A última cruzada

Depois de incontáveis ataques terroristas e guerras pontuais, o fundamentalismo religioso, estrategicamente apoiado pelo poder econômico mundial, havia assumido o poder. O ódio entre cristãos e muçulmanos havia atingido níveis alarmantes a ponto de ser ensinado oficialmente nas escolas e templos. A exibição pública de símbolos religiosos, para quem era minoria, passou a ser um ato de elevado risco, e os poucos que permaneceram em territórios “hostis” foram confinados em guetos. Quem se arriscava a circular fora desses limites era submetido, no mínimo, a humilhações; mas, multiplicavam-se os casos de agressão física, sádica e assassina, que lembravam os obscuros tempos do nazismo.

A censura rígida só permitia a leitura de livros religiosos autorizados, o que não incluía os livros sagrados de outras religiões. A ignorância e o ódio eram cultivados como um insano e lucrativo negócio. Nem mulheres e crianças eram poupadas!

As notícias da escalada de desrespeito e violência eram usadas pelos líderes como fermento para incitar ao revide igualmente covarde, que atingira seu estágio mais “puro” e irracional. O patrulhamento ideológico-religioso era intensivo!

Todos estavam armados até aos dentes, com o que havia de mais sofisticado, tecnologicamente. Aliás, os únicos estrangeiros bem vindos eram os mercadores e instrutores da morte: a indústria bélica! Estes, eram mais protegidos do que os próprios cidadãos. Eram vistos como “emissários divinos”, capazes de assegurar o poder secular necessário à vitória física definitiva, já que a supremacia religiosa era tida como inquestionável, para ambos os lados.

Havia discursos de paz vindoura, pós-apocalíptica; promessas de paraíso repetidas à exaustão, por toda parte! Mas, tudo subordinado ao aniquilamento dos adversários. E todos eram condicionados para acreditarem estar física e espiritualmente prontos para fazê-lo.

Assim foi que os líderes das partes reuniram-se e decidiram promover um combate aberto, com data e hora marcada: um confronto final!

O emissário cristão o chamou de “A Última Cruzada”, enquanto o muçulmano o proclamou “A Última Jihad”, pois ambos acreditavam que nele seria decretada a destruição absoluta dos “infiéis”, ou seja, dos outros.

O poderio das partes era assombroso! Espiões e agentes duplos já o haviam constatado. No entanto, o uso de armamentos de destruição em massa poderia tornar áreas inabitáveis e comprometer fontes de matéria-prima. A “pilhagem dos justos” seria prejudicada!

Assim, na partilha dos despojos todos demonstravam clara lucidez materialista, contrastante com o fanatismo religioso dos discursos ao povo, que só recebia informação autorizada, controlada, oficial.

Decidiram, então, que o confronto seria de infantaria, numa noite sem luar, numa área plana e desértica. Somente homens contra homens, todos treinados para tirar vidas sem piedade, entregues e devotados ao que lhes ensinaram ser a “vontade divina”!

Cada parte acreditava que sua fé, única verdadeira, seria correspondida com uma luz interior, que iluminaria seus soldados, enquanto uma luz sobrenatural exporia e tornaria frágeis seus inimigos.

Nos termos do nefasto acordo, ficou acertado que os derrotados teriam duas opções: conversão ou morte! Porém, as lideranças seriam poupadas e tratadas com distinção e cordialidade, como nos antigos embates medievais, onde tudo havia começado.

O destino de milhões foi, então, selado com um brinde com água!

Quanto o fatídico dia chegou, Gabriel, cristão, trazia um crucifixo no peito e um fuzil automático de última geração nas mãos. Do outro lado, Ahmad, muçulmano, tinha trechos do livro sagrado também junto ao peito e igual armamento. Todos já haviam feito suas orações pedindo a benção da vitória ou um lugar no paraíso, se tombassem. Aguardavam, tão somente, a ordem de ataque.

Ambos faziam parte do pelotão de vanguarda, pois eram soldados experientes. Também tinham em comum o fato de já haverem perdido vários entes queridos, enquanto atacavam os de outros. Sentiam a força do condicionamento guerreiro, o ódio do preconceito religioso inculcado desde cedo, mas, também, um imenso e doloroso vazio. O mesmo vazio que seus óculos de visão noturna mostravam no campo à frente, onde logo iriam batalhar. Estavam ali para cumprir ordens definitivas: matar ou morrer em nome de sua “fé”!

