A TV, o rádio e os comunicadores

A idéia me ocorreu há alguns anos durante uma aula do uruguaio Fernando Andacht, então professor visitante no doutorado em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele analisava o, na época, recente fenômeno de público representado pelos programas de televisão do tipo reality show. Por Luiz Artur Ferraretto

Com os pés na Semiótica, área de seu inteiro domínio, e os olhos postados no Gran Hermano, da Telefe argentina; na Casa dos Artistas, do SBT; e no Big Brother Brasil, da Globo, Fernando ia demonstrando, por A mais B, os níveis de identificação entre o público e os concorrentes dos vários programas que eram colocados por ele para nós, seus alunos, assistirmos. Confesso que achei, no mínimo, motivo de riso o choro convulsivo daquele que seria o primeiro vencedor do BBB. Lembram? Parecia uma criança de quem haviam tirado um brinquedo, no caso uma companhia fake construída a partir de uma vassoura (?!?!?!?)
Fernando, ao contrário, descrevia os componentes que diziam ao telespectador ser autêntica aquela performance que a mim parecia ultrajante. Fiquei pensando sobre a relação da telinha com quem está à sua frente. E de como isto impactara o público pela primeira vez, há quase seis décadas, quando surgiram as primeiras emissoras de TV no Brasil.
Voando longe, fui me perguntando uma coisa e outra. E sobre o rádio qual foi o impacto desta relação de autenticidade, do sujeito no sofá de casa vendo reações faciais, mãos gesticulando e posturas corporais onde antes havia apenas a voz, uma trilha musical e algum efeito sonoro? O que afinal mudou nesta empatia emissor-receptor com a TV e no que isto foi influenciando o rádio? Onde havia apenas som, de repente fez-se a imagem, mesmo que monocromática e de definição ruim. Que impacto, hem?
A resposta, para mim, está na figura do comunicador. E aposto que se constitui no grande diferencial do rádio antes e depois da TV. Pensem bem. Se, na telinha, mesmo a mais fleumática cabeça falante do telejornal passa uma simulação de conversa, por que o pessoal das rádios não tentaria um processo semelhante, mesmo que inconscientemente? Claro que há outras razões para explicar o surgimento dos chamados comunicadores.
Há, por exemplo, a decadência dos auditórios radiofônicos com os animadores migrando, com suas atrações, para a TV. Óbvio que nem todos conseguiram espaço no novo veículo. Alguns foram, de volta, para dentro dos estúdios, mas mantendo aquela forma sem script de falar com o ouvinte. Outros acabaram surgindo junto com a onda da música jovem. Só pra recordar: até meados dos anos 1950, a juventude não existia como categoria social, ou se era adulto, ou se era criança, ou quase. Ser jovem ficava só no plano da idade, sem voz e, o que as empresas de comunicação se interessariam em mudar no futuro e a qualquer custo, sem poder de consumo. Com a população urbana ultrapassando a rural ao longo da década de 1960, levas e levas de migrantes vão se concentrando, paupérrimos, nos morros e nas periferias das grandes cidades. É para estes públicos, respectivamente, que vão se voltar os comunicadores do rádio jovem e do rádio popular. Com a abertura política e o gradativo fim da censura, os apresentadores de programas jornalísticos também acabam se soltando e, ganhando mais funções, tornam-se âncoras, comunicando com embasamento e crítica.
Mas afinal o que difere o comunicador de seus antecessores? Para mim, está claro. É o bate-papo, o diálogo imaginário com o ouvinte, fatores que, junto com o radinho de pilha, mesmo que hoje agregado a um celular ou a um MP3 player, confere ao veículo sua principal característica: a de ser companheiro do ouvinte.
 


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Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
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