A TV alternativa do senhor

Esqueça o descarrego; emissoras apostam em culto moderno para evangelizar. Em termos televisivos, a noite dominical é um dos horários mais insólitos e indesejáveis.

[ Júlio Ettore Suriano ]

JulioEttoreEm termos televisivos, a noite dominical é um dos horários mais insólitos e indesejáveis. No Limite para convidar ao sono, a “dança do siri” também não ameniza o pânico do iminente começo de semana. Outros, mais fotofóbicos ou insones, se arriscam madrugada a dentro. Nessa aventura, já passa das duas quando uma sessão de zapping na TV aberta termina em um rapaz jovem e esbelto, de fala articulada, que apresenta os clips de artistas com alta cotação no mundo pop, como Jon, Bon Jovi e Goo Goo de Olls, além do colombiano Juanes, que já ganhou diversos Grammy – embora o autor desconhecesse a sua existência. Após cada vídeo, a ficha completa dos artistas, incluindo últimas fofocas publicadas em blogs especializados. Não se trata de um corujão da MTV nem de outro canal de vídeo clips. Está no a mais pura televisão religiosa.

Apresentado pelo carismático Cris Rossetti, o Rota Musical está em uma edição de dia dos namorados – um reprise. Ou seja, só tocam clips dignos de amores juvenis. Pra completar, nas vinhetas de entrada e saída de blocos são exibidas fotografias de casais, com molduras em formato de corações, e o telespectador ainda pode enviar, pela internet, um vídeo pedindo uma música ou deixando uma mensagem para a “galera”.

E o leitor se lembra daquela musica de pop-rock dos anos 1990 que diz “sonhos de uma noite de verão, mira… mira…”? É assistindo ao programa que o autor descobre que a banda responsável é de Campinas/SP, se chama Quatro Fatos e ainda está na ativa. Quando as duas da madrugada beira a segunda metade, o programa chega ao fim e, finalmente, é possível se situar na TV Aparecida: “fiquem com o papai do céu e até a próxima, tchau!”

As vinhetas dos reclames, assim como as do Rota Musical, exibem efeitos especiais e qualidade de imagens que deixam onipotentes redes no mesmo nível. O autor comparou então a programação da última com uma dessas gigantes. Escolheu justamente aquele da qual um bispo é dono, mas onde boa parte da programação não tem compromisso com qualquer credo. Lá, está sendo exibido um quadro chamado Corredor dos Milagres, e certo número de fiéis da Igreja Universal forma uma fila até um homem, que coloca um microfone em seus lábios e quer saber como foram salvos. “Me disseram: ‘tem uma igreja que procura as pessoas…’ eu disse: me leva!”, suplica uma senhora aos prantos. E você sabe como identificar um encosto na sua vida? Ele dá os 10 sinais: dores de cabeça, insônia, doença sem causa diagnosticada, vultos, audição de vozes… (o autor garante que não tem insônia, foi apenas uma hipérbole no início da matéria).

As formas alternativas de se difundir o evangelho vão além. Outro canal de TV aberta exibia uma roda de discussões, com quatro homens vestidos em trajes esporte e sentados em um cenário escuro. Ao fundo é possível ver as câmeras se movimentando e os holofotes, como em uma metafilmagem. Em pauta, a vitória da Seleção Brasileira por 3 X 0 contra a Itália na tarde anterior e os resultados do campeonato brasileiro, sobrando espaço até para o craque Ronaldo e os travestis. O programa chama-se Masculino e foi veiculado na também religiosa Boas Novas.

Com a multiplicidade da informação televisiva produzida hoje no Brasil, principalmente se somarmos os serviços de TV por assinatura, as excentricidades narradas poderiam passar despercebidas. Mas o nariz jornalístico do narrador julgou este tema “cheiroso” porque existem, em Florianópolis 16 canais de TV aberta. Destes, cinco de grandes emissoras e encontram-se na faixa de frequência VHF (Very High Frequency – que vai de 30 a 300 megahertz e compreende, no Brasil, aos canais que estão entre os números dois e 13 da sua TV). Já nos outros 11 – essa conta inclui outra grande emissora que, devido a um acaso de mercado, sumiu repentinamente dos canais “pequenos” e hoje é exibida na quinta dezena – estão seis redes que exibem conteúdo religioso na grande maioria da programação.

No total, somando-se VHF e UHF (Ultra High Frequency, do canal 14 ao 69), a televisão exclusivamente religiosa soma, na Capital catarinense, 37,5% de todos canais disponíveis, mais de um terço.

Presente em mais de 100 cidades brasileiras, além dos EUA, parte da Europa e África, a Rede Boas Novas (Canal 28), do pastor evangélico Samuel Câmara, inclui em seu patrimônio servidores digitais de áudio e vídeo e câmeras de alta definição, segundo dados da própria emissora. Tudo fica em uma sede de 13.000 metros quadrados, localizada na cidade do Rio de Janeiro. Na página eletrônica é possível assistir à rede ao vivo e ainda ler uma versão on line da Bíblia, divida em 31.102 versículos. A transmissão pela internet, aliás, não é exclusividade da Boas Novas. Auto proclamada “A maior rede católica de televisão do mundo”, a paulista Rede Vida “canal 20”, do jornalista de Barretos/SP e filho de pião João Monteiro Filho, também disponibiliza sua programação on line. Presente nas 443 “mais importantes cidades brasileiras” como TV aberta, mantém em seu site até um sistema de pedidos de missa.

Outra emissora que merece destaque é a Canção Nova (canal 23), ligada à Renovação Carismática Católica – movimento protestante que surgiu nos EUA da década de 1960, com o objetivo de gerenciar a identidade católica de suas filiações ao redor do mundo. A emissora é de propriedade do monsenhor Jonas Abib, um sacerdote e líder religioso do interior paulista. O grupo possui ainda um blog uma rádio AM e outra FM. Criada em 1989, a Canção Nova atinge 52% da população brasileira, e marca presença em todos os continentes do planeta. Também tem acompanhamento pela internet e possui em sua sede, na cidade de Cachoeira Paulista, cinco estúdios e três espaços para eventos, o maior com capacidade para 100 mil pessoas. “A maior emissora de televisão católica do Brasil” – em desacordo geográfico com a Rede Vida. Para além da quantidade de informação, o que surpreende é o qualitativo e a estrutura que algumas dessas redes empregam, perseguindo alternativas mais criativas que a simples transmissão de cultos de adoração ao senhor, ou shows de músicas gospel para atingir fiéis. Aliás, falando em alcance, com frequência destacada os programas fazem alusão ao caráter democrático da TV religiosa, insistindo na participação dos espectadores ou através de outras nuances.

Em uma tarde de segunda-feira, uma senhora resumiu ao responder, em sua opinião, a importância de se assistir à Rede Canção Nova: “Ela chega em lugares que talvez nem o padre chega (sic)! Atrás dela, um mapa do Brasil exibia um adesivo da emissora em todos os estados, simbolizando a presença extensiva no país. As grades dessas emissoras podem entreter crianças com fantoches de animais e donas de casa com programas culinários, informar com telejornais que falam de economia e política – evidentemente sem a qualidade editorial de um grande telejornal – e até satisfazer jovens que queiram discutir temas relevantes. O programa Antenados na Geral, exibido na Boas Novas durante as tardes da semana, se despe de qualquer dogma para atingir esse público, misturando especialistas e celebridades do showbizz evangélico no divã. A edição de hoje mostra flashbacks da semana passada, citando a discussão de temas como o aborto, a diferença entre a infância de ontem e a de hoje – com a presença ilustre de Dedé Santa – e a relação entre música e adoração, com direito a uma crítica de um convidado aos interesses mercadológicos da indústria fonográfica litúrgica. E dá-lhe democracia televisiva: os espectadores podem, pela página do programa, sugerir temas e entrevistados, além de fazer críticas que são lidas pelos dois apresentadores. A enquete do dia: “Você costuma acessar o Tweeter”?
Julgar as atrações descritas até aqui pode ser mais cômodo se feito isoladamente, mas compará-las à mass media consolidada nem sempre é garantia de perda no quesito qualidade da informação. Enquanto era exibido Antenados na Geral, na Boas Novas, mais uma sessão de zapping levantou a programação das grandes revelando quatro cenários: (bebida lobisomem, tomou virou: repórter investiga a existência de tal poção mágica; 2) “mulher giló”, a funkeira de 60 anos, dança para uma plateia de auditório; 3) uma conhecida sessão de comédias hidroaçucaradas vespertinas; 4) intrigas domésticas: duas moradoras de um prédio tentam convencer o auditório e os espectadores de que outra condômina, sentada ao lado, faz muito barulho em seu apartamento. Até o zelador foi convocado para dar mais legitimidade ao pleito do silêncio.

Em 2010, a televisão completará 60 anos de idade no Brasil, tempo suficiente para a descoberta de fórmulas de manutenção da audiência, repetidas à exaustão todos os dias. Uma busca por melhoras na qualidade da programação da TV tupiniquim só pode ocorrer com uma alteração na postura da audiência perseguindo um “assistir TV” mais crítico. Quanto aos cenários descrito acima escolha a melhor opção.

[Mequetrefe. Edição n. 2, Florianópolis, dezembro de 2009. Revista editada pelos alunos da disciplina de Redação V do primeiro semestre de 2009 no Curso de Jornalismo da UFSC]

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