Agência Pública dissemina seu jornalismo investigativo pelo mundo com soluções criativas de financiamento e distribuição

Desde março de 2016, uma casa de dois andares e 300 metros quadrados em uma rua arborizada de Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, tem sido um refúgio e um espaço de celebração para jornalistas brasileiros e estrangeiros e para quem se interessa por jornalismo e pelas transformações em ato neste campo.

Trata-se da Casa Pública, o primeiro centro cultural de jornalismo no Brasil e um projeto da Agência Pública, também pioneira no país como agência independente de jornalismo investigativo. A casa também é um lar temporário para repórteres estrangeiros, uma incubadora para novas ideias sobre como contar histórias e um importante espaço de discussão sobre o futuro do jornalismo no Brasil e na América Latina.

Desde cinco anos antes – quando foi lançada, em março de 2011 –a Agência Pública vem promovendo uma revolução não só em seu país de origem, mas especialmente na América Latina. A agência é uma das principais promotoras e representantes de uma cena regional que reúne meios nativos digitais fundados e liderados por jornalistas e que se faz cada vez mais forte e relevante na região.

Criada e dirigida pelas jornalistas Marina Amaral e Natalia Viana, a Pública desde sua fundação se estruturou como uma organização sem fins lucrativos dedicada a fazer jornalismo investigativo pautado pelo interesse público e pela defesa dos direitos humanos.

Um vazamento como pontapé inicial
As fundadoras e atuais diretoras da Agência Pública se conheceram na revista Caros Amigos, da qual Amaral era uma das fundadoras e editoras e onde Viana começou como estagiária em 2002 e se tornou repórter.

Natalia Viana e Marina Amaral (Mary Kang/Knight Center)

Em 2006, Viana saiu da Caros Amigos para fazer um mestrado em radiojornalismo em Londres, onde conheceu o jornalismo investigativo sem fins lucrativos, por meio do Center for Investigative Journalism (CIJ). Ao voltar ao Brasil, ela seguiu fazendo reportagens para veículos de várias partes do mundo, produzindo e publicando suas investigações sobre temas de direitos humanos em português e inglês.

Por meio dessa rede internacional de jornalistas investigativos, Viana se tornou a articuladora da divulgação no Brasil do Cablegate, o vazamento do WikiLeaks de correspondências entre diplomatas norte-americanos em vários países e o governo dos Estados Unidos, no começo de 2011. Embora as duas fundadoras – mais a jornalista Tatiana Merlino, que acabou saindo logo no começo do projeto – já compartilhassem há algum tempo a ideia de criar uma agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos, essa acabou sendo a primeira grande parceria da Pública e o mote para seu lançamento.

“Foi aí que fundamos a primeira agência de jornalismo investigativo do Brasil, um pouco nos espelhando na experiência do ICIJ [sigla em inglês para Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos], um pouco a partir do que aprendemos com o WikiLeaks, e olhando também para o que estava acontecendo internacionalmente – o Bureau of Investigative Journalism, o CIJ, a ProPublica”, explicou Viana ao Centro Knight.

Já Amaral começou no jornalismo em 1984, passando por algumas das maiores redações do Brasil como redatora, repórter e editora. Em 1997 fez parte da equipe fundadora da revista Caros Amigos, onde ficou até 2007. Ela conta que sua experiência na revista impressa, encerrada em dezembro de 2017, lhe deu elementos importantes para a fundação da Agência Pública.

“Aprendi que para fazer um negócio desse tipo, você precisa ter dinheiro para perder. Como a gente [Viana e ela] não tinha dinheiro para perder, pensamos ‘ok, vamos fazer o que a gente sabe fazer: ralar. Vamos fazer com que o nosso trabalho apareça e a partir desse trabalho a gente consiga recursos’”, lembra Amaral.

Para fazer este projeto acontecer e se solidificar, as diretoras e sua equipe têm experimentado diferentes formatos, modelos de reportagens e tipos de financiamento, ao mesmo tempo em que investem na disseminação internacional de seu trabalho e dos temas que lhes são caros por meio do intercâmbio com jornalistas estrangeiros.

Além disso, como parte de sua missão, elas adotaram uma interessante estratégia para disseminar seu conteúdo, se constituindo como “uma agência e não um veículo”, como explicou Amaral.

