Alternativas ao suicídio

Os jornais nasceram com um modelo de negócio simples: vendiam palavras aos leitores e leitores aos anunciantes. Por Jorge Fiel
A rádio e a televisão forçaram os jornais a adaptar-se à concorrência de meios mais rápidos e atraentes (acrescentavam som e imagem) e que introduziram uma variante ao modelo de negócio, pois viviam apenas da publicidade, uma indústria que cresceu exponencialmente num século em que crédito e consumo foram os motores do boom económico.

A televisão tornou-se uma meca para as marcas sequiosas de contactar com consumidores ávidos de gastar dinheiro.

Os patrões dos jornais (mesmo os que sabiamente construíram grupos multimedia) nunca esconderam uma pontinha de inveja por um negócio que não estava dependente dos humores dos leitores, um conceito que os novos meios substituíram pelo de audiências – mais adequado, porque para consumir rádio e televisão não é imprescindível saber ler.

A revolução da Internet (que para chegar a 50 milhões de pessoas só precisou de quatro anos, contra os 13 da televisão e os 38 da rádio), com informação gratuita à distância de um clic, foi a gota de água que levou os patrões de imprensa a sacrificar o leitor no altar das audiências.

A receita das vendas de papel foi negligenciada e a palavra de ordem passou a ser comprar audiências, a golpes de marketing, que depois seriam transaccionadas por páginas de publicidade.

A capilaridade da rede de distribuição de jornais foi destruída, a tal ponto que é mais difícil comprar hoje um jornal do que era há dez anos. Os ardinas e pontos de venda improvisados foram varridos, só sobrevivendo os quiosques com capacidade de armazenamento da parafernália que passou a parasitar jornais e revistas: DVD, guarda-chuvas, medalhinhas, sacos de praia, chinelos, cursos?.

A imprensa entrou em crise no preciso momento em que os seus gestores optaram pela estratégia (no entretanto falida) de comprar audiências em vez de agradar aos leitores.

Enquanto a televisão corrigia o tiro e diversificava fontes de receitas, com canais temáticos pagos e distribuídos por cabo, a imprensa deixou-se ficar refém da publicidade e de gente que compra o jornal por causa da faca de queijo – e não para o ler.

A atenção humana é o factor escasso num mundo em que todos os anos duplica a informação produzida – em 2008 foram gerados quatro exabytes, ou seja, mais do que nos 5000 anos anteriores.

Neste momento, em que todos temos as estantes cheias de enciclopédias que não vamos abrir e de DVD que não vamos ver, e em que a publicidade vai emergir da crise com uma nova gramática, a única alternativa ao suicídio é os jornais voltarem–se para leitores.

Num mundo em efervescente mudança, em que as dez profissões que vão ser mais procuradas em 2010 não existiam há cinco anos, só sobreviverão os jornais que apostarem no jornalismo e forem capazes de ajudar os leitores a desbravar a selva da informação em que vivemos, dando-lhes coisas (escolhas, explicações e opiniões) que eles não saibam e precisem e gostem de saber.|

Fonte: Diário de Notícias, Lisboa

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