Ah, nomes perdidos

Flávio José Cardozo *

Pois a beleza da palavra é fundamental – e muito quando se fala em nome de rua. E não se trata apenas de sonoridade, mas também de idéia, aquele significado puro e imediato que deve impedir a palavra de se transformar logo num clichê falido, quase sempre pobre de sentido para os usuários, repetido e repetido porque tem de ser repetido, esvaziado de qualquer sugestão afetiva, existencial, romântica, levemente açucarada (que seja) para adoçar esta curta vida. Por isso é que eu iria soltar uma dúzia, duas, até três dúzias ou mais de foguetes se um dia desses, por obra de algum demônio pândego e poeta, a cidade acordasse com suas esmaecidas placas de rua do tempo dos Afonsinhos e tudo o mais se esquecesse.

Vejam, então.

O Ponto Chic fica na esquina da Rua dos Moinhos de Vento (ou Bela do Senado, se o leitor preferir) com a Rua do Livramento. O cartório do Kotzias está na Rua do Imperador e o da Ciloca não está longe: é só dobrar à esquerda e caminhar meia quadra pela Rua dos Quartéis. Uma boa ferramenta se encontra lá embaixo, na Rua do Príncipe, onde também fica, já a dois passos da Rua Bragança, a Livraria Santa Catarina gerenciada pelo nosso amigo Airton. O senhor bispo tem seu belo casarão na Rua Formosa, mais antigamente ainda chamada de Rua do Passeio, pertinho do Colégio Catarinense. E a casa do Vítor Meireles onde é que está? Está na Rua dos Artigos Bélicos, noutro tempo conhecida também por Rua da Pedreira, na esquina com a Conceição e próxima do Caminho Que Vai Pra Fonte. O meu amigo Silveira de Souza não mora na Bento Gonçalves: o felizardo vive é no meigo Beco do Segredo, vizinho à Rua de Iguape. E a Delegacia de Furtos e Roubos (sempre é bom ter anotado isso na palma da mão, ainda mais agora que a cidade está ganhando galas de modernidade com tanto assalto) está localizada na Rua do Alecrim, mas aqui devemos sempre usar também o nome hoje vigorante, Artista Bittencourt, porque esse homem foi o sapateiro que fez os sapatos mais bem feitos de nossa História: com o dinheiro que obtinha com a venda deles alforriou muito escravo.

Ponha-se agora o despreocupado leitor debaixo da Figueira, no Largo da Matriz. Chega um forasteiro e quer saber onde é o Instituto Estadual de Educação. Dá gosto ver o jeitão satisfeito que o leitor assume para dar a resposta: o senhor siga reto pela Rua da Cadeia, lá adiante vai encontrar a Ponte do Vinagre, no Rio da Bulha, e depois os ônibus do Saco dos Limões. O Instituto fica ali, no Caminho do Curral d’El Rei, mas a entrada mesmo é pela Rua das Olarias, em frente da Soberana. De quebra, o forasteiro pode ainda ficar sabendo que o Instituto está no Campo do Manejo.

É outra festa de sons, não é mesmo? Anda tanto ronco de carros aí pelos ares, a cidade já está tão afogada em dissonâncias e grunhidos que não é nenhum disparate desejar esses momentos de singeleza, às vezes uma agrestia de fruta do mato, um anacronismo engraçado, um toque caipira que salva a gente do modernoso, do destroncamento da língua e até duma certa tristeza quando o nome dado a determinada rua é simples puxação de saco ou ignorância.

Seria outra festa de sons.

Moço, como é que faço pra chegar à Rua das Flores, à Rua do Açougue, ao Largo da Princesa ou do Fagundes, à Travessa Que Vai Pro Forte? Seu guarda, pode me dizer onde é mesmo essa Rua do Propósito ou da Tronqueira, esse tal Beco Sujo ou do Quartel, essa Rua do Vigário?

Ou então ainda: minha garota mora na Praia de Fora e estuda Letras na Trindade Detrás do Morro. Trindade Detrás do Morro… É outro namoro, convenhamos.

Do livro Senhora do meu Desterro

* Flávio José Cardozo é membro da Academia Catarinense de Letras

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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