Antes que nossos heróis partam

Estava aqui, lendo o livro de Heródoto Barbeiro, “Fora do Ar” e me deparei com uma mensagem, sensível e bonita ao grande operador de áudio João Antônio de Souza, o Johnny Black.

Johnny Black foi meu companheiro nos Diários e Emissoras Associados, quando enfrentávamos os constantes atrasos de pagamento e tínhamos de dividir os trocados para o ônibus. Fiquei emocionado. Mesmo depois de tantos anos é difícil imaginar que alguém que fez parte de nossa vida, que foi companheiro durante anos e cujas lembranças ainda são recentes, já se tenha ido sem que pudéssemos lhe dizer o quanto gostávamos dele.

Recostei o livro sob o peito e viajei em pensamento ao começo de tudo, até onde minha memória poderia chegar. Quase sessenta anos. Relembrei com agudeza de detalhes, muitos, mas muitos companheiros, alguns famosos, outros nem tanto, mas que ajudaram a construir a magnífica historia do rádio brasileiro. Uma dessas lembranças foi a de um velho faxineiro da Tupy, que, por sua feiúra e uma congênita deficiência intelectual, foi apelidado por Manoel da Nóbrega de “Talento e Formosura”, inspirado na música do mesmo nome de Catulo da Paixão Cearense.

Nunca soube seu nome. Nem ele sabia, ou não queria saber. Todos o conheciam como Talento e pronto. No seu rudimentar linguajar, de língua presa e imensa dificuldade de se expressar, de “macacão” azul e empunhando sua vassoura, Talento sempre contava coisas das rádios e televisão que sua memória guardava com imensa precisão.

Trabalhou na Tupy sua vida toda, conheceu muita gente, conversava com todas elas, inclusive nosso velho e conhecido Lima Duarte. Talento trabalhou na Tupy até o fechamento da rádio em 1980.

É duro constatar que muitos se foram e não deixaram seus registros completos, ricos de detalhes e informações: Antônio Pimentel, Julio Nagib, Coripheu de Azevedo Marques, Carlos Spera, Nhô Totico, Antônio Carvalho, Samuel Negrin, Valdir Coelho (primeiro Repórter Esso da TV de Pernambuco), Ramão Achucarro, no Mato Grosso do Sul, O velho “Cachoeira”, que ultimamente trabalhava na Rádio Cultura de Monte Alto, com mais de 48 anos de profissão; Mauricio Fruet, da Revista Matinal na B2; meu operador de som na Rádio America, Hermínio Simões; Laerte Antônio, voz padrão da velha Rádio Cultura; Cayon Jorge Gadya; Elvira Samara, uma das mais belas vozes femininas que o rádio já teve e tantas outras pessoas queridas, cujas lembranças me envolveram por horas naquela noite de reflexões.

Comecei a perceber que a história do rádio, sua memória, suas testemunhas oculares (parafraseando um dos mais famosos informativos que o rádio já teve, “Repórter Esso – Testemunha ocular da história”) vão se desfazendo sem que tomemos o cuidado de registrar todas essas experiências num grande trabalho de pesquisa, obra que o rádio brasileiro merece.

Existem vários trabalhos isolados, em São Paulo, Ceará, Santa Catarina, Sergipe, fruto de visionários e sonhadores dedicados, mas eu me refiro a um trabalho mais universalizado, integrado, com apoio dos institutos de pesquisa, das universidades, dos extraordinários talentos intelectuais que podem prestar um importante serviço à memória do rádio, antes que seus últimos grandes ícones se despeçam de nos definitivamente e levem consigo suas histórias e lembranças.

Muito longe de nos deixar, claro, temos aqui, entre nós, um dos grandes responsáveis pelo moderno rádio brasileiro, que teve grande avanço artístico e criativo a partir da década de 60: Jair Brito: visionário, talentoso, atrevido, criativo e perspicaz, que, ao lado de Hélio Ribeiro, Fernando Viera de Melo (que também nos deixou) e Alexandre Kadunk (Titulares da Noticia) revolucionaram o rádio AM, estabelecendo os padrões do rádio moderno, copiado depois em todo Brasil e até no exterior.

Esta história precisa ser contada, em todos os detalhes, antes que nos esqueçamos dela também.

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Por J Pimentel

Criou-se ouvindo rádio até que em 1964 ingressou como locutor nas rádios Difusora e Cultura dos Diários e Emissoras Associados. Foi coordenador das rádios Piratininga, América, 9 de Julho e Transamérica de São Paulo. Em Salvador/BA coordenou a Rádio Cidade de Salvador. Especialista em marketing político no rádio e produtor executivo.
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1 responder
  1. Esmeralda Cassia Teixeira says:

    Estou sentada em frente ao meu monitor lendo e relembrando tudo o que você escreveu e eu vivi. Esse sr. que você se referiu, foi uma pessoa que nunca esqueci. Ele tinha por hábito contar fatos que viveu dentro da rádio. Me lembrei de uma cena numa véspera de Natal, eu estava na sala dos produtores e ele varrendo e contando estórias de outros natais, quando chegou o sr. Edmundo Monteiro e humildemente deu um grande abraço nele. Foi assim que conheci o presidente dos Diários Associados. Pequeno grande homem.

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