Ano para reinventar a comunicação

O ano de 2016 não foi fácil. Para o setor de comunicação, então, nem se fala.

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Veículos importantes encerraram suas atividades ou reduziram drasticamente suas estruturas, o investimento publicitário encolheu, e os consumidores consolidaram novos hábitos na hora de se informar e se divertir. Trata-se, portanto, de um cenário que vai muito além da crise política e econômica que abala o país: os veículos são atingidos pelos escombros dos paradigmas que, até pouco tempo, pareciam inabaláveis.

Alguns chegam a pensar que essa tormenta nunca passará, tão mergulhados que estão num pessimismo quase contagiante. Em momentos assim, é importante lembrar que vários setores já passaram por rupturas severas e, depois delas, cresceram muito. O caso do varejo de alimentos é emblemático. Depois de anos dominado pelos pequenos armazéns e avalizado pelo “fio do bigode”, ele se reinventou com as redes e o autosserviço. Não foram poucos os que julgaram ser impossível um cliente preferir ter o trabalho de pegar o produto na gôndola e trocar a velha caderneta pelo pagamento na hora. As padarias foram um dos primeiros alvos dessa revolução, pois o consumidor passou a encontrar não apenas pão, mas uma enorme gama de produtos em um só lugar: o supermercado. A resposta foi bem dada: hoje, as panificadoras são exemplo de reposicionamento, tendo ampliado a oferta de produtos e o horário de atendimento.

Exemplos assim deixam lições. A primeira: nenhuma mudança de impacto vem sozinha. Além de movimentar todos os setores correlatos, uma grande ruptura é sempre consequência de outras pequenas que lhe antecederam, muitas delas quase imperceptíveis em meio à dinâmica do dia a dia. No caso da mídia, antes mesmo de os smartphones dominarem a Terra, o público já dava sinais de querer algo diferente em termos de conteúdo. Foi por isso que grandes jornais adensaram suas coberturas, e a televisão expandiu sua programação ao vivo, por exemplo. Permanecem vivas aquelas empresas que se prepararam para essas mudanças há mais tempo e, mesmo com orçamentos apertados, continuaram investindo em tecnologia e em seus profissionais.

A segunda lição: foi-se o tempo em que explicar o seu trabalho era algo fácil. Mentalmente, tente definir, com poucas palavras, o que é jornalismo nos dias de hoje. Difícil. Antigamente, as fronteiras eram facilmente delimitadas pelos processos de trabalho, pela distribuição, pela legislação ou pelas convenções do mercado. Hoje em dia, é cada vez mais complexa a tarefa dos professores de definir mídias e plataformas para os seus alunos. Por exemplo: o que separa o “The New York Times” e seus belos documentários em vídeo da produção de qualquer canal de TV?

A terceira lição: o consumidor é quem manda. Como cantava Raul Seixas, ele é “o início, o fim e o meio”. Até o despertar do digital, a relação era unilateral; depois, tornou-se bilateral, com a audiência selecionando e avaliando, com ainda mais liberdade e repercussão, aquilo que quer ler, ver e ouvir. Ela também produz conteúdo, mas isso não diminui o papel daqueles que são especializados nisso. Pelo contrário: se complementam. A nova geração de humoristas nascida no YouTube e já devidamente incorporada ao elenco dos maiores canais de TV comprova isso.

Foi a revolução digital que fez o ato de se informar deixar de ser algo restrito a poucos momentos específicos do dia e passar a permear toda a rotina, ajudando a definir quem somos e no que acreditamos. Lembre-se: um link compartilhado no mural do Facebook diz muito sobre você.

2017 tem tudo para ser o ano da comunicação, pois, independentemente da situação política e econômica do país, a expansão do consumo de informação prosseguirá. Isso abrirá novos caminhos para todos, ainda que persistindo os velhos problemas regulatórios e de infraestrutura típicos do Brasil.

Empresas dedicadas a oferecer informação e entretenimento continuarão existindo. Contudo, para que essa existência seja saudável, é primordial que produtores, consumidores e reguladores compreendam, de uma vez por todas, que os tempos mudaram. As fronteiras que definiam os limites entre uma mídia e outra já caíram há muito tempo. O desafio é aproveitar, sem descuidar das finanças, todo o potencial dessa verdadeira amálgama de plataformas, preservando e fortalecendo os laços de afeto e confiança que as marcas de comunicação construíram ao longo de décadas com toda a sociedade.

(Publicado originalmente em O Globo)

 

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Por Fernando Morgado

Fernando Morgado é palestrante, consultor, professor da FACHA e professor convidado de instituições como Universidad Autónoma Metropolitana do México, ESPM e PUC-Rio. Autor do livro biográfico "Silvio Santos: a trajetória do mito" (Matrix, 2017). Tem outros seis livros como autor, coautor e colaborador. Mestrando em Gestão da Economia Criativa, pós-graduado em Gestão Empresarial e Marketing e graduado em Design com Habilitação em Comunicação Visual e Ênfase em Marketing pela ESPM. Entre suas atividades comunitárias, é articulista voluntário no site do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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