Rezavam pelo mesmo Deus, mas não tinham a menor noção disso!

Nas cidades, cientes da iminência daquele embate decisivo, mulheres olhavam os retratos de seus maridos e filhos, alguns mortos, outros prestes a morrer. Olhavam também para seus filhos e netos pequenos, desde cedo habituados a brincar com armas e prestes a serem iniciados no ódio. Já não tinham mais lágrimas para derramar e estavam cansadas de serem culpadas e vítimas de todos os males do mundo, desde a origem dos tempos.

Maria, cristã, esposa de Gabriel, e Samira, muçulmana, mulher de Ahmad, além de todas essas aflições, ainda tinham outro duplo temor: estavam confinadas em guetos e não sabiam o paradeiro de seus homens.

Subitamente, as luzes se apagaram e uma grande tempestade desabou sobre o mundo… Apenas o campo de batalha parecia poupado!

A escuridão era total e o ruído da chuva, ensurdecedor.

Inexplicavelmente, talvez fruto do desespero, as mulheres sentiram ímpeto de ir para as ruas e caminharem sem destino, pedindo a Deus pelo fim de todas essas agruras.

O ato foi repetido por outras milhões, que em meio àquela total escuridão sentiram mãos se encontrarem. Sem explicação, elas ajoelharam e iniciaram uma prece comum, silenciosa e profunda.

Foi quando à chuva intensa somou-se um vento avassalador, que as fez deitar, sempre de mãos  dadas, para não serem arrebatadas.

Pressentindo o momento do ataque, Gabriel e Ahmad abriram seus livros sagrados nas páginas indicadas pelos oficiais religiosos para aquele dia.

Já sabiam as palavras por memória, pois haviam sido instruídos a lê-las à exaustão, sempre associadas à doutrinação massiva, para não titubearem. Elas descreviam o paraíso reservado para os fiéis.

Subitamente, uma brisa repentina, de direção improvável, folheou ou livros até que suas mãos detivessem as páginas. Para ambos, e para todos os que, obedientes, repetiram a ordem de leitura, os dedos tocaram nos escritos que falavam da origem da humanidade, sobre a criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus.

Suprema contradição, eles estavam ali para destruir a maior obra divina: a humanidade!

De repente, todas as comunicações eletrônicas cessaram… Os sistemas dos óculos de visão noturna sofreram pane e os mecanismos eletrônicos de disparo travaram.

A escuridão era total e não havia nenhuma referência.

Um grande alarido foi surgindo entre os combatentes… Uns gritavam: “Deus seja louvado!”, enquanto outros bradavam: “Alá é grande!”.

Assim, “cegos” e aos gritos, milhões de “defensores da fé” partiram para o imponderável…

Mas, quando o corpo-a-corpo teve início, era impossível identificar quem era o oponente. Não havia espaço para estocar baionetas!

O caos era total e ninguém sabia se avançava ou recuava.

Foi quando a brisa transformou-se numa intensa tempestade de areia, que arrancou capacetes e arrebatou armas.

Quando os primeiros corpos também ameaçaram ser carregados, foram contidos por mãos desconhecidas. Então, instintivamente, todos se deitaram, de mãos dadas, usando os corpos uns dos outros para protegerem-se do vento e da areia.

As tempestades, na cidade e no campo de batalha, prosseguiram, intensas, até a alvorada, quando o sol, como em todos os dias, distribuiu sua luz para todos os povos da Terra, sem distinção de raça ou credo.

A claridade da manhã, que muitos não esperavam mais ver, acordou homens e mulheres de um sono comum. Estes, ao recuperarem os sentidos, perceberam que ainda estavam de mãos dadas: cristãos e muçulmanos, e que haviam orado juntos e salvo vidas mutuamente, em vez de extingui-las, como ordenado.

Foi assim com Maria e Samira, com Ahmad e Gabriel, e com milhões de outros.

Houve, então, um grande pranto, mas de reconciliação!

Todos se abraçaram como irmãos, louvando a Deus!

Não havia sangue na terra, mas ele circulava como nunca, nos corações!

A tempestade, que arranca, uniu! As trevas restituíram à luz! A humanidade reencontrou o caminho da paz, libertando e compartilhando a “terra santa” dos corações!

Assim foi a última Cruzada! Assim foi a última Jihad!

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