, que aos 53 anos, acometido de diabetes já por uns 15 anos e há 10 por um leve AVC, contava com a paciência de Maria.

Dias depois de completar 27 anos de casamento os amigos estavam reunidos. Os filhos, Raphael, com 28 anos, Miguel com 27 e Emília, 29. Os amigos de Maria Esperança da Glória já haviam morrido. Os amigos de Raul, todos na casa dos 50 anos, estavam presentes. Triste despedida. O perfumado, bem vestido, bonito e com uma lábia de dar inveja a qualquer político estava num terno de 10 mil reais. Um dos amigos disse que só o caixão havia custado 30 mil; Maria não poupou nada a Raul nem naquele momento. Estava inconsolável. Raul se foi com apenas 55 anos.

Algumas semanas se passaram e Maria Esperança da Glória, aos 95 anos, de dentro de um helicóptero, com as cinzas de Raulino na mesma taça em que ele tão gentilmente lhe serviu o vinho 27 anos atrás, quando se conheceram naquela festa, lentamente jogou suas cinzas ao mar da Grande Florianópolis. A taça trouxe ao seu peito onde repousou uma lágrima. Maria ficou sabendo no dia do seu casamento por meio de Felipe, que estava completamente bêbado, a verdadeira história do nome de Raul e suas aventuras amorosas. Felipe não lembrava que havia falado;

Maria, com sua discrição, jamais comentou o assunto, nem mesmo com Raul. Por isso decidiu cremá-lo. Sabia que ele não gostaria de ter um epitáfio com seu nome.
Maria já completou 100 anos. Tem 3 filhos e 4 netos. Os filhos às vezes estranham o fato de ela repetir a frase: “Nunca é tarde para se amar”. Jamais permite que alguém coloque bebida alguma naquela taça. Ela fica sentada por horas numa confortável cadeira com a taça vazia sobre uma bela mesa e uma garrafa de vinho ao lado, mas Raul não está ali para servi-la.

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