Outros veículos podem reproduzir o conteúdo da Pública sob licença Creative Commons. Como resultado, somente em 2017 700 veículos republicaram as histórias da agência, segundo Viana. “Isso desde sites super influentes como The Guardian [Reino Unido], El País [Espanha], Folha de S. Paulo e Valor Econômico, até o blog de Santarém, no Pará. É um escopo muito legal, muito amplo.”

A equipe da Agência Pública na Casa Pública (Cortesia)

Nestes sete anos, o apuro e a qualidade dos conteúdos produzidos pela Pública foram reconhecidos nacional e internacionalmente por algumas dezenas de prêmios. Viana deu uma pista que ajuda a explicar este percurso: “Não tem nada que a gente faça que seja uma loucura que surgiu da nossa cabeça de um dia para o outro”, afirmou. “Marina e eu temos uma regra: se não sentimos que está firme, não botamos o bloco na rua. Seguramos para pensar um pouco melhor. A gente faz tudo com muita calma, com bastante cuidado.”

Uma casa para celebrar o jornalismo
Viana exemplifica este cuidado com um dos principais projetos da agência: a Casa Pública, centro cultural de jornalismo aberto no Rio de Janeiro em 2016 após dois anos de planejamento.

A Agência Pública foi fundada em São Paulo, no espaço onde até hoje se encontra sua sede e redação. Lá trabalha a maior parte da equipe, que conta atualmente com 19 pessoas, sob a supervisão direta de Amaral.

Mas foi o Rio de Janeiro a cidade que as diretoras da Pública escolheram para instalar seu espaço de celebração do jornalismo, como descreveu Viana, responsável pela Casa e pelos projetos especiais da agência. Essa escolha se deu muito em função dos grandes eventos que a cidade hospedou recentemente: a Copa do Mundo de Futebol Masculino, em 2014, e os Jogos Olímpicos de Verão, em 2016.

Um dos objetivos com a Casa era ampliar um programa de mentoria que a Pública já vinha realizando desde sua fundação com o Concurso Microbolsas de Reportagem, que prevê uma verba e um acompanhamento das editoras da agência para pautas de repórteres freelance. Elas também queriam investir na incubação de outras iniciativas de jornalismo digital lideradas por jornalistas e que não pertencem a nenhum grupo econômico ou tradicional de mídia.

“A gente sentiu que valia a pena expandir não só esse trabalho de incubação, como também o trabalho de colaboração, conversas, eventos”, diz Viana. “Pensamos em um projeto que trouxesse esse lado de colaboração e conversas em torno das Olimpíadas, com uma residência [para jornalistas] sobre isso. Esse era o projeto inicial; a Casa Pública funcionaria no ano das Olimpíadas, ela foi concebida para isso. Sabíamos que haveria muitos jornalistas estrangeiros no Rio, então era uma oportunidade de conversar com eles, porque a Pública vinha cobrindo violações de direitos humanos em relação à Copa e às Olimpíadas desde 2011.”

Conversa Pública na Casa (Facebook)

Se em um primeiro momento a Casa serviu para revisitar as investigações da agência e conectar jornalistas estrangeiros com o contexto maior no qual as Olimpíadas estavam acontecendo, o espaço logo transcendeu sua missão inicial.

Além dos Jogos Olímpicos, em 2016 o Brasil viveu outro momento extraordinário: o impeachment de Dilma Rousseff, então presidente do país. “As pessoas não tinham onde conversar sobre isso”, comentou Viana. “Houve muitas conversas aqui que foram muito importantes. Tivemos uma conversa, por exemplo, que foi muito legal porque tem tudo a ver com a casa: era a visão de jornalistas estrangeiros sobre o impeachment.” Segundo Viana, cerca de 400 pessoas fizeram fila naquele dia para entrar no espaço, que comporta confortavelmente 70 pessoas.

“Então, por um lado, as pessoas precisavam de um espaço para conversar. Por outro, estudantes e pessoas que se interessam por jornalismo sentiam falta de um espaço pra falar sobre o novo jornalismo, uma discussão que não se trata da ‘crise do jornalismo’, do ‘fim do jornalismo’, dos salários ruins, etc”, disse a diretora da Pública.

Não se trata de ignorar os problemas, explicou Viana. “Mas este é um espaço para a gente experimentar, revigorar e celebrar o jornalismo novo”, que ela conceitua a partir de alguns critérios: organizações nativas digitais, lideradas por jornalistas, cuja primeira finalidade é fazer jornalismo e que atuam com o objetivo de permanecer e se estabilizar no longo prazo. “Essas organizações já estão mudando o jornalismo brasileiro e vão mudar ainda mais muito em breve”, acredita ela.

De fato, foi a partir da Casa Pública que surgiu a ideia do Festival 3i. O evento foi realizado em novembro de 2017 com o objetivo de promover discussões sobre um jornalismo que correspondesse a três ‘i’ — inovador, inspirador e independente. Além da Pública, participaram da organização os veículos digitais independentes Nexo, Ponte, Agência Lupa, Brio, Nova Escola, Repórter Brasil e JOTA, com o apoio do Google News Lab. Entre os convidados estavam representantes de veículos independentes de outros países como os peruanos Ojo Público e Convoca, os argentinos Chequeado e Tiempo Argentino, o guatemalteco Nómada e o mexicano En Malos Pasos, entre outros.

“Desde o começo a gente queria fazer um festival de jornalismo independente”, contou Viana. “Outro dia alguém me perguntou, no contexto do 3i, se os jornalistas da imprensa tradicional podem aprender conosco. Óbvio que podem, assim como a gente pode aprender com eles. Só que a gente aprende com eles o tempo inteiro, porque em todos os congressos, em todas as conversas em faculdades, você ouve as perspectivas da imprensa tradicional, do formato tradicional de produzir notícias. Legal, não acho que tem que desaparecer, mas acho que tem muita coisa sendo feita que precisa ser ouvida, e a Casa também traz isso.”

Residência jornalística
A Casa Pública hospeda mais do que conversas: jornalistas também podem passar um tempo hospedados no local, como parte do programa de residência e dos LABs – Laboratórios de Inovação Jornalística da Pública. O imóvel comporta até oito pessoas em dois quartos coletivos no segundo andar.

Fachada da Casa Pública. (Cortesia)

O programa Residências Públicas recebe jornalistas estrangeiros, que podem se hospedar gratuitamente por até 15 dias na Casa. Durante este período, eles recebem apoio da equipe da Pública na produção de reportagens sobre temas relacionados aos direitos humanos no Brasil. As inscrições para o programa são feitas pelo site da agência Pública.

A primeira edição das residências aconteceu em 2016, junto com a abertura da Casa Pública, e teve como foco a cobertura de violações de direitos humanos no contexto dos Jogos Olímpicos. Naquele momento, a Pública ofereceu uma bolsa-auxílio para os jornalistas que ficaram na Casa, e as investigações realizadas foram publicadas em veículos impressos e digitais de Chile, Equador, Quênia, Estados Unidos e Itália, entre outros.

“Do ponto de vista da Agência Pública, é legal porque não só se fortalece a troca, os relacionamentos, os contatos entre jornalistas, mas também se aumenta a visibilidade dos temas de direitos humanos no Brasil”, avaliou a diretora da Pública. “Cobrir este tema no Brasil é uma tarefa um pouco inglória, e é sempre uma ajuda quando algo é publicado no exterior.”

A jornalista alemã Caren Miesenberger foi uma das duas residentes na Casa em janeiro. Baseada em Hamburgo, ela foi selecionada para o programa com sua pauta sobre o encarceramento de mulheres no Brasil, que será publicada na revista feminista alemã Missy Magazine.

“Conheci a Pública em 2014, quando morei um ano no Brasil”, disse Miesenberger ao Centro Knight. “Acompanho o trabalho desde então. Acredito muito na mídia alternativa, independente, e o que eu mais admiro na Pública é o aspecto da inovação. Essa Casa é algo muito único, nunca havia visto nada parecido.”

Ela já havia trabalhado como correspondente desde o Brasil investigando histórias que foram publicadas na Alemanha, e sentiu bastante a diferença entre as duas experiências. “Faltava uma rede de apoio. Eu ficava na minha casa, na frente do computador, escrevendo as matérias. Não tinha troca. É a primeira vez que eu estou em um lugar convivendo com muitos jornalistas, e sinto um apoio muito grande ao meu trabalho, com troca de ideias e sugestões de contatos.”

Miesenberger destaca a formação de laços entre jornalistas de vários países como um dos pontos mais importantes do programa de residências. “Deveria ter uma Casa dessa em todos os lugares do mundo para a gente conseguir formar uma rede independente da grande mídia e de interesses outros que não sejam o bom jornalismo”, opina.

