Adolfo Zigelli: gente, notícia, opinião

Há 79 anos, no dia 12 de março, nascia em Joaçaba, Adolfo Zigelli, o caçula de uma família de três irmãos, filhos de um casal de imigrantes do norte da Europa que escolhera residir no Médio Oeste de Santa Catarina, mais precisamente na cidade de Cruzeiro do Sul, atual Joaçaba, às margens do Rio do Peixe.

 Adolfo e Walter Zigelli preparam o programa de rádio

Adolfo e Walter Zigelli preparam o programa de rádio

Lá, o escrivão Guilherme e dona Olga constituíram sua família brasileira: pai, mãe e os filhos Walter, Gertrudes e Adolfo. Lá cresceram – pobres, mas felizes – lá perderam pai e mãe e cedo tiveram que trabalhar. A vocação inata para o jornalismo levou os dois rapazes, aos 16 e 14 anos, a trabalharem no jornal Cruzeiro do Sul e na Rádio Sociedade Catarinense. Enquanto isso, a irmã estudava no colégio das freiras visando um carreira de professora, talvez. Assim, lá viveram até 1955 quando foram descobertos pelo deputado Jorge Lacerda que concorria ao cargo de governador do Estado. Reconhecendo o potencial dos garotos, ao final de um comício, disse ao cumprimentar a dupla: “Se eu for eleito vou levar vocês para trabalharem comigo”.

O impacto da declaração, passado o primeiro momento, foi para o escaninho das promessas não cumpridas. Até que, Lacerda eleito, em março de 1956 confirmou o convite, mostrando que seu governo viera para mudar.

Relembrando esses fatos e revivendo o período áureo de convívio fraterno que tivemos e que mantenho com o Walter, convido-o, caro leitor, a ler “Adolfo Zigelli – Jornalista de Vanguarda, de Moacir Pereira (Editora Insular, 2000); “A vida de Adolfo Zigelli”, de Elissa Bonato e Nara Cordeiro (Ufsc 2002); “Caros Ouvintes – Os 60 anos do rádio em Florianópolis, de Antunes Severo e Ricardo Medeiros ((Editora Insular, 2005) e a rever matérias no site do Caros como a que se segue, publicada originalmente em forma de entrevista que realizei com o joaçabense Nelson Pedrini, em 01 de setembro de 2004.

Entrevista de Nelson Pedrini realizada na Pizzaria do Bingo, ao lado do Bob’s do Centro, em Florianópolis, no dia 03/02/2003, por Antunes Severo.

Antunes: Como era Joaçaba, no final da década de 1950?

Pedrini: Bom Antunes é o seguinte. Eu sou da mesma geração do Adolfo Zigelli. Nascemos na segunda metade de 1930, por volta de 35/36, em Joaçaba evidentemente e vivi com o Adolfo Zigelli diuturna e diariamente até 1953. Estudamos no Grupo Roberto Trompowsky, uma escola pública e depois a partir de 1947 no Colégio dos Irmãos Maristas, então chamado de Ginásio Frei Rogério. Fui colega de ginásio do Adolfo Zigelli durante quatro anos – 1947, 48, 49 e 50 – começamos e terminamos o ginásio juntos. Lembro perfeitamente que o Adolfo já era uma inteligência fulgurante. Era se não o primeiro um dos primeiros da sala de aula e já denotava, pelo seu espírito irrequieto, pela sua persistência, o homem de rádio, o político, o comentarista, o cronista que viria a ser anos após. Terminado o ginásio em 1950, e como em todo o Vale do Rio do Peixe – isso é importante assinalar – não havia ainda segundo grau, Adolfo e eu fomos estudar na cidade de Porto Alegre. Lá já se encontrava o irmão mais velho dele o Walter Zigelli. Em 1951 fomos juntos de ônibus, o Walter o Adolfo e eu, para Porto Alegre. O Walter e o Adolfo ficaram morando num apartamento que os pais alugaram na Avenida Farrapos. E eu, o meu pai exigiu que eu ficasse interno no Colégio Marista. Fiquei quase dois anos interno no Colégio Marista.

