Al Neto (Afonso Alberto Ribeiro Neto) 04

Como estudioso e perfectivo que sempre foi Al Neto vislumbrava com frio realismo a dimensão de qualquer problema e, para solucioná-lo, tinha sempre em mira a mais eficaz, lógica e racional estratégia.

Um dia comentei com ele que vinha tendo alguma dificuldade com o método que adotei para a distribuição dos informativos que minha equipe reproduzia e enviava aos órgãos de imprensa, rádio, TVs e líderes comunitários. Isso, porque não tinha meu pessoal uma estatística quanto à receptividade da matéria que emitíamos diariamente, retratando os trabalhos administrativos.

Sem rodeios, a guisa de resposta, fez-me uma indagação que achei – à primeira vista – desconcertante: “Machado, quantas vezes jogaste meu comentário no lixo quando trabalhaste em rádios e jornais?”.

Procurei “manter a linha”, porém retrucando com firmeza e sinceridade: “Dr. Al Neto, sua pergunta deve ter um fundamento muito lógico e certamente é fruto de uma experiência ida e vivida em sua longa caminhada profissional. Pois na verdade, como sempre compus equipes consideradas de bom padrão, invariavelmente achávamos que a produção da equipe por nós composta, sem apelar para matérias de terceiros, por todos os tempos conotou a nossa marca. Redigíamos um jornal falado de meia hora, em menos de hora e meia ou duas horas; um comentário local ou regional de cinco minutos, em não mais que meia hora, por profundo que fosse o tema…”

Ele atalhou: “Sua resposta muito bem colocada diz tudo: você foi dos que jogaram minhas malas-diretas no cesto de lixo. Joguei com esse risco por muitos anos, especialmente quando remetia os primeiros exemplares de meus trabalhos a um determinado órgão de divulgação.

Havia redatores que não aceitavam aquele “rocambole” de várias laudas escritas e nem sequer abriam para conhecer o conteúdo… Mas eu continuava remetendo, até que – lá um dia – o redator de plantão estivesse possuído de uma “indisposição” (preguiça!) natural… Então ele resolvia finalmente ver o que havia naquele calhamaço que semanalmente chegava as suas mãos, quando ele, mirando o lixo, ainda afinava os ouvidos para ver o toque do “rolinho” no fundo da cesta…

Então, lia, achava interessante e, como qualquer outro na mesma situação, passava a analisar o material e publicá-lo constantemente…

Experimente isso, meu caro secretário: não desista jamais. Continue remetendo mil exemplares, dos quais mais da metade será nos primeiros meses simplesmente desperdiçada… É uma espécie de aplicação em médio prazo, entendes? “Bem, mas agora vamos ao chazinho da tarde, senão os passarinhos vão acabar chegando antes de nós sob o flamboyant…”

Naquele mesmo fim de tarde voltamos à sala principal da casa da estância, a cuja direita ficava a rica biblioteca e escritório de Al Neto.

Os móveis eram invariavelmente pesados, de cor escura e havia muitos objetos por todos os lados. Ele observava que eu invariavelmente olhava, detidamente, tudo aquilo sem nada exteriorizar e neste dia respondeu à minha curiosidade: “Há muito móvel centenário por aqui, desde os tempos dos meus avós. No entanto, cada coisa que é aqui posta tem uma utilidade prática ou um sentido sentimental para nossa família…” e olhou à parede posterior, onde estava a tela retratando sua saudosa mãe…

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Por Agilmar Machado

Iniciou suas atividades profissionais no rádio em 1950, tornando-se jornalista em 1969. Atuou nas principais emissoras do Sul de SC como redator, produtor e apresentador de programas jornalísticos. Historiador, é co-autor História da Comunicação no Sul de SC. É membro fundador da Academia de Letras de Criciúma/SC.
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5 respostas
  1. JOSÉ ESTANISLAU RAMOS says:

    ESTOU MUITO SURPRESO E AGRADECIDO POR TER ENCONTRADO ALGUEM QUE, COM MUITA AUTORIDADE FALA DO DR. ALNETO. FUI FUNCIONARIO DA ESTANCIA DO PINHEIRINHO DE 1967 A 1974, ONDE EXERCI A FUNÇÂO DE AUXILIAR DE TRATADOR DO GADO DE CABANHA, PASSEI POR SERVIÇOS DE CAMPO, FUI TRATORISTA E MOTORISTA DA SRA,NÉLIDA E DA DRA. ANA CRISTINA, QUANDO ELA ESTUDAVA EM PORTO ALEGRE E CURITIBA, TRANPORTEI NITROGENIO DE SAPUCAIA DO SUL PARA A ESTANCIA,APRENDI MUITO DA VIDA COM O DR.ACHO MUITO BOM QUE ALGUEM NÃO DEIXE MORRER A MEMORIA DO DR.ALNETO, GRATO.

  2. Antunes Severo says:

    Caro José Estanislau,
    Gostaríamos de contar com sua colaboração para divulgar um pouco mais a carreira profissional do Al Neto. Escreva-nos enviando suas memórias, recordações, lembranças do tempo em que trabalhou na Estância. Pode enviar diretamente para [email protected]

  3. Jose Estanislau Ramos says:

    Certa vez, o Dr. Al Neto me mandou ir a Porto Alegre e falou, José, eu quero que você sente um palmo,( medindo com sua própria mão) o banco do motorista mais para direita,achei estranho porque ficava desconfortável, ele me disse, as molas cansam, e em Lages nâo temos um bom capoteiro, somente em Caxias do Sul.

  4. Jose Estanislau Ramos says:

    Valeu Antunes, fico muito feliz em poder fazer comentários positivos sobre um personagem que Lages deve muito, e está ficando somente na lembraça de poucos,desculpe por não ter respondido antes,( é que sou muito atrapalhado na internet.)o Dr.Alneto e a Estancia do Pinheirinho faz parte da minha vida, da minha História, Grande Abraço.

  5. Antunes Severo says:

    Caro José Estanislau,
    Escreva sempre, suas memórias são valiosas.
    Você conhece mais pessoas da família do Al Neto ou sabe de alguma publicação – recorte de jornal, revista ou livro que fale da carreira de Al Neto?
    Em caso positivo, por favor, escreva para [email protected]

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