Laboratórios de inovação
Assim como o programa de residências, os LABs – Laboratórios de Inovação Jornalística foram pensados como parte do projeto da Casa Pública e ocorrem em imersão no espaço – os profissionais das equipes realizadoras dos projetos que são de outras cidades se hospedam na Casa e ali trabalham e convivem. Além do processo diferenciado de produção, é nos LABs que a agência experimenta diferentes formatos e novas tecnologias em suas investigações.

O LAB sobre as empresas de ônibus no Rio usou visualização de dados. (Captura de tela)

Até janeiro de 2018 haviam sido publicados cinco LABs: “100”, que traz cem histórias de cem famílias removidas forçadamente em razão das Olimpíadas; “Vigilância”, sobre como o aparato de segurança para a Copa e as Olimpíadas é usado para repressão e criminalização de manifestações; “Museu do Ontem”, um aplicativo que traça as transformações urbanas na região portuária do Rio de Janeiro, da colônia até os Jogos Olímpicos; “Catraca”, sobre a cadeia de propriedades das empresas de ônibus no Rio de Janeiro; e “Coleção Particular”, sobre a privatização ilegal do litoral e de outros espaços públicos no Brasil.

Viana, coordenadora dos LABs, tem sido a responsável por convidar os jornalistas e outros profissionais – designers, artistas– que participam dos laboratórios. Já participaram membros da equipe da Agência Pública e profissionais freelancers, escolhidos por Viana por afinidade com o tema de cada LAB ou por ela confiar na contribuição destes profissionais.

Foi este o caso da colombiana Olga Lucía Lozano. Uma das fundadoras do meio jornalístico também nativo digital e independente La Silla Vacía, Lozano atuou como editora criativa nos dois primeiros LABs, lançados em julho de 2016 e em janeiro de 2017, respectivamente.

“Cheguei à primeira reunião com a equipe local e Natalia Viana disse ‘olha, queremos contar 100 histórias de 100 famílias que foram removidas’”, lembrou Lozano em conversa com o Centro Knight. A editora foi a responsável por encontrar as soluções para esta missão. “Parti do princípio de como reunir cem vozes e contar cem histórias sem perder o tom característico e individual de cada uma delas, mas que também possa realmente criar um laço emotivo com quem visita [as histórias].”

A experimentação com o formato visou facilitar a criação desse laço emotivo, contou a editora. “Propus criar uma pequena cidade onde estavam todos os elementos que fazem parte de 100, mas usá-los para contar as histórias reais – a porta de uma casa em uma favela, uma pessoa, uma família”, explicou. A escolha pelo audiovisual, com entrevistas em vídeo e áudio e mapas dos locais de onde as pessoas foram removidas e onde foram realocadas, “permite ver que são pessoas de carne e osso” vivendo aquelas situações, acredita Lozano.

Para Viana, o “Museu do Ontem”, lançado em junho de 2017, é o destaque entre os LABs realizados até agora. “O Museu do Ontem gerou um produto que é muito novo. Os LABs anteriores, Vigilância e 100, são sites interativos bastante inovadores, mas são coisas que já existiam antes. O Museu do Ontem é outra coisa”, disse Viana.

O app Museu do ontem usa geolocalização para contar histórias sobre a zona portuária do Rio. (Captura de tela)

Essa outra coisa é um aplicativo, criado em colaboração com o desenvolvedor holandês-iraniano Babak Fakhamzadeh, que combina geolocalização e investigação jornalística para falar do passado e do presente da zona portuária do Rio de Janeiro. À medida que os usuários se deslocam pela área, surgem novas histórias relacionadas ao lugar em que se encontram. A partir do desejo de criar um aplicativo que tratasse das mudanças urbanas que aconteceram na cidade em torno das Olimpíadas, a equipe da Pública chegou a uma ferramenta que traz histórias da ocupação da área repaginada como Porto Maravilha ao longo de três séculos. O app leva os usuários desde a época colonial do Brasil, quando ali se encontrava a principal porta de entrada de africanos escravizados por europeus nas Américas, até as recentes obras no local investigadas pela Agência Pública, como o sumiço das vigas de aço da demolição do viaduto da Perimetral.