Por circunstâncias da vida, pelo fato especialmente de terem perdido prematuramente os pais, o seu Guilherme e sua esposa, o Walter e o Adolfo retornaram para Joaçaba. E aí começa o grande momento da vida de rádio e vida pública do Adolfo Zigelli. Retornando para Joaçaba os dois irmãos passaram a trabalhar na Rádio Sociedade Catarinense, prefixo ZYC-7 – que é uma das mais antigas rádio-emissoras do interior de Santa Catarina. Faziam programas, ao que eu me lembro, de auditório, radiojornalismo e comentários políticos.

Chegamos então em 1955. Porque que eu digo 1955. Porque neste ano mudou completamente a vida dos irmãos Zigelli. Acontecia a eleição para o governo do estado de Santa Catarina. Era candidato pelo PRP – Partido de Representação Popular – com o apoio da UDN, o também jornalista, advogado e médico Dr. Jorge Lacerda, e era candidato pela Aliança PSD/PTB, Francisco Benjamim Gallotti. Não havia até então o cargo de vice-governador. Aliás, nesse ano foi eleito pela primeira vez um vice-governador. Concorreu para vice-governador pela chapa de Francisco Benjamim Gallotti o Dr. José de Miranda Gomes, que foi deputado estadual e pela chapa do Dr. Jorge Lacerda o Dr. Heriberto Hülse – daí a razão do Dr. Heriberto Hülse vir a ter sido Governador do Estado com a morte trágica e prematura de Jorge Lacerda no dia 16 de junho de 1958.

Mas, para tu teres idéia Joaçaba, na década de 1950 – esta a que eu me refiro, esta do Adolfo e a minha – era uma cidade pacata. Noventa por cento das casas eram ainda de madeira, tinha dois cinemas, à noite as famílias se reuniam para tomar chimarrão nas calçadas – como também eram os costumes que trouxeram do Rio Grande do Sul – não havia televisão, mas havia rádio. E Joaçaba se destacou desde aquela época pioneira no interior catarinense tanto em rádio como em jornal. A rádio em que Adolfo e Walter trabalharam e a que fiz referência há pouco, foi criada logo após a democratização do país, portanto em 1946/47, por arte e graça de um grande chefe político que existia lá, o coronel Passos Maia – hoje nome de um município, desmembrado de Ponte Serrada. O coronel Passos Maia – coronel da Revolução de 1930 – ele não era coronel de carreira, do exército, ele era natural de Guaporé, gaúcho que veio também como a maioria dos habitantes de Joaçaba e da região, veio do Rio Grande do Sul. O coronel Passos Maia, junto com um grande advogado e político da época, Dr. Brasílio Celestino de Oliveira, com Mário Cachoeira Gomes e com Victorio Leduque – pelo que me lembro foram esses – constituíram uma sociedade e criaram a Rádio Sociedade Catarinense com o prefixo ZYC-7. Pelo que me consta, porque eu ainda continuava estudando em Porto Alegre, o Dr. Jorge Lacerda quando passou por Joaçaba em campanha política, conheceu os dois jovens Walter e Adolfo e viu neles, rapazes corretos, bons oradores, bons vocalizadores e predispostos – predestinados, melhor dizendo – a ter uma vida pública, especialmente no setor de radiojornalismo, promissora como vieram a ter.

Vencidas as eleições pelo Dr. Jorge Lacerda foi indicado para ser secretário – o que na época se chamava Interior e Justiça – exatamente esse advogado – Dr. Brasílio Celestino de Oliveira, advogado que com a morte do senhor Guilherme Zigelli, pai de Adolfo, passou a ser de certa forma um protetor, um orientador do Adolfo, do Walter e da irmã deles, a falecida dona Gertrudes. E vindo a residir em Florianópolis o Dr. Brasílio convidou o Adolfo para ser o seu chefe de gabinete na Secretaria do Interior e Justiça e o Walter veio a trabalhar no gabinete do governador Jorge Lacerda.

