Alcoolismo x família

“Alguém fisicamente próximo pode mostrar-se distante; uma pessoa ao lado pode ser ausente quando está dividida pelo vício e feridas emocionais acumuladas ao longo do tempo”.

bullying

Quando escrevi a frase acima em 2011 para o meu livro – Um sonho de menino – tinha em mente a minha e outras famílias que já sofreram ou ainda sofrem com vícios. Diga-se vício ao álcool, drogas ilícitas e jogos.

Propagandas mostram jovens bebendo. A expressão facial é de alegria. Todos parecem saudáveis. No final do comercial ainda se ouve: “Se beber não dirija”.

Ainda vejo pessoas bebendo enquanto dirigem. Há pessoas que se divertem com tranquilidade e usam bebidas alcoólicas com moderação. Mas é grande o número de pessoas, jovens e não tão jovens que bebem de maneira exagerada. Para alguns parece que não há alegria, não tem como ficar animado se não beber. E acham que não são dependentes, acreditam que não são alcoolistas. Vale lembrar que alcoolismo não tem cura, mas tem tratamento, pode-se vencer.

Descobri que meu pai tinha problemas com o álcool quando eu estava com uns cinco ou seis anos. Nem sei se meu pai já tinha a consciência do problema, eu mesmo não conseguia entender o que realmente acontecia.

Ter alguém a quem amamos dependente de alguma substância química traz dor, desconforto, sentimentos de inutilidade e com o tempo a possível falta de esperanças.

Infelizmente às vezes esquecemos os “acompanhantes” dos doentes.

Falando em alcoolismo com o qual convivi por toda minha infância e adolescência, aprendi ou pelo menos creio que entendi a importância de ouvir, doar-se e nunca desistir de algo realmente importante. Quando às vezes sentia que havia terminado as forças, buscava em meus pensamentos algo que me fizesse voltar a sonhar.

Quem tenta ajudar um alcoolista a vencer o vício tem por vezes uma confusão de emoções. Isso acontece quando celebramos uma vitória e dias depois choramos uma recaída. Quando isso ocorre várias vezes nosso emocional é testado até o limite.

Para alguém vencer o vício do álcool ou das drogas o próprio dependente tem que querer, tem que lutar. O apoio da família é fundamental. É um trabalho árduo e duplo; o dependente e a família.

Certo dia meu pai pediu para ser internado. Não era a primeira vez, mas nunca o havia visto tão determinado. Lembro que durante a viagem até a clínica enquanto meu cunhado dirigia eu chorava. Pensava na alegria com a possibilidade de ver meu pai curado e ao mesmo tempo o pavor de vê-lo recair.

Passaram-se 35 dias. Fiz tantas visitas o quanto foi permitido. No dia de sua alta fui sozinho buscá-lo. Assim que cheguei à clínica vi meu pai sentado em um banco. Seu semblante estava diferente, sereno. Corri e o abracei. Parecia que aos 21 anos eu o abraçava pela primeira vez, talvez tenha sido mesmo o primeiro de muitos abraços.

Dia 22 de março de 2016 completa 22 anos daquela nossa viagem para sua internação.

Não chorei mais recaídas. Cicatrizes ficaram, mas isso não é incomum depois de uma longa “batalha”. Ver meu pai com 81 anos de idade e 22 de sobriedade não tem preço.

Cuidado ao beber para comemorar. Cautela ao beber quando está deprimido.

Manifesto meu carinho aos que lutam contra o vício e seus familiares. Minha admiração aos alcoolistas em recuperação.

(Homenagem ao meu pai, seu Victor – ele permite quebrar seu anonimato).

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