Alka Seltzer

Não lembro o nome do homem, por isso o chamarei Zé Norato. O nome é inventado, mas a história me foi contada como verdadeira. De qualquer modo, sei que ele existiu porque o conheci quando era adolescente. Era gordo, barrigudo, rosado, cabelo branco, mais pra calvo. Do tipo falador. Adorava vinho de garrafão. Bebia uns três copos por dia. E bebia porque gostava, pois, naquela época, já fazia bem pro coração, mas ninguém sabia.

De uma hora pra outra começou a reclamar de queimação no estômago. Depois de enjôo. Depois passou a vomitar. O médico do IPASE mandou que parasse imediatamente com o vinho sob pena de desenvolver uma úlcera. Fora de cogitação. Ele antes culpava a comida da patroa, o fígado. E dá-lhe chá de boldo, chá de losna e nada.

O quadro piorou até que alguém lhe recomendou a deliciosa efervescência da Alka Seltzer. Santo remédio! Voltou a comer de tudo; de sobremesa, Alka Seltzer. Seguia-se um arroto retumbante e tudo ficava às mil maravilhas. Voltou a ser bem disposto, simpático e falante.

Até o dia em que teve a brilhante ideia de dissolver o comprimido no copo de vinho. Foi um deus-nos-acuda. O comprimido, mal diluído, entalou na goela do Honorato. Roxo e de olho esbugalhado o homem apontava para o pescoço. A mulher batia nas suas costas e dizia: _Pula Zé! O pobre homem pulava e grunhia pela casa. O bicho espumava!

Conduzido às pressas para o SAMDU, no colo, de cadeirinha – não havia tempo para esperar um carro de praça -, para ele, mas, sobretudo para quem o carregava, a cerca de tábuas pretas do terreno do André Maykotti parecia interminável.

Sobreviveu à experiência e, segundo consta, continuou tomando vinho até o fim de seus dias. Mas aprendera a lição: primeiro tomava os seus três copos de “Sangue de Boi”. Minutos depois, o copo de água com Alka Seltzer. Era tido como um homem feliz.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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