Adaptações

Dona Eulália, esposa de Juvenal, caminhava pela rua Conselheiro Mafra, no Centro de Florianópolis no início de uma tarde de sábado quando é surpreendida por um homem que diz:

– Por favor, pare agora mesmo, senhora.

Surpresa, dona Eulália pergunta do que se trata. O homem com cerca de 1,80 de altura, magro, cabelos pretos, uns 40 anos e trajando terno e gravata, diz:

– Senhora, me perdoe, não pretendo tirar muito o seu tempo, mas isso é um assalto. Vou sacar minha arma lentamente. Não há o que temer; sou perito no uso de armas de fogo e claro, minha pistola é registrada. Não pretendo usar de violência, só fique calma, por favor.

– Sim, senhor. Devo admitir que quando falou na arma me assustei, mas o senhor parece realmente saber o que está fazendo. Estou tranquila. Pode continuar, por favor.

– Admiro trabalhar com pessoas que têm educação como a sua. Bem, passe-me sua carteira e joias. Sua aliança, não. Imagino que para a senhora deve ter grande valor sentimental.

– O senhor é muito gentil. Se não se importar há duas ou três fotos em minha carteira; são dos meus pais, falecidos há muitos anos e outra do meu casamento. Juvenal e eu estamos casados faz mais de 30 anos. E também há uma foto dos meus 7 netos. Mas há uma boa quantia em dinheiro numa das partes dessa carteira; dinheiro que saquei no final da manhã a pedido do meu marido.

– Claro que sim. Estão aqui. Lindas recordações; sinto pelo seus pais e parabéns pela linda união. Desejo um bom futuro para os seus lindos netos. Bem, já peguei o que preciso; dinheiro e poucas joias. Tudo bem para a senhora?

– Ora, por favor, disponha do que precisar.

– Não. Já tenho o necessário. Tome aqui sua carteira com os cartões de crédito e débito. Havia pouco mais de 3 mil reais e mais o colar. Já é mais que o suficiente por ora. E creio que já roubei demais o seu tempo.

– Por favor, não tenho pressa, só tenho a lhe agradecer, não agiu com violência e foi muito educado; ah se todos fossem assim.

– Não pense a senhora que não sou modesto; é que nessa profissão há muitos despreparados. Muitos até chegam fazendo promessas e não as cumprem; violam quase todos os direitos dos que nos dão seu voto de confiança. Só lembro a senhora que deve ter mais cuidado ao andar por aí. Evite ruas e horários como esses. E não confie em qualquer ladrão, ou em qualquer promessa ou aparência.

– Ora, por favor, não se denomine assim, apenas faz o seu trabalho e diga-se de passagem que muito bem.

– Então, até outro dia, senhora.

– Até outro dia, senhor ladrão. Perdão, quis dizer, até outro dia, excelentíssimo senhor.

Dona Eulália chega em casa e pede a Juvenal que pague o taxista que aguarda lá fora. Juvenal paga o taxista e quando entra em casa pergunta à esposa como ficou sem dinheiro. Dona Eulália diz que foi assaltada. Seu Juvenal fica apavorado, mas a esposa o acalma contando cada detalhe sobre o assalto e em especial como foi bem tratada pelo bandido.

Juvenal corre até à barbearia do Otávio e conta a todos os amigos o que e como aconteceu.

O barbeiro diz que são raros os ladrões que agem assim. Já o amigo radialista Álvaro Antunes Carriel que está na cadeira do barbeiro diz que na segunda-feira fará um comentário especial sobre o fato. O Felisberto que saiu correndo do seu bar para ouvir a história, diz:

– Isso é completamente incomum, algo novo.

Antunes Carriel sutilmente corrige a conclusão de Felisberto. O radialista, explica:

– Engano seu. Há muitos ladrões com, digamos, um bom currículo. O problema, meus amigos, é que dona Eulália é só mais um dos muitos exemplos dos que estão se adaptando.

Juvenal coloca a mão direita sobre a testa e diz aos amigos:

– Bem que achei algo de muito comum nesse comportamento. Pobre da minha esposa, mas uma a se adaptar.

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