Adhemar Ghisi, um guerreiro da vida

Lembro de Adhemar Ghisi, falecido nesta semana em Lisboa, deputado federal da Arena, eleito com o apoio do “velho” Diomício Freitas, dono da Rádio Eldorado, onde eu trabalhava (de 1967 a 1982).

Chegado de Brasília, trazia com ele uma enorme fita de rolo para rodar na rádio. Ainda escolhia o horário: meia dia. Nada casualmente, o Jornal Falado que eu produzia e apresentava.  As fitas jamais tinham menos de meia hora de duração. Era seus discursos integrais sobre temas da região.

Eu ficava puto da cara com aquilo, no início. Depois, absorvi, após uma conversa com “seu” Diomício. Me disse o “velho”: “Machado, o Adhemar é nosso candidato. Se nós não apoiarmos, quem apoiará? Os comunistas? A rádio está aí para isso, ou para que você acha que eu tenho rádio?”

Relaxei e absorvi, mantendo com Adhemar, ao longo do tempo, uma sólida relação de amizade.

No rastro dessa relação ele me convidou e pagou a passagem para eu visitar Brasília – a primeira vez em 1973, na eleição de Maria Hermínia Aléssio como Miss Santa Catarina, concorrendo ao Miss Brasil, concurso que transmitimos ao vivo – eu e o Darciony Silva. O Adhemar foi nosso anfitrião.

Lembro como se fosse hoje: o prédio da Eldorado, na Rua Rui Barbosa, ao lado do Edifício Comasa. Muitas vezes, quando não trazia fita em rolo com seus discursos, Adhemar ia falar ao vivo ao meio dia.

Terminada a entrevista, a gente chegava na janela com vista para o Comasa, e aquela fila enorme de gente à frente do escritório político do Adhemar (que ficava no edifício Comasa). Adhemar nem havia almoçado e eu perguntava: “Escapa, Adhemar, vai almoçar”.

Ele, no seu estilo de político popular, dizia: “Não posso deixar meu povo esperando. Vou comer um sanduíche e vou atendê-los. É para isso que fui eleito”.

Noutra ocasião – só para fixar como era Adhemar – o Celso Raimundo, do Creci, me pediu para ir a Brasília falar com ele, então ministro do TCU, para saber a quantas andava um processo de interesse do Creci que estava no Tribunal de Contas da União, nas mãos do Adhemar para dar parecer.

Ganhei passagem, dinheiro para estadia e hotel e me mandei (me senti um lobista!!!). Chegando em Brasília, fui falar com o Adhemar no TCU.

Apresentando-me na portaria, identifiquei-me e a moça me disse: “Nem precisa falar mais nada. O ministro Ghisi disse que quando for gente da sua terra, pode entrar sem anunciar.”

Lá dentro, Adhemar ouviu o motivo de minha viagem e me revelou: “O assunto está resolvido. Já despachei e em favor do Creci. Mas vou dizer a eles (Creci) que foi graças a você, para valorizar a sua visita.”

A morte de Adhemar Ghisi me faz trazer à tona essas pequenas lembranças.

Se Santa Catarina deve muito – o Sul em particular – a algumas pessoas, por certo uma das principais é Adhemar Ghisi. Minhas homenagens a esse guerreiro da vida.

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Por Aderbal Machado

Radialista e jornalista. Nasceu em Araranguá (SC) e iniciou como locutor ao microfone da Rádio Eldorado de Criciúma onde exerceu funções de repórter, redator e de diretor da emissora. Atua atualmente em jornal, rádio, televisão e internet onde mantém o site aderbalmachado.com.br | Reside em Balneário Camboriú/SC.
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5 respostas
  1. Fátima Beltrame says:

