A voz especial dos domingos

Giovana Kindlein*

Primeiro jornalista cego formado no Estado completa oito anos à frente de programa de rádio. Foto Alexandro Albornoz/ND

Ao projetar o futuro, todo profissional imagina sentir-se realizado e reconhecido na carreira que escolheu. Não é diferente para o jornalista cego Jean Schutz, 28 anos, que ousa e celebra este mês oito anos à frente do programa “Domingo Especial”, na rádio AM Mais Alegria, 1470 kHz, sediada em Capoeiras, na Grande Florianópolis. “A cegueira não é  nada”, declara o apresentador, que lê a tela do computador sem problemas com software de áudio e usa o celular com programa de voz para registrar as horas, ao vivo, durante o programa. De 30 de março de 2003 até ontem, Schutz produziu, apresentou e comercializou 417 programas dominicais. O jornalista procura seu lugar ao sol. “Gosto do que faço. É isso que escolhi para fazer. Eu vejo na rádio uma forma de, talvez, voltar ao mercado formal de jornalismo”, diz com indisfarçável espontaneidade. “Domingo Especial” é ouvido das 13h30 às 15h por um público fiel, principalmente das classes C, D e E. Em média, 30 ouvintes ligam para o locutor, principalmente por conta das premiações de CDs, mas segundo ele, há quem queira apenas participar e interagir.

É provável que poucos ouvintes saibam que Schutz é cego. O roteiro é feito em Braille por ele, que mantém o programa no ar com patrocínios, negociados em parceria com o tio Valdir Rosemiro da Costa. “Domingo Especial” tem oito quadros com notícias de esporte e geral, além de serviços como previsão do tempo e resultado de loterias.  Muitos leitores do ND, neste momento, podem estar se perguntando: “como um cego pode ser jornalista?” A tecnologia possibilita isto e a resposta vem prontamente: “Não é tão difícil”, afirma.

Lá se vão alguns anos desde que o desejo de notoriedade deixou de ser pejorativo para se tornar uma vontade legítima. Como é jornalista, Schutz enviou sua própria história como sugestão de pauta às redações dos jornais, televisões, rádios e sites de internet de Santa Catarina. Cego desde nascença, ele mora com o pai, a mãe e duas irmãs na Costa da Lagoa. É o pai Geraldo Schutz que o leva até a rádio em Capoeiras todos os domingos. Nas horas livres, gosta de acompanhar o futebol e navegar na internet.

Espontaneidade parece ser uma característica forte do radialista, que se formou em 2005 pela Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), aos 23 anos, como o primeiro jornalista cego de Santa Catarina. Na época, pelo pioneirismo, seus quatro anos de curso foram o início do programa de promoção da acessibilidade virtual aos deficientes. “Nos primeiros dois meses de faculdade, eu usava uma máquina de escrever em Braille e os alunos reclamavam do barulho que a máquina fazia”, relembra. Os desafios foram vencidos com a universidade, que instalou um computador para Schutz na segunda fase. Hoje, os deficientes visuais têm notebook para estudar.

Entretanto, passados seis anos, o jornalista constata que no mercado radiofônico pouca coisa mudou. “Hoje sei que o jornalismo não seria a única forma para se estar no rádio, qualquer um que queira comprar um horário, consegue entrar”, assevera. Os obstáculos na carreira, ao contrário de dissuadi-lo, servem de motivação para o jovem profissional. “A minha deficiência é um preconceito, infelizmente, para o empresário, de modo geral”, reconhece.

Certa vez, seu currículo foi selecionado em uma rádio, mas quando o contratante o viu, disse: “Como é que eu vou botar um cego pra trabalhar aqui?” Eu falei: “simplesmente, podes me explicar o que tem que fazer”. A resposta foi: “não tenho tempo pra te explicar”. Mas Schutz não se abala e trabalha em outros projetos pessoais, além do programa dominical, como a montagem da primeira rádioweb, feita só por cegos, a WM (World Music) Digital.Com criada em agosto do ano passado em parceria com o londrinense Devair de Souza.

Especial para O NOTÍCIAS DO DIA*
@gikindlein

Publicado no dia 11.4.2011, na página 8 do caderno Plural, do jornal Notícias do Dia


Categorias: Tags: , , ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *