A voz feminina do rádio

Lygia Santos foi a principal locutora e uma das primeiras radioatrizes da Rádio Guarujá na década de 1950. Posteriormente transferiu-se para a Rádio Diário da Manhã como locutora e radioatriz.

Paulo Clóvis Schmitz

Lygia Santos. Foto Daniel Queiroz/ND

Ao se referir a ela, o radialista e publicitário Antunes Severo disse que se tratava de “uma das vozes mais lindas que já tivemos”. O objeto do elogio era a ex-locutora e radioatriz Lygia Santos, que gozou, nos anos 1950 e 1960, de popularidade semelhante à que contempla as atrizes das atuais telenovelas de maior sucesso. O rádio era então o grande meio de comunicação de massa, onde os noticiários, programas de auditório e o radioteatro mobilizavam as emoções e balizavam o gosto e o comportamento das pessoas.

Em Florianópolis, a Guarujá e a Diário da Manhã (atual CBN) brigavam pela audiência e pelos anunciantes, num tempo em que a televisão , embrionária no país, ainda não havia chegado às terras catarinas.

Aos 79 anos, Lygia Santos leva uma vida de muitas leituras e pouca badalação no apartamento onde mora, no bairro de Campinas, de São José. Temporariamente, mora com a filha Geanine – nome que escolheu em homenagem à Janine  Lúcia, uma colega dos tempos de rádio. Entre os poucos registros que guarda está uma foto em que aparecem figuras que marcaram época na radiodifusão, como José Nazareno Coelho, Aldo Silva, Cacilda Nocetti, Edgard Bonassis e Felix Kleis. Ela  também cita colegas como Florentino Carminatti Júnior, Lauro Soncini, Alda Jacintho, Gustavo Neves, Antunes Severo e Neide Mariarrosa.

Mas dada a viver e falar do presente, Lygia conta que saiu cedo do rádio, mas lembra que entrou na Guarujá com 17 anos, em 1955, depois foi para a Diário da Manhã e também trabalhou na extinta companhia aérea Cruzeiro do Sul. Diz que lidava bem com a popularidade e que ajudava a família.

Outros carnavais

Se não é de sentir saudade dos velhos tempos e da Florianópolis que ficou pra trás – porque (toda cidade nasce com o intuito de evoluir) – Lygia Santos queria que voltassem os carnavais do passado. “A gente conhecia todo o mundo e ia para os clubes 12 de Agosto e Lyra para se divertir”, relembra. “Nas ruas não havia os abusos, desaforos e roubos de hoje em dia. O carnaval era mais ingênuo, espontâneo”.

Com nove netos e dois bisnetos, Lygia exibe pinturas que fez e, principalmente, os livros da estante. Há uma enorme coleção encadernada da Seleções do Reader’s Digest, obras sobre temas espiritualistas, histórias das religiões, dicionários e a Bíblia. “Tudo o que tem letra me atrai, por isso leio desde os autores antigos até os contemporâneos”, informa.

Truques da sonoplastia

As radionovelas, a coqueluche da época, estavam longe de dispor dos recursos da tecnologia moderna. Lygia Santos conta como Mozart Régis, o Pituca, que mais tarde foi parar na Rede Globo, improvisava na simulação de um cavalo se aproximando. “Ele batia duas metades de côco, uma contra a outra para fazer o som”. Na hora do trovão, o técnico dobrava uma chapa de alumínio, as novelas eram como as de hoje, na televisão, ou seja, tinha muita aventura e histórias de amor. O trabalho era pesado, incluindo os fins de semana, e a folga da principal locutora da emissora era durante as partidas de futebol.

“Os jovens de hoje reclamam por ninharias, dizem que fazem coisas de mais”, observa Lygia, referindo-se à dureza daqueles anos. “Eu tinha dois empregos e ajudava os pais, que ganhavam pouco. Estudei no Colégio Lauro Müller e na Academia de Comércio.

Sabia ler e escrever bem, o que abriu as portas para mim”.

Paulo Clóvis Schmitz | pc@noticiasdodia.com.br |Notícias do Dia, Fln, 09/04/2011

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *