Alô, é da rádio?

Acabei de ler um história que me fez lembrar de uma outra. Vou antes pela história mais antiga. Tive um colega de rádio que era viciado em namorar por telefone, o cara não podia ver o telefone da rádio em paz.
Por Luiz Carlos Prates

*Isso foi no tempo em que trabalhei na Rádio Guaíba, em Porto Alegre. Se a leitora não sabe, o telefone era no passado o chat de hoje, namorava-se muito por telefone. Até hoje, tem muita mulher que vive telefonando para as rádios. Pedem músicas, jogam conversa fora e se o locutor deixar a porta aberta, “entram”. Entendes, leitora? O que eu queria dizer é que esse meu amigo era um namorador contumaz por telefone.

Um dia arrumou uma namorada, por telefone, claro. A “ouvinte” ligou, fez caras e bocas do outro lado da linha, ele gostou e alongaram a conversa. Ela passou a ligar todos os dias. Meu amigo já não olhava mais para a escala de serviço, só olhava para o telefone. E naquela época, isso por meados da década de 60, ninguém tinha telefone em casa, só os ricos e o dono da rádio.

A coisa foi indo, foi indo, e o meu amigo já não suportava mais a espera pelas ligações da moça. Ela ligava da casa de uma vizinha. Um dia, marcaram encontro. Vou de blusa azul, disse a “ouvinte”. O sujeito não precisou dizer nada, ela já o conhecia, de longe.

Chegado o dia do encontro, ele tinha o coração na boca. Quando a viu, Santo Deus, o que era aquilo? Como ele mesmo voltou contando, a moça era um “canhão”. O diabo é que ele já estava apaixonado pelo “canhão”. Foram tantas as conversas por telefone que ele não via mais feiúra na moça, via a sua essência, bela. E já não tinha dito o Pequeno Príncipe que o essencial é invisível para os olhos?

Quando vi o meu amigo pela última vez ele estava casado… com o “canhão”. Ao reencontrá-lo vou ter que ter cuidados para não perguntar: E aí, continuas dando tiros? Tomara que meu amigo não seja meu leitor. Mas contei essa história por uma razão especial.

É o seguinte: um administrador americano, cujo nome perdi, defende a idéia de que as entrevistas para seleção de pessoal no trabalho devem ser feitas por telefone. Você “vê” melhor a pessoa pelo telefone. “Vê” os gestos, as cortesias, as inabilidades, os talentos, a competência. E quando decide por este ou esta, não se deixa levar pelo aspecto físico. Não é interessante? As orquestras americanas ficaram bem melhores quando os maestros passaram a fazer a seleção de músicos atrás de um biombo, sem ver quem tocava. A partir daí, as mulheres, até então discriminadas, tomaram conta. Quando não se vê a cara, o preconceito some. Alô, é da rádio?

*Luiz Carlos Prates, radialista veterano de largo curso e muitas jornadas, é colunista do Diário Catarinense, ao qual também agradecemos pela oportunidade de reproduzir esta bela crônica.


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