A última partida

Havia um campo verde, que se via das alturas. Eles não sabiam, mas ali se desenrolaria a última partida – aquela que  todos perdemos.

futebolbrasileiro

Havia a alegria das conquistas em progressão, que levaram na mala dos sonhos.

Risos, conversas e alegria barulhenta talvez ainda houvesse, mas já escurecida pela noite chuvosa e má, como diria o poeta.

O tempo estava medido e a cronometragem já começara. Um árbitro, justo em suas decisões, rigoroso e absolutamente equânime quanto aos resultados reais e inevitáveis de todas as vidas, estava pronto para trilar o apito final.

A iluminação oferecida pelo brilho da lua e das estrelas talvez fosse precária; o vento talvez tivesse se tornado um torcedor enfezado; a chuva quem sabe ameaçasse a beleza da festa.

Não se sabe se o clarão da premonição ou as sombras do medo já teriam penetrado em algumas mentes e corações.

A saudade, sem dúvida, essa senhora insinuante, certamente lançava seu manto sobre muitos, carentes da presença de esposas, filhos, netos e amigos.

Tudo teria sido bem preparado? Ou a falibilidade, a ausência de caráter, a ganância, a autossuficiência e outras falhas humanas teriam embarcado sub-repticiamente para influir no derradeiro tempo de jogo?

O lance final pode ter sido rápido, mas talvez tenha durado muito ao ser marcado com os ponteiros da angústia.

O Destino, esse competente técnico – um “professor” que conhece muito bem seu ofício  – como terá engendrado os lances e imaginado a estratégia perfeita para essa partida cruel e decisiva? Sem dúvida, soube juntar seus jogadores, levá-los e manipulá-los para a consecução do terrível resultado.

O jogo está jogado. O gramado da montanha não tem marcadas as linhas que delimitam o campo e impõem os limites para as jogadas. Não tem as traves, o alvo a ser alcançado para a feitura dos gols. Não tem arquibancadas, torcidas, gritos, vaias, cantos, xingamentos e tudo o mais que faz vibrar os estádios. Sobretudo não tem, e jamais voltará a ter, a mesma alegria e beleza que montes e vales geralmente oferecem, mesmo vistos à distância.

Infelizmente, esse campo do jogo da Vida versus Morte só tem agora um inequívoco sinal: uma cruz fincada por piedosas mãos de heroicos socorristas.

O jogo está acabado para muitos, nas serras colombianas ou na bela Chapecó, onde, para parentes e amigos dos mortos, a partida será eterna e irremediável.

Que descansem em paz os atletas, jornalistas e outros atores da tragédia chapecoense.

Categorias: , Tags: , ,

Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *