A última posição

Numa manhã tranquila no meio da semana aquela turma de sempre estava reunida na barbearia do Otávio. Juvenal, Felisberto, João, Cláudio e Victor trocavam ideias ao mesmo tempo em que ouviam o programa de rádio do amigo, Álvaro Antunes Carriel. Entre músicas e notícias os comentários do amigo comunicador.

Os assuntos dos amigos eram mudados a todo momento e depois tudo era era repetido como se fosse a primeira vez. Ora falavam do trabalho, aliás, muito trabalho para pouco salário. João falava que não via a hora de poder descansar, que não aguentava mais tanto trabalho e tantos problemas. Juvenal repetiu a velha frase: “Se viver é um cansaço prefiro viver cansado”.

Felisberto, o durão da turma, disse:

– Vocês vão ter bastante tempo para ficar deitados quando morrerem.

Seu Victor disse para os amigos:

– O Felisberto está é louco. Eu é que não quero parar; deitado, nem morto.

Agora o assunto já era o atual momento político. O João falou em voz alta que os políticos são os que menos trabalham, se é que trabalham. O Cláudio afirmou que os políticos trabalham sim. Ou são advogados, ou empresários, ou médicos; enfim, não trabalham no cargo ao qual foram eleitos, mas trabalham. Afinal de contas, qual rico ou político que se contenta com o que têm?

De repente a turma começou a discutir sobre como gostariam de ser lembrados depois que morressem. Qual a posição que cada um ocupa na sociedade? Cada um tinha sua posição com respeito a opiniões; dificilmente concordavam em alguma coisa. Criticavam o jornalista Paulo Brito, mas no fundo todos pareciam com ele, pareciam sempre – do contra.

Os amigos comentavam que nunca antes haviam presenciado um momento político assim; cerca de 6 meses antes das eleições e sem nomes para concorrer à presidência. Seu Victor, disse:

– Sempre, em todas as vésperas das eleições, já havia pelo menos 3 nomes fortes e uns 3 que incomodariam; para depois se unirem aos 2 que fossem para a disputa final; se antes a coisa já não ia bem; agora a situação chegou a um ponto que nunca havia imaginado.

Logo em seguida o Juvenal comentou:

– Souberam quem bateu as botas semana passada? O Mário, o carteiro. Estava aposentado e vivia com uma garrafa de cachaça na mão; já tomava só no gargalo há anos, e mal saia da sua casa de praia. Ficava lá sentado numa pedra e tomando sua 51 na esperança de pegar algum peixe; nem sei se lembrava de colocar uma isca.

De repente o Felisberto pede silêncio. Parecia que o amigo radialista dava uma notícia especial. Felisberto aumentou o volume do rádio da barbearia e todos ficaram atentos. Álvaro, dizia:

“Entre tantas novidades e loucuras muitas pessoas não param de inventar coisas estranhas e mais modas. Desde 2008 em Porto Rico, várias pessoas começaram a telefonar para uma funerária e perguntar se não havia possibilidade de serem veladas fora do caixão. E não é que a ideia pegou; não só em Porto Rico, mas também nos Estados Unidos. Muitas pessoas perderam a vontade de ficar dentro de um caixão na hora e dia do velório. Tudo começou com um homem que teve o trauma de ver seu pai no caixão. Uma Lei, do ano de 2012, liberou o velório fora de caixões. O mais interessante dessa estranha e verdadeira história é que as pessoas pedem para serem veladas numa posição, ou fazendo aquilo que mais gostavam de fazer em vida; tanto que a Lei, ou a regra, é clara; só não pode em posições imorais.

Desde então, tem ocorrido velórios das maneiras mais inusitadas. Lá vão alguns exemplos aos amigos que gostaram da ideia, se é que vai pegar por aqui. Imagino que meus amigos ouvintes lá do bar do Felisberto e da barbearia do Otávio já devem estar trocando ideias. Então, lá vai alguns desses velórios que já ocorreram: Uma mulher de 53 anos foi velada fazendo o que mais gostava – sentada em frente sua mesa de cozinha com sua coleção de capacetes do New Orleans Saints; detalhe, numa das mãos uma lata de cerveja e na outra um cigarro entre os dedos, só não informaram se o cigarro estava aceso. Outro caso – um homem foi velado dentro do seu Cadillac Seville. Já em outro funeral um homem foi velado sentado em sua Harley-Davidson. Outra mulher foi velada em sua cadeira de balanço.

Há também aqueles apaixonados por sua profissão que fazem questão de serem velados fazendo ou melhor, na posição daquilo que mais fizeram ao longo da vida.

Fica aqui aos amigos ouvintes a pergunta: Se essa moda pegasse aqui no Brasil, aqui na Grande Florianópolis, em qual posição o amigo iria querer ser velado? O que mais gosta de fazer? Ai ai ai… Como diz o meu amigo Felisberto: Eu morro e não vejo tudo, ou vejo tudo e não morro. Vamos a um breve intervalo é já voltaremos. São 10 horas e 27 minutos”.

Pronto, a turma reunida na barbearia do Otávio, aqueles mesmos que tinham muito medo dos mortos, ainda mais depois da – estranha volta do Juvenal; agora pareciam ter outra preocupação; ser velado em que posição? Na verdade nenhum queria ser velado, nenhum queria morrer, mas não faltaram piadas sobre o assunto.

Juvenal foi o primeiro a dar uma ideia clara:

– Penso que o Felisberto deveria ser velado lá no bar dele, passando aquele pano sujo no balcão ou servindo uma cachaça.

Felisberto, o machão da região, devolveu:

– O Juvenal devia ser velado com aquele alicate não mão que nem sabe pra que serve.

O Juvenal perguntou ao dr. Cláudio?

– Qual é mesmo a tua especialização?

– Sou urologista, Juvenal – respondeu o dr. Cláudio percebendo o ar de deboche de Juvenal que já sabia qual a sua área na medicina. O Juvenal perguntou em voz alta para o pessoal:

– E então turma. Como seria o velório do dr. Cláudio? – Todos riram, até o dr. Cláudio.

Felisberto fez questão de ressaltar que não queria flores em volta do seu corpo de macho; seria muita frescura, dizia ele. Quem sabe algumas fotos dos seus clubes de futebol; o Avaí e o Corinthians. Disse que preferia algumas garrafas de bebidas e fotos de belas mulheres em vez de florzinhas. Coisa de morto fresco, sempre dizia o Felisberto.

Juvenal que já havia passado por um frustrado velório, que lhe rendeu até uma crônica no Caros Ouvintes com o tema: A estranha volta de Juvenal, disse que queria quase tudo igual, menos que os amigos fugissem se ele voltasse a se levantar no meio do velório.

Já o dr. Cláudio, disse que aceitaria ser velado fazendo o exame do toque em um dos amigos, já que todos haviam passado dos 50 anos e nenhum havia feito o exame.

Otávio já havia terminado o último cliente e já passava das 21 horas, mas os amigos ficavam citando em que posição gostariam de ser velados. Lembravam um de cada vez coisas que gostam de fazer e como os velórios poderiam ser diferentes.

Álvaro apareceu por lá depois de um dia corrido entre o programa de rádio as vendas de imóveis. Imaginou que o tema geraria um longo bate-papo entre os amigos, e acertou.

Foi então que Juvenal perguntou ao Álvaro se ele gostaria mais de ser velado como radialista ou como corretor de imóveis. Álvaro não esperava pela pergunta, então pensou e respondeu:

– Se eu morrer pela manhã, seria interessante em frente a um microfone. Se for à tarde, que tal em pé com o braço estendido como quem mostra um apartamento ou um casa? Já se for à noite; bem, talvez deitado. Não, melhor não. Será a última posição em que serei visto pela família e amigos. Pensando melhor; sentado, em pé ou em qualquer outra posição, mas deitado, nem morto.

E como raramente acontece os amigos pareciam concordar no assunto pelo menos naquele momento. Se já tinham medo de passar em frente a cemitérios ou ver um corpo num caixão, talvez numa posição em que não perecessem mortos seria menos traumático.

Otávio resolveu fechar a barbearia. Álvaro aproveitou o momento e disse aos amigos.

– Hoje à noite quando vocês se deitarem procurem lembrar o que mais gostam de fazer, e quem sabe, no seu funeral, essa poderá ser sua posição no velório – a última posição!

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