Aí mudou completamente. Saíram da pequenina cidade de Joaçaba, isso no início de 1956, pacata, bucólica, tranqüila e vieram residir na Capital do Estado.

Joaçaba sempre foi pólo político, geográfico, econômico e social do Vale do rio do Peixe.Por ter essa importância regional Joaçaba foi também naquela época provavelmente uma das cidades onde mais dura, cruenta e renhida era a vida político-partidária. Tanto é assim que quanto a Rádio Sociedade Catarinense era a porta-voz da União Democrática Nacional, do seu programa e dos seus líderes maiores, alguns anos depois, nos primeiros anos da década de 1950 foi fundada a Rádio Joaçada/Herval D’Oeste constituída – por quem, preste bem atenção -, pelo senhor Güerino Silva Dalcanalle, que em 1964, portanto 10 anos após a fundação dessa emissora vendeu-a, – veja para que pessoas – Celso Ramos, então governador; Joaquim Ramos, então deputado federal do PSD; Dr. Aderbal Ramos da Silva – que tinha sido governador do estado, o dono do jornal O Estado, o dono da Rádio Guarujá; o Sr Atílio Fontana que era deputado, veio a ser senador e vice-governador do estado; o Dr. Olavo Rigon, advogado do grupo Sadia em Concórdia; o Sr Güerino Dalcanalle e eu. Todos pessedistas, daqueles mais fanáticos e empedernidos que Santa Catarina conheceu.

E a Rádio Sociedade Catarinense já existia há mais de 10 anos. Então, como não havia televisão e como a maneira de comunicação social era feita pelas chamadas ondas das rádios – ondas médias e curtas, brinca Pedrini -, o debate político era feito pelos microfones.

Eu, por exemplo, retornando de Porto Alegre, recém formado advogado, iniciei… e também me projetei na política – não apenas fazendo júri – como também fazendo, veja só, na Rádio Herval do D’Oeste, o programa da Hora da Ave Maria, às seis horas da tarde.

Eu me lembro, tinha um livrinho do Júlio Louzada, parece que era o autor, tinha uns escritos para cada dia… e eu também depois modificava e dava as minhas mensagens. Posteriormente passei a fazer programas de debates na Rádio Herval D’Oeste, e depois, quando me associei, fui diretor dessa rádio. Eu tinha na Rádio Herval do D’Oeste meia hora diária, das 12h30 às 13 horas que era um programa de política, como também o Adolfo e o Walter tinham na Rádio Sociedade Catarinense. Evidentemente que o Adolfo e o Walter – especialmente o Adolfo Zigelli – levavam ampla vantagem sobre mim porque eles eram radialistas profissionais atuando em radiojornalismo. O Adolfo, que nós chamávamos carinhosamente de Pibe (miúdo, em espanhol) – não se sabe a origem e a razão deste apelido, talvez tenha sido um apelido de casa, dos pais – o Pibe era um homem altamente combativo, ele era impiedoso com os seus adversários políticos, mas sempre respeitoso.

Ele sempre me poupou e as nossas famílias se davam muito bem – meus pais e os pais do Adolfo se davam muito bem – ele era impiedoso, ele não perdoava o PSD nem os arautos desse partido, entre os quais eu me incluía, mas sempre foi respeitoso, um rapaz – e não é por estar aqui, você conviveu talvez mais intimamente e de forma mais trepidante ainda com o Adolfo do que eu – é um rapaz que pode ser apontado até hoje como exemplo a ser seguido por todos aqueles que queiram fazer um sadio, correto, honesto e um imparcial radiojornalismo em Santa Catarina. Não estarei errando se disser que o jornalismo, o radiojornalismo em Santa Catarina, teve uma fase antes e uma fase após Adolfo Zigelli.

Adolfo e Antunes comentam carta de ouvinte no programa Ponto de Encontro da Rádio Diário da Manhã

Adolfo e Antunes comentam carta de ouvinte no programa Ponto de Encontro da Rádio Diário da Manhã

Aquele espírito de luta, muito próprio dos homens que nasceram no Oeste, talvez pelo terreno dobrado, pelo calor, porque éramos descendentes de pioneiros que colonizaram aquela região, esse espírito de luta, de bravura, que o Adolfo tão bem soube arraigar, ele trouxe para o litoral de Santa Catarina. E incutiu, imprimiu – foi o que frisou a marca da sua atuação no radiojornalismo de Florianópolis – a destacar-se a Rádio Diário da Manhã – cujo programa tinha a supremacia da audiência da população da Capital e da região da grande Florianópolis.

Antunes: Você como político conviveu, também em Florianópolis, com essa atuação em rádio do Adolfo – o Walter já estava seguindo a sua vida de advogado – como que você viu esse embate, porque aqui também havia um embate entre a Rádio Guarujá e Rádio Diário da Manhã, PSD e UDN e vice-versa?

Pedrini: O Walter retornou para Joaçaba e o Adolfo ficou em Florianópolis. O Walter disputou a eleição de vereador comigo, nos elegemos vereador em 1958 (em Joaçaba). Depois ele se elegeu deputado e eu também, ele pela UDN em 1962 e eu pelo PSD, e ele retornou para Florianópolis em 1963 e eu vim para cá – está fazendo 40 anos que eu cheguei em Florianópolis. Exatamente agora no final de janeiro fez 40 anos que estou morando na Ilha Capital.

Mas o Adolfo já tinha “volvido” (retornado em espanhol) antes para Florianópolis. Já estava fazendo a vida de jornalista aqui. E o Adolfo continuou sendo aquele mesmo arauto da UDN. E coincidiu que quando fui presidente da Assembléia Legislativa, no biênio 1971/72, o Adolfo, não obstante a amizade que sempre mantivemos, a nossa origem comum de Joaçaba, a nossa amizade que vinha desde a nossa infância, dos brinquedos e dos folguedos da infância, ele nunca perdoou. Ele foi um adversário, que eu repito, impiedoso, mas respeitoso e por ser respeitoso, respeitado por mim, como era de resto respeitado por todos os ouvintes da Rádio Diário da Manhã em Santa Catarina e que soube manter uma posição, por sua retidão de caráter, por suas posições políticas inalienáveis – que é muito importante, inalienáveis, que não se curvava a ninguém, o Adolfo tinha o respeito dos pessedistas que residiam em Florianópolis.

Nós que costumávamos ouvir a Rádio Guarujá, que transmitia os escritos do jornalista Rubens de Arruda Ramos, nós que líamos o jornal O Estado, especialmente as colunas o “Busca Pé e Frechando”, também do Ju (apelido do Rubens), nós também escutávamos, baixinho é verdade, os comentários que o Adolfo fazia pela Rádio Diário da Manhã – aquela Marcha dos Acontecimentos, que eu bem me lembro, e que era a banda de música permanente e diária a embalar o entusiasmo dos udenistas, não só da capital, como do interior do estado. Nada se fazia, em termos da UDN sem ouvir primeiro o que estava dizendo o Adolfo – porque o Adolfo era o porta voz exatamente das idéias, das deliberações, das posições assumidas pelo partido que ele tanto honrou, que foi a União Democrática Nacional.

Adolfo Zigelli, 1956

Adolfo Zigelli, 1956

Antunes: Como você analisa a contribuição do rádio nessa fase de redemocratização do país?

Pedrini: O rádio foi fundamental. Eu acho que até hoje, me parece que essa é a estatística, o rádio hoje tem maior penetração, mais audiência do que a própria televisão. Porque o rádio é ouvido de manhã, de tarde, à noite, de madrugada e em todos os lugares. Eu vejo muito pelas pessoas que trabalham nas residências, elas estão sempre com o rádio transistor ligado. E depois que o japonês descobriu o rádio transistor, a pessoa apascenta o rebanho, a pessoa está viajando, a pessoa liga o rádio, hoje continua sendo na minha opinião o maior veículo de comunicação institucional, social, econômica e política no Brasil.

Eu vou fazer uma confissão à você Antunes Severo: se eu não tivesse estudado e me decido ser advogado eu teria também procurado me aprimorar no radiojornalismo. Gosto até hoje de rádio, acho que o rádio foi fundamental em todos os principais episódios da vida brasileira. Citaria a Revolução de 1930 chefiada por Getúlio (Vargas), a Revolução Constitucionalista de 1932, a Intentona Comunista de 1935, o “putchin” Integralista de 1938, a decretação do Estado Novo em 10 de novembro de 1937, a convocação da Assembléia Nacional Constituinte, em 1934, a declaração de guerra no Brasil às forças do Eixo, quando o Heron Domingues deu em primeira mão numa edição (extraordinária) do Repor Esso a notícia de que o Brasil tinha entrado na guerra. O término da Segunda Guerra Mundial, a volta dos pracinhas ao Brasil, a deposição de (Getúlio) Vargas em outubro de 1945. As eleições de 1950, 55, 60, a morte trágica de Vargas em 24 de agosto de 1954. A renúncia espetacular de Jânio Quadros em 25 de agosto de 1951.

O movimento da Legalidade – quem é que não se lembra da Cadeia da Legalidade formada pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que assim que os que quiseram impedir a posse do vice-presidente constitucionalmente eleito, que era João Goulart que se encontrava numa missão comercial na China, Brizola ao ver isso – que ele fez – ele requisitou os transmissores da Rádio Guaíba que era, talvez, a mais poderosa emissora do Brasil à época, com 50 kilowatts na antena, levou-a com os estúdios para dentro do Palácio Piratini e daí formou a Cadeia da Legalidade à qual aderiram cerca de 150 emissoras do País.

Com discursos veementes, patéticos do governador, e outros líderes políticos do Rio Grande do Sul e de outros estados, com músicas marciais que puseram o Brasil de pé e que esse colocar o Brasil de pé se deve às ondas das radio-emissoras da Cadeia da Legalidade. Se não fosse aquilo nós teríamos silenciado.

E o Brizola, que por coincidência era o governador, ele ao formar a Cadeia da Legalidade usou do que? – do melhor instrumento de penetração nas massas e isso colocou o país em pé – e por ter colocado o país em pé – foi possível superar o impasse constitucional com a posse, se bem que com os poderes reduzidos, de João Goulart e com a mudança do sistema de governo de presidencial para parlamentarista.

O próprio movimento militar de 1964, ele foi formado, foi divulgado, através do rádio. E até hoje, o carnaval, o futebol, os esportes amadores – que seria do Brasil, o que seria de nós brasileiros, se não tivéssemos vivido essas épocas totais, se não tivéssemos recebido as notícias desses setores todos da atividade humana, se não tivesse havido as radio-emissoras? Daí porque eu até me empolgo ao falar do radiojornalismo e do rádio como veículo insuperável de comunicação social.

Antunes: E o rádio era um veículo relativamente novo…

Pedrini: Você me lembra agora, Antunes, que o rádio surgiu no Brasil em 1922. Mil novecentos e vinte e dois é uma data muito importante no Brasil: é Semana da Arte Moderna de 1922. É o ano do Movimento Tenentista. Em 1924, o rádio divulgou para o Brasil e para o mundo um movimento chamado a Coluna Prestes, comandada por Luiz Carlos Prestes e que foi de 1924 a 1928. Ele percorreu cerca de 25 mil quilômetros do território brasileiro – a cavalo, a pé, por vários meios de transportes, percorreu 11 estados e ainda não era comunista, era o movimento da Coluna Prestes que era uma decorrência do movimento tenentista de 1922, que era um movimento de reação às imposições emanadas do governo central, que nós não vivíamos e até hoje não se vive eficientemente, corretamente, um estado federado, com 27 estados federados, naquele tempo era pior.

