A web – quem diria? – encanta a velha guarda

Quatorze milhões de idosos brasileiros, a maioria homens, gastam mais de cinco horas on-line por semana. Seus dedos checam e-mails (98%), procuram atividades de lazer (67%), buscam notícias (64%), realizam serviços bancários (58%) e se apaixonam. “Escreva uma carta, meu amor. E diga alguma coisa, por favor. Diga que você não me esqueceu. E que o seu coração ainda é meu.”, soava a voz de Roberto Carlos no rádio de dona Marlene Bezerra em 1965. O romantismo do rei inspirava colocar em prática a principal forma de comunicação entre os apaixonados da época: cartas e telegramas. Os tempos mudaram, claro, mas as declarações escritas continuam a inflamar relacionamentos. Do papel para o e-mail. Do telefone ao Skype. Do recado de geladeira aos 140 caracteres do Twitter. A geração com mais de 65 anos – que acompanhou meio que assustada essa transição – agora não se acanha com as novidades tecnológicas e avisa que está definitivamente on-line.

Dona Marlene tem 76 anos e é muito grata ao surgimento da internet. Em 1952, Geraldo Dantas apareceu na porta da escola e conquistou a menina de 17 anos. Os pais não gostavam do romance. A filha era nova demais para namorar. Mudaram-se para o Rio de Janeiro. As inúmeras cartas trocadas demoravam, algumas se perdiam, não chegavam. Os telefonemas com hora marcada ficaram cada vez mais raros e difíceis. Seguiram a vida. Casaram com outros amores sem nunca esquecer o que ficou no passado. Talvez ele já tivesse morrido, pensava.

Mais de 60 anos depois, viúva do primeiro casamento e divorciada do segundo, ela se aprontava para dormir depois de chegar de uma festa. De costas para a TV, arrumava a cama quando ouviu uma voz do passado. Pensou por alguns instantes se poderia ser ele. Virou-se para a tela e reconheceu de imediato a voz e o semblante. Era, mais calvo, grisalho e ainda charmoso, Geraldo em um programa de entrevistas do Amazonas. Estava na hora de recuperar um amor perdido no tempo. Emocionada, dona Marlene mandou um e-mail para a produção da emissora para saber o paradeiro do amado. Deu certo. Ele ainda lembrava muito bem daqueles olhos castanhos de Marlene. “Aí, a internet funcionou a toda bala!”, conta.

Ele em Manaus, ela em Petrópolis (RJ). Conectados pelo mundo virtual. Foram revelações, poemas, lembranças enviadas por e-mail e algumas vezes por ano trocadas pessoalmente no principal ponto de encontro do casal: Brasília – onde mora a filha de Geraldo. As conversas ficaram frequentes, como dona Marlene mesmo diz. Foi preciso comprar um notebook para ter mais liberdade. E então, virtualmente amaram-se, perdoaram-se e, principalmente, aprumaram-se com fervor.

Contudo, o último e-mail foi enviado em 24 de dezembro de 2010. Geraldo dizia estar tranquilo para a cirurgia de vesícula do dia seguinte. E Marlene preparava as malas para voar ao encontro do namorado. Ele não resistiu e morreu aos 88 anos, antes que ela pudesse chegar. “Nunca é tarde.

Infelizmente o tempo foi curto, mas vivido intensamente. E graças à internet, que matava distâncias e saudades, vivi grandes momentos deste grande e caloroso amor”, diz. Por mais alguns segundos, aproveita para destacar a importância da tecnologia para unir as pessoas, independentemente da idade.

Os preferidos
E este não é um caso único. Pode acontecer com os mais de 14 milhões de idosos brasileiros – o equivalente a duas vezes a população do Paraguai -, que cada vez mais conhecem os encantos da web. Dos internautas acima de 60 anos, 90% são homens e gastam mais de cinco horas on-line semanalmente, de acordo com a pesquisa da empresa de soluções em segurança Panda Security. O estudo, realizado em dezembro com 16.850 pessoas, revela que 98% deles navegam para checar os e-mails, 67% procuram atividades de lazer, 64% leem notícias e 58% usam serviços bancários. Por enquanto, as redes sociais ainda não estão entre os preferidos. Mas existem os adeptos: 28% têm perfil na rede e 11% participam de fóruns ou blogs.

E esse número vai aumentar. A população idosa cresce, e muito, no Brasil. Segundo dados do Censo 2010, divulgado na semana passada, o segmento passou a representar de 3,3%, em 1991, para 4,3% em 2000 e 5,8% em 2010. No Centro-Oeste, o percentual de crianças em 1991 era de 11,5% – e caiu para 7,6% no último ano. A expectativa é de que, em 2025, a população idosa brasileira seja de 35 milhões de pessoas – 21 milhões a mais do que neste momento.

O ex-presidente da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria Renato Maia acredita que este número ainda seja superado por causa das novas condições de vida da população. “O conceito de velhice mudou. O passado foi um período em que, as pessoas mais velhas eram afastadas das atividades sociais. Hoje, os idosos estão mobilizados a participar ativamente da sociedade”, explica. O médico acredita que com mais acesso a educação, cultura e renda, os idosos se deram conta de que os anos a mais que ganharam devem ser vividos intensamente. O computador incentiva a ideia e é uma nova oportunidade de conhecimento e relacionamento, uma estratégia poderosa que essa geração de internautas estão sabendo aproveitar muito bem.

As mães e os PCs
A Intel realizou uma enquete on-line com 1,5 mil internautas brasileiros em abril deste ano. Pelo menos 39% disseram que as mães querem ter um computador novo – e só para elas. O principal motivo para o uso de 33% é a possibilidade de manter a conectividade com toda a família e o de 29,6% é por causa do trabalho. Apenas 15,1% são capazes de utilizar todas as ferramentas do computador e da rede. Mas 11,2% gostam de jogar e têm perfil nas redes sociais. Já 27,3% dizem que elas pedem ajuda só de vez em quando.

Correio Braziliense – Informática | Colaborou Vera Lúcia Correia

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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