Ângela Maria – o retorno da Rainha do Rádio

Sábado, 5 de agosto, no programa Criança Esperança da Rede Globo, um dos destaques foi a presença da cantora Ângela Maria, ao lado de Cauby Peixoto. Aos 78 anos, Ângela Maria, cantou e encantou. Trazendo para as pessoas da melhor idade boas recordações de tempos não muito distantes. E permitindo aos mais jovens conhecer uma verdadeira diva que ajudou a construir a memória da MPB.
 Por Chico Socorro

Abelim Maria da Cunha, nome de batismo de Ângela Maria, nasceu em Macaé, Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1928. Considerando que começou a cantar profissionalmente em 1948, ela está nessa estrada há quase 6 décadas.

ANGELA MARIA começou a cantar ainda adolescente no coro da Igreja Batista do bairro carioca do Estácio, onde seu pai era pastor evangélico. Sua biografia revela que todos os seus irmãos cantavam durante os cultos religiosos, mas a voz de Ângela, sem ter tido nenhuma educação formal de canto, era prodigiosa.

Curiosamente, Ângela Maria foi demitida da fábrica de lâmpadas GE porque, pasmem, cantava o tempo todo. Seu maior sonho era ser cantora de rádio, mas isso contrariava os planos da família: a carreira artística, no julgamento dos pais, não era coisa para uma moça de família…

A artista declarou ao jornal O Pasquim em 1976, “levei muitas surras de minha mãe porque ela não queria de jeito nenhum que eu fosse cantora. Eu fugia de casa para participar de programas de calouros”.

Fã ardorosa de Dalva de Oliveira, então no auge da carreira, passou a imitá-la, arrebatando assim todos os concursos de calouros em que se inscrevia.
O grande problema no início de sua carreira era que ninguém a queria contratar, já que era quase uma cópia de Dalva de Oliveira.
Decidida a abraçar a vida artística, aos 20 anos, em 1948, deixou tudo, família, emprego e igreja e foi morar com uma irmã no bairro carioca de Bonsucesso.

Sua carreira começa nesse mesmo ano como “crooner” no Dancing Avenida, onde foi descoberta pelos compositores Erasmo Silva e Jaime Moreira que a levam para a Rádio Mayrink Veiga. Na Mayrink adota o nome artístico de Ângela Maria para evitar que seus pais tomassem conhecimento do “mau caminho” que estaria trilhando…
De acordo com os seus biógrafos, em sua primeira apresentação na Mayrink, esqueceu a letra, saiu do ritmo e, quase aos prantos, cantou o samba-canção “Fuga”, de Renato de Oliveira. Pensou que perderia o emprego, mas a produção lhe deu o prazo de uma semana para criar um repertório próprio e deixar de imitar Dalva de Oliveira. Daí em diante, começou a revelar seu talento e originalidade. Afora esses predicados, Ângela chamava a atenção por ser uma jovem linda e graciosa (confiram as fotos) e cantava um repertório essencialmente romântico, o que a consagrou como uma musa popular.

Ao longo de sua carreira, Ângela Maria gravou exatamente 114 discos e se tornou, nos anos cinqüenta, referência de voz feminina na MPB. Influenciou cantoras como Elis Regina e Clara Nunes e também cantores, como Cauby Peixoto e Djavan.
Ângela Maria sempre transitou por todos os ritmos, brasileiros ou latinos: sambas, mambos, chá-chá-chás, boleros, tangos, guarânias, baladas. Mas, os seus maiores sucessos foram mesmo o samba-canção. Uma única exceção e que é até hoje o seu maior sucesso: o mambo cubano Babalu, gravado em 1958 com a orquestra de Waldir Calmon.
Há tempos, Ângela Maria declarou a respeito desse mega sucesso:

“Acho que já cantei Babalu dois milhões de vezes. O público pede muito e para eu não enjoar vou mudando os arranjos e a interpretação. O mambo ganhou tantas versões ao longo de quase meio século de existência que virou até hino de discoteca gay.”Eles me adoram. Minha relação com público gay é muito boa, completa “.
Logo no início de sua carreira, ela recebeu de Getúlio Vargas o apelido de “Sapoti”. Dizem seus biógrafos que após um show, o então presidente da República lhe disse: “Menina, você tem a voz doce e a cor do sapoti”. Ângela Maria foi Rainha do Rádio 4 vezes entre os anos de 1952-1956.
Sua vida pessoal, sempre muito atribulada e freqüentemente rastreada pela imprensa, foi marcada por quatro casamentos. Apesar de não ter tido filhos, adotou algumas crianças, as quais sempre considerou como filhos legítimos.
É digno de registro que Ângela gravou praticamente todos os compositores brasileiros mais importantes, de Noel Rosa e Pixinguinha a Cazuza e Renato Russo. E cantou com os maiores nomes da MPB dos últimos 30 anos. Um exemplo de longevidade artística e de um estilo marcante na MPB. Afora isso tudo, ela continua sendo uma pessoa simples que nunca deixou que a fama lhe subisse à cabeça.
A partir de meados dos anos sessenta, com o advento da Bossa Nova, Ângela Maria foi rotulada, injustamente, de cafona, uma pecha que a perseguiu durante um longo período.
A nossa cantora vivenciaria ainda curtos períodos de destaque nos anos setenta e parte dos anos oitenta. Voltou a ser esquecida a partir de meados da década de oitenta, retornando à mídia somente em 1992 com o bem sucedido show ao lado de Cauby Peixoto, que resultou num novo álbum da dupla. Esse trabalho foi premiado em 1993 com o Prêmio Sharp, em grande festa no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 1995 era a vez de fazer sucesso ao lado de Ney Matogrosso.
Merece destaque o disco Amigos, de 1996, onde ela canta com os maiores nomes da MPB, entre eles Roberto Carlos e Caetano Veloso. O disco vende 300.000 cópias, levando a Rede Globo a produzir e colocar no ar um Programa Especial, em reconhecimento a sua popularidade.
Em homenagem àquela que inspirou seus primeiros passos na música, a divina Dalva de Oliveira, Ângela Maria gravou em 1997 um CD totalmente dedicado a ela.
Entre os 114 discos gravados, o LP Ângela & Cauby possui para Ângela um significado especial. Nele, a dupla gravou,, entre outras músicas, a inesquecível “Eu não existo sem você”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.


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Por Chico Socorro

Publicitário, nasceu em São Paulo e veio para Santa Catarina no final da década de 1970 para implantar e gerenciar o setor de comunicação e marketing da Cia Hering de Blumenau. Chico Socorro é consultor independente de comunicação e marketing para as áreas de licitações públicas e prospecção de novos negócios.
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