É isso que a televisão está passando agora sobre a Revolução Farroupilha de 1835 a 1845, que nada mais foi no fundo do que uma revolta do Rio Grande do Sul e Santa Catarina contra a imposição dos imperialistas. Então, estes movimentos todos, tudo o que aconteceu no Brasil é a evolução econômica do Brasil, a agricultura do café, da cana de açúcar, a imigração européia que para cá chegou; isso tudo foi sendo divulgado para o Brasil e para o mundo através da rádio que se – veja só, se até hoje nós vivemos ainda, de certa forma o drama do analfabetismo, faça idéia do que nós seríamos ainda muito mais atrasados se não tivesse havido a rádio há 80 anos que foi criada no Brasil. Eu me lembro agora que em Joaçaba, tanto na rádio Sociedade Catarinense como na rádio Herval D’Oeste havia um momento, um programa, por volta de meio dia que as pessoas mandavam recados para o interior:

_Fulano de tal comunico que a fulana foi operada no hospital, está passando bem e vai ter alta no dia tal.

Depois os outros caboclos, diziam assim:

_Olha, estou avisando que estou chegando de ônibus, vou parar naquela encruzilhada, peço que traga um cavalo encilhado para ir pra casa.

Então isso, você se lembrando hoje é um fato gostoso. Quer dizer, não tinha correio, não tinha nada, não tinha telefone, muito menos o celular, então eles mandavam os recados… Assim a utilidade pública se exercia e as pessoas pagavam – era uma grade fonte de receita para as rádios. Era… E também dedicando músicas para a namorada…

Antunes: A rádio Clube de Lages ainda tem esse programa e é bastante forte. E lá no oeste de Santa Catarina os integrados[1] se comunicam através do rádio…

_ Venha buscar os frangos.

_ A tal hora passa o caminhão…

Pedrini: A grande repercussão que tinha. E a gente, curiosamente, passava a escutar para saber quem tinha sido operado, a comunicação dos óbitos, dos nascimentos, casamentos. De maneira que eu me lembro: a rádio… eram aqueles discos grandes e os textos da propaganda comercial numa caixinha, cartolinazinha, a gente ia passando aqueles textos. Tinha os patrocinadores, eu não vendia… mas tinha o departamento comercial que cuidava da publicidade.

Antunes: E a ligação entre as atividades do rádio e dos jornais locais:

Pedrini: Bem. Lá em Joaçaba era bem caracterizado. A Rádio Sociedade Catarinense tinha ligação com o jornal Cruzeiro do Sul, que era um pouco anterior… ou da mesma época praticamente. O jornal Cruzeiro do Sul pertencia ao mesmo grupo da UDN – era um jornal que circulava aos sábados. O jornal era composto em umas caixas enormes – sistema de linotipos – eu dizia: levava três dias para compor e três dias para descompor – então ele circulava aos sábados. E as rádios? A Rádio Herval D’Oeste – os membros que integravam a Rádio Herval D’Oeste – também tinham um jornal.

O Jornal da UDN era o Cruzeiro do Sul, que existe até hoje, só que com o nome de Cruzeiro e o nosso jornal do PSD era o jornal Tribuna Livre de propriedade do Dr. Aderbal Ramos da Silva, do ex-deputado Oscar Rodrigues Danova – Danova foi deputado várias legislaturas e tinha sido prefeito de Joaçaba e por um jornalista que saiu de Florianópolis e foi morar em Joaçaba, o Otávio Montenegro de Oliveira. Ele era o que dirigia o jornal. E num certo tempo lá eu fui também sócio e diretor de redação do jornal. Então, a briga política se dava tanto pelos programas de rádio que nós tínhamos diariamente ao meio dia, como também através dos jornais que circulavam, ambos circulavam aos sábados. Eram jornais violentos. Os artigos eram todos assinados. Eram artigos violentos. Era debate meio que pessoal, sabe?

