Adeus, guerrilheiro da objetividade!

Denis Luciano*

Era um fim de tarde qualquer de 2004. Ele tinha um olhar forte, grave, sem ser tenso. Diante dele, era eu o aprendiz, curioso e com um certo medo daquela figura mítica. Das suas palavras bem pronunciadas, saía o recado. “Quanto menor a pergunta, melhor a resposta.” Assim, Flávio Alcaraz Gomes me repassava a principal, e resumida orientação, para, por dois dias, apresentar seu programa Flávio Alcaraz Gomes Repórter na Rádio Guaíba. Mínima interinidade, mas que recheou um ainda jovem currículo com páginas de inesquecível experiência. Pois o Flávio, no auge da sabedoria dos seus 83 anos, partiu. Uma das bandeiras do radiojornalismo brasileiro foi arriada, deixou de tremular nos campos de guerra, onde ele tanto gostou de estar.

Quem teve a glória de sintonizar os quilociclos da velha Guaíba nos idos de 60, 70, ouvia aquelas transmissões, claro, permeadas por alguns ruídos, mas que surgiam de recôncavos inexplorados, como Oriente Médio e China, colocavam ouvintes em lugares onde somente agora estão televisão e internet. Lá esteve o rádio, como bem contou em seus livros o “guerrilheiro da notícia”, o velho Flávio.

No sangue espanhol, sempre pulsou a comunicação. Não figura nas placas de bronze da fundação da Rádio Guaíba, em 1957, embora tenha sido personagem fundamental da criação do “padrão Guaíba” e grande artífice de uma façanha inédita, ao levar o rádio sul-brasileiro para a Copa do Mundo de 1958.

Os chiados entremeados por “Ipiranga informa, Copa da Suécia na Guaíba” tinham a ênfase do destemor deste desbravador, que transformou sonhos em realidades no rádio.

O Flávio levou para as ondas sonoras a chegada do homem na Lua. Foi aos Estados Unidos contar tal façanha, tão real para ele. E quem ouviu tem a certeza que, de fato, os pés de Neil Armstrong tocaram o solo lunar, tamanha a convicção da jornada narrada por ele, na Guaíba.

Perdeu-se o mestre maior de descrever ambientes, de tornar radiofônico o silêncio, o gesto, as cores, o balanço das árvores e o comportamento dos mares. Ele, o Flávio, transformava natureza morta em rádio vivo, e tudo isto em conteúdo para os ouvidos de quem bebia da sua fonte.

Ele não usou telefone celular para falar da Guerra dos Seis Dias, não usou linhas digitais para transmitir da revolta dos estudantes em Paris. Ele usou o poderoso manancial que o intelecto oferece, desde que usado com ética e boa medida, de transformar em palavras os sentimentos, os fatos.

Do alto da economia dos substantivos, da opinião potente na raiz das poucas e corretas palavras, do poupar de adjetivos e da inexistência de rotina, fez da vida de comunicar o intercalar da dureza e da leveza. Foi-se um mestre. Quem dele aprendeu, aprendeu. Com ele, foi-se uma objetividade ímpar, exclusiva, decisiva. Valeu guerrilheiro!

*Radialista da Rádio Eldorado, Editor do Portal Engeplus, estudante de jornalismo. Foi colega de Flávio Alcaraz Gomes na Rádio Guaíba, em Porto Alegre, de 2001 a 2006. Flávio, ex-diretor das rádios Guaíba e Gaúcha, atuava por último na Rede Pampa de Comunicação. (Colaborou Karina Farias).

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