Amor platônico

Dia destes ouvi uma frase: “Fulano está vivendo o seu amor platÿnico…”. A pessoa que disse isso, anteriormente, nunca havia falado sobre o assunto e nem leu, jamais, Platão, lógico! Lembrei-me que, quando jovenzinho, senti esse negócio esquisito: gostar de alguém, não confessar, mas viver olhando abobalhado para a pessoa. E o que era impressionante: onde a pessoa estivesse eu queria estar lá também, mesmo sem me manifestar, apenas ver. Era uma necessidade, um desejo incontrolável. Ficava sabendo que a pessoa estava num determinado bar, ou Igreja, ou numa festinha, lá ia eu feito bobo para os mesmos lugares.

O amor platÿnico, todo romântico sabe, é aquele que nunca chega a lugar nenhum.

O filósofo grego acreditava na existência de dois mundos – o das idéias, onde tudo seria perfeito e eterno, e o mundo real, finito e imperfeito, mera cópia mal-acabada do mundo ideal. Li não sei onde: “Segundo a psicanalista Heidi Tabacof, o amor platÿnico revela uma dose de imaturidade emocional, à medida que nunca experimenta os limites e as frustrações de uma relação concreta.

“Psiquicamente, ele reproduz o amor infantil pelos pais, vistos como figuras perfeitas e supervalorizadas”, diz ela, lembrando que nos dois casos a sexualidade está interditada. “O amor platÿnico é sempre casto.” Serve para a pessoa se conhecer. Para a especialista, “o aspecto positivo do amor platÿnico surge quando ele estimula a reflexão sobre os motivos que impedem a pessoa de ter uma relação madura consigo mesma e com o outro”, ou seja, com o marido ou esposa e até com a namorada oficial.

Mas não existe no mundo real, apenas no mundo das idéias…

O amor platÿnico é um amor à distância, que não se aproxima, não toca, não envolve. Às vezes, se tocam, escondidos, quando passa um perto do outro, um contato rápido, sem que ninguém perceba, contatos que não duram mais que um segundo. Reveste-se de fantasias e de idealização. O objeto do amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem máculas. Parece que o amor platÿnico distancia-se da realidade e, como foge do real, mistura-se com o mundo do sonho e da fantasia. Ocorre de maneira frequente na adolescência e em adultos jovens, principalmente nos indivíduos mais tímidos, introvertidos, que sentem uma maior dificuldade de aproximar-se do objeto de amor, por insegurança, imaturidade ou inibição do ponto de vista emocional.

Quando isso acontece com pessoas de mais idade, o perigo se estabelece porque não há como se conter e acabam deixando pistas em detalhes repetitivos, que outras pessoas observam, claramente, que ali existe alguma coisa diferente do convívio comum entre as pessoas.

“Satisfaz o amor platÿnico? Ou as pessoas que amam platonicamente permanecem solitárias, privadas do contato com o outro? E consequentemente não vivenciam a experiência enriquecedora que é a troca que ocorre numa relação a dois, onde ambos podem revelar desejos, pensamentos, conflitos e se beneficiarem com o conhecimento advindo da relação com o outro”. Esta foi uma das opiniões em enquete feita por uma Universidade paulista.

Uma outra disse: “Penso que o encontro é sempre saudável e fonte de crescimento, e me parece que o amor platÿnico satisfaz momentaneamente, até que haja o adquirido amadurecimento que possibilita o revelar-se para o objeto de amor, mostrar-se em todas as suas faces, sem medo ou vergonha de perceberem-se verdadeiro, como acontece quando as pessoas sentem-se integradas e seguras. O medo de não atender aos anseios do objeto amado, o sentimento de desvalorização, incapacidade e desintegração podem contribuir para o não aproximar-se, amar à distância, impedindo que o indivíduo vivencie uma experiência de não só amar, mas sentir-se amado, não só cuidar e se preocupar, mas sentir-se acolhido, contido e amparado. Essa troca de experiências emocionais é que permite o sentimento de que amar e viver vale a pena, e nos ajuda a suportar as dificuldades e conflitos do cotidiano”.

Donato Ramos é Jornalista e Escritor em Florianópolis SC.

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