Antunes: Mas dentro de um princípio ético… suponho.

Pedrini: Ah, sim. Não havia processo. O pessoal punha pra fora os podres de UDN e a UDN punha pra fora os podres de PSD. Era uma lavação de roupa suja.

Antunes: A biblioteca pública de Joaçaba tem esses jornais?

Pedrini: Eu acho que a biblioteca pública de Santa Catarina também tem. Eu, aliás, estou para fazer uma pesquisa. Agora já passou a oportunidade. Eu demorei um pouco. Eu tinha um plano, um projeto já feito, eu ia escrever um livro sobre o pessedismo catarinense. Eu ia contratar uns estagiários para ouvir, como você está me ouvindo aqui, aqueles velhos pessedistas como Bertaso, em Chapecó; Manoel (sobrenome?), em Caçador; o Fretta em Tubarão; o Dr. Aderbal; e essas pessoas já se foram.

(Ele volta à pergunta): Mas a biblioteca pública deve ter e a biblioteca de Joaçaba também. Joaçaba sempre teve jornal. E antes do Cruzeiro do Sul e antes da Tribuna Livre, teve a Folha D’Oeste. Joaçaba sempre teve jornal. Então, porque ela (Joaçaba) imantava toda aquela região. De Piratuba à Caçador; de Campos Novos à Chapecó, praticamente Joaçaba era o pólo econômico, político, social, cultural, não é? Sempre teve rádios e jornais. Mas sempre rádios e jornais marcadamente partidários. Agora, de uns anos pra cá, não. A Rádio Sociedade Catarinense profissionalizou-se e tal. Mas, na minha época, até meados de 1960, até o início dos anos 1970, eram jornais e rádios essencialmente partidários.

Antunes: O que era praticamente uma tônica na imprensa brasileira. À exceção de jornais que tinham posição política, mas não era uma política partidária. Como por exemplo, o Estadão sempre teve sua linha…

Pedrini: O Correio da Manhã.

Antunes: O Correio do Povo.

Pedrini: E aí tinha também os radicais, como a Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda… De maneira que eu tenho até hoje muitas saudades… de Joaçaba e por esses tempos que eu vivi – tanto o Adolfo como eu, nós éramos solteiros na época, então faça uma idéia que nós nos encontrávamos em diversos lugares – e vivi, repito, eles com muito mais formação pois o Adolfo era um grande profissional, e morreu como profissional de radiojornalismo. Ele viveu intensamente como jornalista.

Antunes: Há uma coisa que eu gostaria de saber como é que você encara: os pais do Zigelli, mais especialmente o pai do Zigelli, era uma pessoa culta, européia, com formação européia?

Pedrini: Suíço, sueco…

Jaime de Arruda Ramos (comentarista político), Adolfo Zigelli e Adão Miranda, pres. do Sindicato dos Jornalistas de SC

Jaime de Arruda Ramos (comentarista político), Adolfo Zigelli e Adão Miranda, pres. do Sindicato dos Jornalistas de SC

Antunes: É por ali… Romeno, uma coisa assim… Ao que eu estou informado, ele era muito rigoroso com a educação dos filhos. Você vê nessa educação recebida dentro de casa uma contribuição para que eles tivessem uma carreira mais forte?

Pedrini: Ah, mas nem tem dúvida.

Antunes: Na sua família você tem pessoas ligadas à literatura?

Pedrini: Não, não tenho.

Antunes: É uma família que começou como agricultores?