O último LAB, “Coleção Particular”, foi publicado em dezembro de 2017, e há mais dois LABs sendo produzidos. Estes serão publicados no primeiro semestre de 2018 e encerrarão o primeiro ciclo de especiais, previstos no financiamento da Casa Pública. Um deles terá três minidocumentários em 360 graus, antecipou Viana. “A gente resolveu explorar esse formato, que é controverso. Teve uma loucura, todo mundo falando, e hoje as pessoas estão mais céticas, mas a gente achou que vale a pena. O LAB é para explorar, é aqui que a gente vai conseguir explorar esse formato.”

Viana disse que, ao fim da publicação dos sete LABs previstos no projeto original, a ideia é avaliar que tipos de formatos e tecnologias funcionaram ou não para pensar na continuidade da iniciativa. Segundo Viana, é necessário pensar no custo real dos LABs, já que a manutenção das plataformas e ferramentas –como o aplicativo Museu do Ontem ou o mapa colaborativo do especial Coleção Particular –não foi contabilizada no projeto original. “Tecnologia é um negócio complicado. O que você cria, você precisa manter. O custo de manter um aplicativo é alto. Mais alto do que manter um site”, afirmou.

Financiando a inovação
Os LABs e o programa de residência para jornalistas estrangeiros são parte da Casa Pública, que por ser um projeto da Agência Pública tem um financiamento próprio. Para lançá-la, em 2016, “batemos na porta das pessoas, recebemos vários nãos e alguns sims”, lembra Viana. Os sims vieram de organizações como a Fundação Ford, a Porticus, a Oak Foundation e a Open Society Foundations, que fecharam o financiamento por dois anos. Para o próximo ano, Ford, Oak e Open Society mantiveram o patrocínio.

“É um projeto, tem prazo determinado para acabar”, disse Viana, que acrescenta que a Pública está avaliando “se vale a pena que a Casa seja permanente –achamos super importante, achamos que ela ainda tem muito mais potencial, porém ela é cara pela casa mesmo, pelo Rio de Janeiro. Precisamos buscar mais financiamento para esse projeto especificamente.”

Reportagem Pública, projeto de crowdfunding da agência, arrecadou R$ 85 mil em 2017. (Captura de tela)

Em seu site, na página Transparência, a Pública explicita as fontes e os destinos de sua receita em 2017. A receita total da organização no ano passado foi de R$ 2.767.121, arrecadados a partir de financiamento institucional, patrocínio e crowdfunding. Além da Ford, da Oak e da Open Society Foundations, os principais financiadores são a Climate and Land Use Alliance e o Instituto Betty e Jacob Lafer.

“A essa altura, o que é importante para nós é que consolidamos fontes de financiamento por prazos mais longos”, disse a diretora Marina Amaral em conversa com o Centro Knight na redação da Pública, em São Paulo.

“Nossa prioridade é tornar a Pública uma organização resiliente, que possa ter uma vida eterna, e que não esteja sujeita a essa fragilidade dos veículos e organizações que vivem de fundações”, disse Amaral. Segundo ela, a Pública segue o mesmo modelo de quando foi fundada: organização sem fins lucrativos, com financiamento de fundações ou público e sem anúncios.

“Não existe sustentabilidade eterna”, acredita Viana. A busca por receita é contínua.

Nesse sentido, a Pública também vem inovando. Como a Casa Pública, a campanha de crowdfunding Reportagem Pública e o Concurso de Microbolsas de Reportagem são iniciativas que permitem diversificar as fontes de receita para financiar o jornalismo feito pela agência.

A Reportagem Pública é uma campanha de financiamento coletivo de reportagens que já teve três edições: em 2013, 2015 e 2016. Na primeira, foram arrecadados R$ 45 mil, enquanto a última arrecadação chegou a R$ 85 mil, 5 mil a mais do que a meta estipulada pela agência.

O modelo inova ao dar voz e voto a cada pessoa que doou para a realização das reportagens, para que ela ajude a decidir as pautas que serão produzidas e tenha contato direto com repórteres e editoras sobre o resultado.

“Todo mês a gente manda para todo mundo que doou um email com três sugestões de pautas, de três repórteres diferentes, e pede pra eles votarem”, explica Viana. “A pauta vencedora ganha R$ 7 mil e é realizada, as outras duas não são realizadas.”

Além da votação por email, as pessoas que contribuíram são convidadas a participar de um grupo fechado no Facebook, onde podem conversar com a equipe da Pública, inclusive os jornalistas e editores que estão produzindo as matérias.

