A terra é boa, Herculano

Um amigo do Alegrete me escreve perguntando se pode vir firme, sem perigo, passar uns dias na Ilha. Diz que é uma velha vontade, mas se confessa ainda ressabiado com aquela famosa sucessão de empurrões, calçapés e nomes feios desferidos contra altas autoridades, em pleno centro de nossa capital, há uns tantos anos.
Por Flávio José Cardozo

“É um negócio já antigo, eu sei”, explica ele, “mas foi tão chocante que é como se tivesse acontecido hoje de manhã.” Ele refere-se à dramática passagem do presidente Figueiredo por aqui. Meu amigo é um tipo evidentemente impressionável, que lembra também alguns desastres, como aquele da Transbrasil no Morro da Virgínia, e fala até de enchentes, como se o Itajaí-Açu fosse um rio desterrense, ignorância que o bom povo de Blumenau e adjacências há de perdoar.
Por fim, ele perora: “Eu quero conhecer as tais quarenta e duas praias, ouvir o tal chiado nos sss do pessoal, comer os tais camarões que vocês colocam tão alto quanto nós aqui colocamos Sepé Tiaraju e Mário Quintana. Quero ir aí queimar o lombo, ficar uma semana boiando em absoluta preguiça. Agora, apanhar de vocês eu preferia que fosse pra mais adiante e morrer afogado ou dar de cara num morro não é bem o meu maior desejo. Dizem que isso aí é um viveiro de bruxas, chê! Me responda, por caridade: sim ou não?
Pois respondo ao medroso.
Herculano: a terra é boa e quem disser o contrário mente como um filho da mãe. Esta frase (com exceção das palavras “como um filho da mãe”, que são uma contribuição minha) é do nosso fundador Dias Velho, que turistas argentinos, que digo eu?, que piratas ingleses despacharam desta vida lá pelos idos de 1689. Invoco a frase do patriarca porque ela exprime a nossa maravilhosa verdade, é curta, rasteira e reta como poucas frases de propaganda já o foram. Esta Ilha de Santa Catarina, Herculano, não é santa apenas no nome – ela é santa em quase tudo e acho que meus trinetos, por mais que as coisas do mundo se compliquem, estarão dizendo o mesmo lá por 2040. Todos são bem-vindos ao seu terno regaço, sejam imperadores ou sejam farofeiros, venham em jatão da Transbrasil ou em desvairadas motocas. Venham até mesmo nesses carrinhos infames que a Argentina tem a coragem de parir e soltar pelas estradas. A notícia de que temos bruxas e de que elas, de vez em quando, deixam suas tocas e vêm bagunçar um pouco este paraíso, sei lá, pode até ser uma notícia exata, nisso não meto minha mão, sou um racionalista mas também não sou um debochado contra as crenças alheias. Nosso bruxólogo-mor, o pesquisador Franklin Cascaes, tem aí umas histórias sobre o assunto e os desenhos dele dando corpo a essas etéreas criaturas são de deixar os mais fracos, entre os quais evidentemente não estou, de cabelinho em pé, Herculano. Mas pode ficar tranqüilo, amigaço: a terra é boa, te manda sem receio, te manda que já estou encomendando meio balaio de siri ao Seu Dedeco da Barra da Lagoa.
Não vou te humilhar dizendo que multidões de forasteiros estão neste momento trafegando por nossas ruas e estradas, todos eles sem a mínima preocupação como essa que manifestas. Deles não te falo. Mais sutil, te mando pelo correio um volume danado de bom trazendo relatos de velhos viajantes que por aqui andaram. Quando souberes o que de nós já se dizia em séculos passados, vais perder a cisma, ficas logo sabendo que nossa hospitalidade é uma vocação histórica. Porque em verdade eu te digo, Herculano: apesar dos arranha-céus intrusos e dos tantos estragos já feitos na paisagem, sobrevive nesta Ilha muito do espírito terno e caipira que mereceu tanto louvor de bocas como as de Frezier, La Perouse, Langsdorf, Chamisso, Saint-Hilaire. Sobrevive, sim. Para eles, éramos um povo dócil e generoso e nada pareceu mais lindo ao experiente Saint-Hilaire que os nossos arredores. Lê essas referências cheias de entusiasmo e vais entender que o meu ufanismo tem raízes. Outros falaram mal de nós, claro, mas de quem não se falou mal neste mundo? Um certo Shelvocke, vais ver no livro, nos chamou sonoramente de bandidos. Bandidos, mestre Herculano. É evidente que isso nem nos ofende: na boca dum pirata safadão como Shelvocke todo agravo é elogio, não é mesmo? Pernetty escreveu que nossos ares eram perniciosos, que aqui se comia macaco todo dia e que vivíamos cercados de muita fera, cobra e bicho-do-pé. Um morrinha esse francês. Para não dizer essa francesa frescalhona. O escocês Lisle disse que a Ilha era fertilíssima mas os habitantes muito preguiçosos. Quer dizer, aquele bebedor de uísque numa tremenda mordomia, passeando pelo mundo, e nós que vivíamos numa dureza dos diabos é que éramos os vadios. Conto estas abjetas implicâncias para que saibas, Herculano, que não é de hoje que sai uma ou outra bobagem a nosso respeito.
A verdade é que não terás olhos, como não os teve Dom Pedro Segundo, para medir nossa hospitalidade. Uma vez, Dom Pedro Segundo ia passando em direção aí do Rio Grande e desabou sobre seu imperial navio uma tempestade. Devia ser o nosso vento sul, que é um festival belíssimo de bruxas que cultuamos sempre com devoção e espanto. Pois bem: adivinha onde se abrigou Dom Pedro? Na Praia de Fora, sim, senhor. Três dias ele ficou ali, quietinho, resguardado, mais seguro do que se estivesse na cama do palácio. A tormenta passou, Dom Pedro foi ao Rio Grande e sabes que na volta ele fez questão de descer cá nesta Ilha para retribuir nosso acolhimento? Dizem que até distribuiu presentes aos moradores. Conto isto para que saibas, Herculano do Alegrete, que temos um bruxedo bom e que as pessoas ficam docemente cativas dele.
Existem então as bruxas? Não sei. Elas por aqui têm fama e não sou dos que fecham agressivamente as portas ao debate do transcendental. Mas, sim ou não, te bota na estrada, índio velho! Vale a pena, isto aqui é coisa de não se perder nunca. Trezentas mil bruxas e lobisomens não conseguiriam jamais quebrar o nosso encanto. Depois, um homem é um homem, pombas!, ainda mais sendo um bombachudo dos pagos do Alegrete. Em todo caso, que Deus te acompanhe. E que não te largue. Um abraço.
(Do livro Senhora do meu Desterro, Florianópolis, Lundardelli / Fundação Franklin Cascaes, 1991)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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