Pedrini: Os meus avós vieram como agricultores. Vieram de Cremona no norte da Itália, como agricultores, sapateiros. Meu avô teve curtume, teve selaria; meu pai teve selaria também. Eram pessoas de instrução primária, agricultores e pequenos artesãos do couro – vieram de uma região em que o couro era muito desenvolvido: a região de Cremona e depois se tornaram comerciantes, industriais e tal.

Mas, os pais do Walter, do Adolfo e da Gertrudes, especialmente o pai, o seu Guilherme, era um homem de letras. Tanto é que ele verteu para o alemão um dos romances de Érico Veríssimo: Olhai os Lírios do Campo. O seu Guilherme tinha uma educação européia, ele deve ter vindo com uma instrução acadêmica já bem avançada. Ele foi durante muito tempo, me lembro, curador, administrador, do núcleo colonial Papuan. Sabe o que é hoje o antigo Núcleo Colonial Papuan?

É o município de Treze Tílias. É que em 1933, por volta de 1933, vieram os tiroleses – austríacos do Tirol italiano – como havia aquela superpopulação na Europa Central, vieram para o Brasil. Eram trinta e poucas famílias comandadas por um ex-ministro da agricultura da Áustria, Andreas Taler e por um padre católico, José Reitmayer. O padre eu conheci, o ex-ministro não porque ele, lamentavelmente, três ou quatro anos depois de ter chegado em Treze Tílias, houve uma grande enchente – a enchente de 1939 – e ele foi amarrar um pontilhão sobre o rio Papuan para que as águas não levassem, a ponte ruiu e ele foi tragado pelas águas – morreu, assim, tragicamente.

Mas, então, o governo brasileiro recebeu esses emigrantes austríacos e deu-lhes terra do chamado Núcleo Colonial Papuan – Papuan é o nome do riacho, o riozinho que passava na aldeia. Esse Núcleo Colonial Papuan era subordinado ao Instituto Nacional de Imigração e Colonização – INIC, que era um órgão subordinado ao Ministério da Agricultura. Ocorre que com a guerra de 1939, e com a entrada do Brasil a favor das Forças Aliadas e contra as Forças do Eixo, o governo brasileiro suspendeu o desenvolvimento daquele núcleo e tirou a administração dos imigrantes entregando-a a administradores, a curadores brasileiros.

Durante uma determinada época, eu não sei de quantos anos, o seu Guilherme Zigelli, pai do Adolfo, do Walter e da Gertrudes, foi o administrador desse Núcleo Colonial Papuan. Ele devia falar o alemão e acho que até ajudou muito na própria proteção daqueles imigrantes austríacos e italianos (?) para que não sofressem as perseguições que ocorreram de parte de autoridades brasileiras quando o Brasil declarou guerra às forças do Eixo. Mas, para concluir esse ponto, o senhor Guilherme Zigelli, cuja figura humana me lembro bem, um senhor de estatura baixa, muito tranqüila, um bom coser, bom papo e era o homem – que para a época de Joaçaba – era um homem bem adiantado, bem avançado para a época. Ele convivia com profissionais liberais mais altos (de renome) porque era um homem, numa cidade de pouca cultura, porque eram predominantemente de pessoas vindas da agricultura, (…) negócios, o senhor Guilherme Zigelli tinha uma proeminência na comunidade. Um homem de alta respeitabilidade.

E, para concluir a resposta a sua pergunta, eu tenho a impressão que esse – não digo rigor educacional – mas que essa exigência para que estudasse, para que lesse, foi determinante na formação cultural do Adolfo e do Walter. Graças a Deus, felizmente, eles tiveram essa orientação e essa exigência de casa.

Antunes: Ok, caro Pedrini. Por hoje, muito obrigado.

Transcrição de Antunes Severo, em 16 de janeiro de 2003.

[1] Integrado é a designação dada ao agricultor que participa do programa de produção que abastece os grandes frigoríficos da região com a criação de aves e suínos.

3 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *