Adeus “Cachorrão” Jair Rodrigues!

selo-comportamentoAos três anos de idade, minha adaptação à TV foi tão natural e imediata, que virei “escravo” das imagens em preto e branco, cores que nunca brigavam entre si, pois sem uma a outra não existiria, nem tampouco seus contrastes.

Quando a ligávamos, era preciso aguardar uma “eternidade” até que ela “esquentasse” e as imagens das pouquíssimas emissoras de então aparecessem.

Mas eram os anos de 1960, e todas as programações eram ótimas!

Tupi, Excelsior e Record disputavam a audiência com arte, “para o bem de todos e felicidade geral da nação”; e a maioria dos shows era transmitida ao vivo!

JAIR

Em preto e branco, vi o alvinegro Santos FC, no auge de Pelé, que reforçava ainda mais o contraste dessas duas cores, que explodiam em todos os matizes, nos olhos fascinados de quem viu o do “Craque Café” brilhar pelos gramados do mundo.

Na Record, em branco e preto vi Wilson Simonal, “negro de cor”, comandar seu show cheio de pilantragem, antes de “reger” trinta mil pessoas no Maracanãzinho, comprovando de vez que tinha “algo mais”, que preconceito nenhum poderia negar.

Em preto e branco, também na Record, vi serem escritas páginas memoráveis da música brasileira, com Elis Regina comandando o “Fino da Bossa” com outra figura excepcional, um dos maiores artistas que conheci: o “Cachorrão” Jair Rodrigues!

Como eu adorava ver aqueles dois e seus convidados, cantando e brincando ao vivo! E eu tinha apenas quatro anos, nessa época!

Seus discos “Dois na Bossa” estão entre os melhores da MPB, disparado!

E por falar nisso, sua interpretação de “Disparada”, no Festival da Record de 1966, protagonizou o único empate da história do concurso, quando dividiu o primeiro lugar com “A Banda”, defendida por Chico Buarque e Nara Leão.

Jair Rodrigues era uma figura tão querida e respeitada, e um intérprete tão vigoroso e diferenciado, que encantava e dominava qualquer público de forma natural e alegre.

Eclético e atlético, Jair cantou Vandré, Belchior, Pelé, Roberta Miranda, Jair Amorim e Evaldo Gouveia, Haroldo Lobo, Baden Powell e Vinícius, Zuzuca…

Em preto e branco ou em cores, acima de qualquer preconceito estúpido, ele já tripudiava desde o início de carreira: “Deixa que digam, que pensem, que falem…”, associado ao movimento de mão que virou sua marca registrada, obrigatório para quem canta: “Deixa isso pra lá!”.

Contrastando com essa história, hoje, o colorido é mais importante do que o conteúdo; os vencedores de festivais são imediatamente esquecidos, e a TV, que não precisa mais esquentar, torra nossa paciência com “esquentas” que estão detonando e incinerando a música brasileira, até quando faz “tributos”…

Por isso, Jair Rodrigues nunca será esquecido: pela qualidade de seu repertório, pelo bom humor que sempre o caracterizou; pela coragem de dizer o que pensava, quando muitos preferiram calar, como quando desabafou sobre a morte de Elis Regina!

Jair Rodrigues era e continuará sendo aquele cara com que você gostaria de “bater um papo, assim, gostoso” em qualquer lugar.

“Vai, vai por mim”, vai andar por aí, amigo Jair, para um lugar todinho seu! Céu de estrelas, onde encontrarás “uma rede preguiçosa pra deitar”, “galos, noites e quintais”!

De nossa parte, tentaremos “ver a morte sem chorar”…

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