A voz como instrumento de trabalho

selo-retratos-aluz-da-pombocaA voz de veludo do ilhéu Fenelon Damiani invade os lares catarinenses, a cerca de quarenta anos. Primeiro a paixão pelo rádio, fazendo sua estreia aos 18 anos, depois a televisão, colecionando troféus como um dos mais perfeitos apresentadores da telinha. Avesso à boemia e badalações noturnas, com gosta a maioria dos televisivos, este introvertido e correto comunicador prefere a paz e harmonia dos lugares simples para viver em família.

Por acaso, encontrei Fenelon onde gostaria de encontrá-lo, no Pântano do Sul, em férias, descansando o lado de sua eterna mulher, Lizete, pela qual confessa ser um apaixonado. Uma paixão que nem a rotina de um casamento de 28 anos consegue atenuar. Primeiro, a conversa em torno das belezas da praia, degustando um peixinho frito para relaxar, depois, a proposta da entrevista, que ele só não relutou em função da antiga amizade. Mas, foi objetivo:

– Quanto tu ligas isso aqui, não rola nada. Sabes, né?

Refere-se ao gravador, mas logo foi animado pela mulher. Respeitado por todos os veículos de comunicação nos quais trabalhou, estimado pelos colegas, chegou a ter convite para atuar em emissoras poderosa do contexto nacional, como a Rádio Mayrink Veiga do Rio de Janeiro, mas era início de carreira, preferiu dar um tempo para ganhar mais experiência.

Entre os muitos elogios recebidos pelo seu desempenho profissional, dois pelo menos, ele não esquece:

– “Isso não é voz, é um instrumento de trabalho”,  ressaltou Sivuca, ao ser entrevistado.

– “Você falando, com esse grave, parece o Anthony Quinn, que eu conheci em París, em 1960”, comparou o jornalista carioca, Sérgio Cabral.

As declarações elogiosas de duas personalidades nacionais não foram por acaso. Ele foi eleito durante anos como o melhor apresentador de telejornal, mantendo, até hoje, um gesto característico no encerramento de cada noticiário, quando abre o paletó, guarda a caneta e despede-se dos telespectadores com um cumprimento em meio sorriso: Boa tarde!

– O papa Pio XII costumava fazer este gesto. Eu achava bonito e procurei imitá-lo.

Com todo aquele vozeirão, ele só poderia mesmo ter tomado o caminho do rádio, costumam dizer as pessoas mais próximas, admiradoras de sua arte. E foi justamente isso, que ele fez desde muito cedo, ao ingressar na Rádio Anita Garibaldi aos 18 anos, depois de uma experiência como boi da firma Machado & Cia. Confessa que viveu toda sua mocidade entre os estúdios e  microfone, afastando-se temporariamente para prestar serviço militar na aeronáutica.

– A minha tentação pelo rádio era tanta que eu fugia para fazer o meu programa na Rádio Anita até que fui preso. Certo dia entrou uma patrulha da Aeronáutica no estúdio me levando detido para a corporação. Ainda assim, eu ligava para o programa do Walter Souza, na Rádio Diário, pelo simples fato de participar. Já naquela época, o rádio fazia parte d aminha vida.

No programa do Souza, Fenelon costumava ensaiar-se como cantor: era época dos Beatles, da Jovem Guarda. Mas era encarnado mesmo na bela voz de Elis Regina e Emilinha Borba. Marta Rocha também batia forte em seu coração juvenil. “Quando a Marta Rocha veio visitar Florianópolis e desceu a Rua Felipe Schmidt na limusine do Manoel de Menezes, eu fiquei tão deslumbrado que fui correndo ao lado do carro até a Praça XV”. O deslumbramento do garotão estendia-se também à Gina Lollobrígida e Victor Mature: chegou a assistir ao filme “Sansão e Dalila”, nada menos do que doze vezes.

Confessa que nunca teve tendência à boemia, porque nunca teve escola. Na adolescência, tinha um pai rigoroso que controlava todos os seus passos. Só conquistou a liberdade quando ingressou no rádio. “O meu primeiro foi a pastelaria do Japonês, tomando caipirinha com mel. Diziam que era bom para a voz. E o primeiro bar a gente nunca esquece”.

Em 1970, largou a Rádio Santa Catarina e um bom emprego no Tesouro do Estado, para dar continuidade ao seu projeto de vida. Seus sonhos estavam se realizando dentro de um cronograma imaginário. A convite de Darci Lopes – o desbravador da televisão em Santa Catarina – ingressou na TV Cultura, que entrava no ar ainda em caráter experimental. Era o início de sua era televisiva.