    “A morte de Adhemar Ghisi me faz trazer à tona essas pequenas lembranças.” Foi o que você disse. E foi o que me trouxe também ao ler suas lembranças.
    Revejo Ademar Ghisi chegando a Criciúma e nós empenhados em recebê-lo e proclamar sua voz para o sul . Aquela voz rouca, em tom baixo mas peremptória. Ao falar com Sr. Ademar dava a impressão que ele fazia enorme esforço para se pronunciar. Engano. Ele se fazia ouvir no tom que escolheu: simpatia e cordialidade.
    Presto essa homenagem ao Sr. Ademar Ghisi,um dos poucos políticos que conheci, que soube tratar com respeito e dignamente os profissionais de imprensa.
    Verdade que nos fazia passar alguma raiva, às vezes, pois seus discursos eram longos e cansativos e tínhamos que ficar até o final. Mas no final ele ria…ria e dizia “minha filha…”
    Grande Adhemar Ghisi!

  2. ernani kurtz says:

    eu morava em Tubarão, inspetor da TEXACO qundo o o Ademar lançou-se candidato pela extinta UDN ,com um clube denominado CLUBE DA LUA QUE AGRUPAVA ESTUDANTES SEUS AMIGOS. VOLTEI PARA O R. GRANDE A APÓS VARIOS ANIOS EM VISITA POR FLORIPA ENCONTREI-O NO REST. LINDA CAP. E ABRAÇOU-ME REWLEMBRANDO OS VALHOS TEMPOS. BOM AMIGO E GRANDE SUJEITO, MEUS RESPEITOS PELA FALTA QUE ELE FARA EM S. CATARINA, POR QUE SERIA UM GRANDE GOVERNADOR.

  3. Luiz Francfort says:

    Aderbal, que gostoso abrir o e-mail e relembrar aquele tempo de pioneirismo e dedicação a profissão que Vc. demonstrou ter desde o primeiro dia que o conhecí. Lendo a respeito do Deputado Adhemar ou sobre a cobertura das eleições feita pela “nossa” TV Eldorado, escrito por Vc e pela Fátima Beltrame nos remete, eu e a Regina a um tempo de realizações proficionais numa emissora que nasceu para ser grande (como foi)e que tivemos o privilégio de fazer parte daquela equipe. Dirigi algumas rádios e redes de TVs, antes e depois da Eldorado, mas a “minha filha” de Criciúma foi a mais marcante de minha carreira, e me sinto no direito (adquirido) de me considerar por conta propria, como CATARINENSE embora nascido em S. Paulo. E, é nessa condição que quero lhe dar os parabens pelo jornalista brilhante que sempre foi, autor de textos diretos e limpos que convidam a gente a ler!
    SAUDADES !!!
    Luiz Francfort e Regina.

  4. Aderbal Machado says:

    Luiz Francfort e Regina da Glória!!

    Que bom manter contato com vocês de novo. Tanto tempo passado e nós estamos aqui, nos comunicando e com o mesmo ímpeto! Uma bênção, seguramente!
    Você tem razão: a Eldorado da época – TV e rádio – geraram em todos nós uma marca indelével de profissionalismo e trabalho. Foi ali que moldei meu caráter como jornalista e aprendi muito com colegas, superiores e subalternos, dentro de um espírito que – desculpem os que vieram depois – nunca mais vi nem senti. Até os conflitos profissionais daquele tempo eram bons, pois faziam a gente refletir e criar uma emulação pelo melhor.
    Saudade é pouco, parceiro e amigo. Por mais que tempo passe, esta marca não apagará. Que prazer enorme em revê-lo e à Regina! Volte sempre, meu camarada!

    Aderbal, com um abraço fraternal e grato.

  5. Aléscio Bonetti says:

    Eu ainda nem sabia o que era ser gente e o meu pai, (primo do Adhemar Ghisi) jah tinha um santinho do Adhemar e do Irineu brhnausen, candidatos, respectivamente, à Câmara e ao Senado. Hoje só tenho saudades, pois, não conheci o Adhemar e não tenho mais o meu pai.
    Lembro apenas que o meu pai dizia: “Se a causa não for justa, o adhemar não defendia”
    Quanta saudade. Aléscio Bonetti

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