Já o Concurso de Microbolsas de Reportagem chama a participação de jornalistas independentes que queiram produzir matérias sobre os temas propostos a cada edição. Os repórteres cujas pautas são selecionadas pela Pública recebem R$ 7 mil e a mentoria das editoras da agência por dois meses.

As duas primeiras edições não tinham um tema específico, lembrou Viana. “Daí começamos a perceber que existia uma grande demanda de ONGs que procuravam a Pública e diziam ‘por que vocês não fazem matérias sobre Belo Monte?’, por exemplo. Sempre respondemos que nossa política de financiamento é a seguinte: não fazemos trabalhos comissionados. A Pública só trabalha com projetos próprios. Senão você vai trocar a pressão do anunciante pela pressão do financiador, e a gente não quer isso.”

Os concursos de microbolsas temáticos, portanto, foram uma maneira de conjugar a necessidade de financiamento do jornalismo investigativo da agência, a demanda de organizações pela investigação de determinados temas e a independência editorial da Pública.

A equipe da Pública na redação, em São Paulo. (Centro Knight)

Entre os concursos de microbolsas já realizados estão um sobre energia, patrocinado pelo Greenpeace; criança e água, patrocinado pelo Instituto Alana; e maconha, patrocinado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec). O próximo, em parceria com a Conectas Direitos Humanos, será sobre violência policial, adiantou Viana.

“A ONG define junto com a gente qual será o tema, mas são temas amplos”, diz a diretora da agência. “A Pública faz o chamado e recebe as propostas de pauta.” A direção da agência então pré-seleciona algumas propostas e decide junto com a organização financiadora a seleção final.

E é este o limite da influência do financiador, diz ela. “Nossos parceiros confiam no nosso trabalho e não veem o material antes de ser publicado.” A Pública recebe, então, pela coordenação do projeto e pelo trabalho de edição.

“Temos que pensar maneiras de ter financiamentos diferentes”, diz Viana. “Muita gente está fazendo eventos, e crowdfunding também é super importante. Tem quem faça assinaturas, paywall, produtos –o El Faro, por exemplo, faz camisetas. É muito importante estar sempre tentando variar o modelo de financiamento. Mas é isso: sustentabilidade eterna não existe.”

O futuro da Pública
Em outubro, o eleitorado brasileiro irá às urnas escolher novos presidente, governadores e deputados federais e estaduais em um ambiente político ultrapolarizado –terreno fértil para a disseminação das chamadas “notícias falsas”. A grande cartada da Pública para este período é a expansão do Truco, projeto de fact-checking da agência. A ideia é fazer checagens diárias das falas de candidatos em pelo menos oito Estados do Brasil.

Para isso, a equipe da Pública em São Paulo irá capacitar jornalistas independentes espalhados pelo país com a metodologia de fact-checking utilizada pela agência. A operação já foi testada nas eleições municipais de 2016 em cinco capitais e será ampliada em 2018, fortalecendo a atuação da Pública neste momento de notícias mais quentes do que o modelo tradicional de jornalismo investigativo consegue abraçar.

“Considero o fact-checking um gênero de jornalismo investigativo”, diz Viana. “É como se fosse um modelinho conciso e rápido. É super interessante, porque acharam um formato de se fazer rapidamente jornalismo investigativo sem ter que ser uma longa reportagem.”

A agência também têm fortalecido sua produção de reportagens em vídeo, que, segundo Amaral, têm um alcance internacional significativo. Alguns dos minidocumentários da agência já foram exibidos em festivais de cinema e no canal brasileiro Futura, mas um dos objetivos é consolidar a presença da Pública na TV – algo pensado já na gênese do especial Amazônia Resiste, cujo destaque são as reportagens em vídeo, disse Amaral.

“Unir tecnologia e gastar sola de sapato é uma coisa muito típica da Pública”, comentou Amaral. “Quando eu fui ao ISOJ [sigla em inglês para Simpósio Internacional de Jornalismo Online] em Austin, uma das conclusões do congresso foi que o bom e velho jornalismo investigativo ainda é a coisa mais importante que nós temos. Nós só temos novas ferramentas para usar.”

[Nota da edição: Rosental Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, está no conselho consultivo da Pública.]

(Fonte: Centro Knight, 13/02/2018)

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