Não fosse sua paixão pelo microfone, Fenelon Damiani poderia ter sido músico erudito, ou desfilar fantasias no Baile Municipal. Chegou a estudar piano, com a professora Dulce Moritz, mas o ronco das pandorgas que sobrevoavam o céu da Rua Padre Roma, não deixava o franzino garoto concentrar-se. Estava de olho na rua, torcendo para que a aula terminasse para empinar o seu barrilote ronqueado, brincar com roda de arco e rodar pneu.

A turma da Padre Roma tinha como área de atuação as imediações do Lira Tênis Clube, onde jogou basquete com o técnico Hamilton Platt. Como “Eu jogava direitinho, admite acabou atuando na boa equipe do Caravana do Ar na Aeronáutica, ao lado dos craques como, Airton Tomé, Moraci Gomes e China. Fenelon morava ao lado da casa do ex-governador Jorge Lacerda e fazia parte de um grupo eclético, com Esperidião Amim, Lauro Zimmer, as famílias Dobes, Miroscky, Moritz e ainda Luiz Henrique da Silveira. Era conhecido como Barreira “por andar sempre sujo de barro”.

– A turma da padre Roma era eclética, tinha de tudo, menos bicha e ladrão. O nosso time, o Água Verde, tinha uniforme branco e verde, mas o Esperidião que era o dono da bola, jogava com uniforme do Flamengo. Quando o time ganhava ele pagava Guaraná Caçula na venda dos Prazeres, pra todo o mundo.

Uma outra atividade que Damiani gostava de desempenhar, ainda garoto, era decorar carros alegóricos na Sociedade Tenentes do Diabo, incentivado pelo mestre David Gevaerd. Chegou a desfilar como destaque em cima de uma enorme baleia, jogando beijinhos para o público, fantasiado de Rei Netuno.

Aprende inclusive a fazer bananinhas decorativas com o Dico na parte interna das grandes alegorias. Embora introvertido, no carnaval aproveitava para soltar a franga como folião de rua. Para financiar fantasia, ele criou um Boi de Mamão e como era o dono e dançador do bom, ficava com a fatia maior das doações. “Eu adorava o carnaval, mas tinha medo da dança dos Bororós. Eram lindos.

Fenelon não lamenta ter passado boa parte de sua vida enclausurado nas rádios em que trabalhou. Era tudo o que ele mais queria. Para ele, a noite estava reservada, geralmente, no fim da madrugada, quando saia da rádio e aproveitava para aperitivar no Restaurante Chafariz, que ficava no andar térreo do edifício Baía e, e na manhã no Bar do João Bebe Água na rua João Pinto.

Foi um homem de poucas mulheres, confessa, não frequentou casas noturnas, hábito comum na época. “Todo o mundo contava vantagem, eu era o inverso. Cheguei a procurar um analista”. Claro que o problema do nosso herói era mesmo muito trabalho.

Damiani não frequentou a Sessão das Moças, nem o caramanchão da Praça XV, mas fez balançar o coração do Clube Renascença, uma mulata carioca que fez sucesso na Ilha. Num a única vez que foi ao Clube Paineiras, “Tive a sorte de encontrar Lizete”.  Depois de um período de amizade nada colorida, a paixão os uniu, isso a vinte e oito anos, resultando em dois filhos e dois netos. Não esconde que vive exclusivamente para a mulher, de quem confessa ser muito dependente.

“Vivo para ela e para os filhos. Convivemos harmonicamente com nossos defeitos e virtudes”. Lize concorda. Se não conseguiu mudar marido nesses vinte e oito anos, não será agora quando ambos estão amadurecidos. Gostaria, porém, que ele fosse mais liberal, menos metódico e conservador. “A imagem descontraída que ele passa aos telespectadores na telinha, não é a mesma de casa”.

Lembra, com saudade, da época de ouro do rádio quando despontou como revelação em Santa Catarina e foi para a Rádio Diário em 1965, para trabalhar com Zininho, Alfredo Silva, Adolfo Zigelli e Gustavo Neves Filho. Participou de cinco radionovelas e, em três oportunidades, fez o papel de pai da cantora e atriz Neide Maria Rosa. Isso, aos 19 anos de idade. [Do livro Retratos à Luz da Pomboca. Florianópolis: Edição do autor, 1997. Pgs. 81/85]

Categorias: Tags: , , ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *