A vaca de gesso e a falsa moral

O homem é um sujeito moral pelo que ele aprende a respeitar leis do comportamento humano. Contudo, a revolução da tecnologia da informação fortalece a teoria nietzschiana, de que estamos cada vez mais nos afastando do platonismo e do leibnizianismo por não acreditarmos mais em conceitos e valores eternos.

As novas gerações não dependem mais da escola e da família para o exercício da crítica e idealização de novos conceitos. A filosofia dogmática ainda dissemina princípios alimentados pela igreja na busca da supremacia do bem sobre o mal. Nietzsche amplia a discussão ao afirma que o juízo moral tal como o juízo religioso baseia-se em realidades que não o são. E salienta que a moral é apenas uma interpretação de certos fenômenos; uma interpretação  muitas vezes falsa.

Em 2011, um agricultor foi flagrado fazendo sexo com uma égua (viva) na Grande Floripa.  O receio moral da mídia abafou o fato, por entendê-lo obsceno e agressivos aos leitores, ouvintes e telespectadores. Entretanto, o estupro de crianças, bem mais sórdido  que o prazer desse homem de transar com uma égua, alcança quase que semanalmente destaques na mídia, embora haja comprovação de que a difusão desse crime estimula o delinqüente em potencial.

Os valores morais parecem não ter uma existência; decorrem da imaginação, da criação artística do homem, principalmente quando a nuvem de emoção espalha-se pela mídia e redes sociais. O BBB (Big Brother Brasil), mesmo exibindo cenas pornográficas, ganha aval pelo falso sentido artístico, que nada mais é do que a exploração econômica da mídia sobre a pseudo moral e a exibição do erotismo intenso. Houve estupro? Ou o fato serviu para intensificar a audiência?

De repente, um soldado, em clima de diversão,  é flagrado por uma câmera simulando sexo com uma vaca artística, de gesso. E é crucificado pela mídia e redes sociais, obrigando o comandante a ir a uma TV para prometer castigá-lo.

Afinal, o que é moral? Vamos considerar a moral como ciência dos costumes, que procura disciplinar o comportamento humano na sociedade. O cidadão, principalmente o que trabalha em defesa da sociedade, tem a consciência moral. O espírito moral e a liberdade satírica e carnavalizada se liquefazem numa sociedade onde os limites da decência desapareceram. A polícia que pune o soldado carnavalesco é incapaz de prender corruptos, insolentes etc. protegidos – quem sabe – por equívocos na interpretação de leis, que rende habeas corpus e inflação de liminares. Ora, para o soldado flagrado em sua fantasia não há chance de outra interpretação. A mídia, tomada por amnésia induzida, também é incapaz de enfatizar a imoralidade político-administrativa dos poderes, bem mais degradante que a simples simulação satírica do soldado encostado no rabo de uma vaca artística.

A infelicidade do soldado, de brincar e ser flagrado por uma câmera, é um episódio, que se arrasta, mesmo com a compunção e prantos dele, do militar. Ou ele fez isso com a vontade de se mostrar  à mídia? Não! Mas os corruptos e insolentes que se exibem aos olhos da mídia não precisam se arrepender, porque têm a proteção de quem está dando uma nova interpretação à moral: a própria mídia. Logo, é preciso, primeiro, discutir a ética dos meios de comunicação, quem sabe até para não sacrificar outros ingênuos  soldados e cidadãos que se sentem no direito de também participar da licenciosidade social, do carnavalesco e caricato, que não são mais sazonais. Aliás, o próprio retrato de uma sociedade que se banaliza no jogo farsante entre o bem e o mal.

1 responder
  1. Homero Milton Franco says:

    Meus parabens, antes de tudo, Sardá, por seu comentário. Disseste quase tudo sobre o aspecto da banalização empreendida pela mídia que temos. O caso do irreverente soldado é nada diante do muito que não se divulga também porque o autor do delito é cliente da mídia venal. Esse não é um problema só nosso aqui da província. É nacional, vai além das fronteiras, é pr[atica dos ditadores e dos democratas, socialistas, comunistas. A Igreja esconde suas entranhas, o Judiciário tenta esconder suas entranhas. Sobre o que, meu amigo?
    Sei que é difícil, mas me conseervo no velho e incansável pelotão dos que querem mudar isso.
    Espero que você esteja a ensinar isso aos seus alunos. Abraços.

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