Aderbal Ramos da Silva: dedicação e fraternidade

O advogado, empresário e político Aderbal Ramos da Silva tem papel relevante na história da comunicação de Santa Catarina. Inicialmente dirigindo veículos da mídia impressa como o jornal A República, órgão do Partido Liberal Catarinense e o Jornal O ESTADO e, a partir de 1940 participou do desenvolvimento de emissoras como a Rádio Guarujá de Florianópolis e Rádio Difusora de Laguna entre outras em diferentes épocas e varias cidades catarinenses. Na política, reservado e conciliador foi deputado estadual, deputado federal e governador do Estado firmando uma reputação que o coloca entre as principais personalidades do estado de Santa Catarina.

Na condição de empresário, além de dirigir os diferentes empreendimentos do Grupo Hoepcke, destacou-se como banqueiro transformando a Casa Bancária Hoepcke, em 1952 no Banco Nacional do Paraná e Santa Catarina que contava também com a participação de outros grupos financeiros nacionais.
 
Quinze anos depois, dois radialistas empreendedores, mas sem recursos financeiros, lutam para fazer sobreviver um negócio pioneiro na Capital: uma agência de propaganda.

O negócio até que vinha crescendo. Começara com o atendimento ao comércio varejista, apenas criando textos publicitários para rádio e fazendo a produção de spots. Depois vieram as primeiras campanhas de varejo com peças para rádio, ponto de venda e eventos promocionais. Seguiram-se as primeiras contas – ah, como era difícil explicar para o cliente o que era uma conta publicitária! A primeira foi a campanha de lançamento do Edifício João Moritz, na Praça XV de Novembro, quase esquina com a Rua Felipe Schmidt, que além das tradicionais peças para rádio e jornal, tinha folder – folder? O que é isso? – tinha mala direta, tinha coquetel de lançamento, tinha alteração no tráfego de veículos – desnecessário, mas aumentava o impacto do evento!
 
E o que mais assustava os dois jovens radialistas era lidar com coisas bizarras como, por exemplo, fluxo de caixa, duplicata, capital de giro, capacidade de investimento… Uhau, uma loucura.

O negócio crescia, o faturamento aumentava – as despesas, então, nem se fala – e tudo isso formava um tremendo angu de caroço para os inexperientes “empresários”. E o recrutamento de talentos criativos? Tem gente no mercado? Que mercado? Tem que mandar gente estudar fora? Nós, donos do negócio temos que nos profissionalizar, mas como? Aprender com quem?

Estávamos na metade da década de 1960, recém entrados numa ditadura militar que derrubara o governo constitucional e mudava abruptamente a vida de toda a Nação. Em Santa Catarina nossa realidade era bem outra, mas também repleta de mudanças. Depois de dez anos de liderança da família Bornhausen, elege-se governador do Estado  o empresário Celso Ramos que trouxe uma avalanche de mudanças na economia e na educação como, por exemplo, criação do BDE – Banco de Desenvolvimento, mais tarde BESC e a Universidade para o Desenvolvimento, hoje UDESC além de iniciar as tratativas para a compra e total remodelação da antiga Cia. Catarinense de Telefones transformada na TELESC.
 
No meio dessa “convulsão intestina” lá estávamos nós – Rozendo Vasconcellos Lima e eu – pilotando na base do instinto e da garra uma empresa que teimava em crescer, que se chamava A.S. Propague e que hoje continua no mercado com o nome de Propague. Que fazer? Partimos para a mais ousada das opções entre as que se nos apresentaram naquele momento. Nosso problema é capital? Então vamos atrás de capital.
 
Definimos uma estratégia: nós precisamos ter uma sede própria para mostrar ao mercado que nós também somos empresários. Naquele momento estava em fase de construção – já iniciando os acabamentos – o Edifício Brigadeiro Fagundes (Galeria Comasa, como é conhecido), em plena Rua Felipe Schmidt, a mais badalada rua comercial do centro da Capital.
 
Fizemos as contas – precisávamos de espaço para a criação, produção, mídia, administração e direção geral – umas seis salas mais ou menos, mais instalações sanitárias e área serviço. Uns 120 metros quadrados de área útil. Coisa no valor de uns 500 mil reais em dinheiro de hoje.

Garantia? Temos garantias? Neca, nadica de nada.
 
A conclusão era paralisante. Caira um balde d’água na nossa cabeça!

E essa foi a salvação. Com o choque, Rozendo que era quase ilhéu, pois a família dele residia em Florianópolis desde os seus quatro meses de idade, levantou a lebre: “Acho que o Dr. Aderbal é capaz de nos ajudar”. Eu gelei, pois a idéia me parecia absurda: nós ainda trabalhávamos na Rádio Diário da Manhã, da família Bornhausen, líder da UDN e a maior concorrente da Rádio Guarujá do Dr. Aderbal que era o líder político do PSD, o maior rival da UDN.

Retomei o fôlego: “Rozendo, acho que ele nem vai nos receber, ma se você acha que se deve tentar eu topo”.

Três dias depois fomos recebidos no gabinete do Dr. Aderbal Ramos da Silva, na sede do Banco Nacional do Paraná e Santa Catarina, num dos prédios da família Hoepcke, na parte central da Rua Felipe Schmidt, em Florianópolis.

Tranquilo e sereno ele nos recebeu, pediu para trazerem cafezinho e o Rozendo falou do nosso negócio; como começamos, até onde havíamos chegado e o que precisávamos para deslanchar.
 
Com a mesma calma ele nos olha, os dois, e pergunta: “quanto é que vocês precisam e como é que vocês podem pagar?”

Rozendo retoma a palavra: “Dr. Aderbal, nós precisamos (deu o valor de quanto era o valor do imóvel)” e rápido emendou: “nós precisamos de um ano para pagar”.

De imediato ele chama o gerente da agência, informa que nos fora autorizado o empréstimo, que o juro será de 1% ao mês e que nós temos um ano de carência para pagar.
 
Cinco minutos, se tanto, e nós havíamos assinado a promissória que foi quitada, exatamente um ano depois como havia sido acordado.

Diante de fatos como esse não é de se estranhar o júbilo com que estamos participando nesta semana dos festejos do centenário de nascimento de um homem que nos honra com sua dignidade, dedicação e fraternidade.

Originalmente publicada no site AcontecendoAqui

2 respostas
  1. Adalberto Day says:

    Severo
    Desde garoto ouvia belas histórias desse político e suas atividades correlatas e empresariais.
    Advogado renomado Aderbal Ramos da Silva, (como dizia o Rodolfo Sestrem o Deba ao referir-se ao campo do Palmeiras-BEC de Blumenau) , teve seu destaque e renome no cenário catarinense.
    Como empresário também muito atuante. Até o futebol se rende a este homem colocando o nome aos estádios, o Avaí e o Palmeiras de Blumenau.
    Parabéns pelo belo texto
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

  2. Clesio de Luca says:

    Caro Antunes Severo, também ouvi muita historia do Sr.Deba, personagem importante no círculo político catarinense. Quando se falava nele, devido a sua grande influência, era como dar um tiro certo.
    Sinto falta amigo de um site de histórias sobre a nossa querida Florianópolis. Certamente o Aderbal, você, o Adolpho Zigueli, Zininho e outros tantos mais certamente seriam contemplados.
    Parabéns ao seu trabalho, como sempre muito ligadão…Abraços aos membros de sua família.

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