Antigamente era assim…

Nos anos de ouro do rádio, lá pela metade do século 20, as emissoras de rádio descobriram uma forma de “excitar” mais ainda os ouvintes, levando os programas até as suas casas. E de lá faziam a transmissão.
Foi assim que o radialista Heber de Bôscoli apresentou durante muitos anos no prefixo da Rádio Nacional do Rio de Janeiro o programa “A Felicidade Bate à sua Porta”.

Heber, sua companheira Iara Salles e alguns astros e estrelas da Nacional chegavam a uma determinada casa, sorteada, e se o morador tivesse o produto que patrocinava o programa, ele recebia muitos, muitos prêmios. Um caminhão deles.

Em Blumenau, por aquela época, existiram também os programas feitos na casa do ouvinte, gravados e depois reproduzidos, só que mais modestos; não chegavam a dar grandes prêmios. Mas era enorme a alegria das donas de casa em receber os radialistas.

O primeiro programa do gênero foi lançado pela Rádio Nereu Ramos por volta de 1960. O proprietário da rádio, Evelásio Vieira, o Lazinho, contratara em Curitiba o radialista Nelson Tófano. Nelson chegou a Blumenau com sua Lambretta e o roteiro de um programa que ele iria apresentar em uma emissora da capital paranaense: “Onde está o Ouvinte está a Rádio… tal.

Foi chegar e lançar o programa em Blumenau, que passou a chamar-se “Onde Está o Ouvinte está a Rádio Nereu Ramos”. De segunda a sexta, Tófano saía pelos bairros, entrava na sala e na cozinha das residências, alternando os bairros, e fazia a gravação do programa. Se a dona de casa visitada tivesse na sua despensa a marca do café que patrocinava o programa, recebia alguns quilos do produto.

A disputa pela audiência entre a Rádio Clube, PRC-4, e a Nereu Ramos era acirrada.

Por isto, Flávio Rosa e Wilson Melro, da PRC-4, resolveram trazer para Blumenau o radialista Nelson Rosenbrock, que atuava na Rádio Araguaia de Brusque, pertencente ao mesmo grupo, as “Emissoras Coligadas de Santa Catarina”.

Comprada uma Lambretta, veio a missão: fazer um programa nos mesmos moldes da concorrência.

O nome escolhido foi “A Vida com Alegria é outra coisa”.
Nelson Rosenbrock era falante e desinibido. Tratava as donas de casa com a intimidade de um parente. E elas adoravam isso.
“Como vai Dona Maria? Já colocou o feijão no fogo? E o cafezinho, tá fresco ou passado?”
Ele saía de manhã cedo, gravava no pequeno gravador Geloso, e ainda pedia que a dona de casa escolhesse a sua música preferida, para rodar no programa.
E, claro, se tivesse na casa o produto do patrocinador, a festa era grande.

Como Nelson gostava de acompanhar pessoalmente suas produções, ele mesmo chegava ao estúdio da PRC-4, trazendo a fita, e a colocava no Geloso, para reprodução.

Muitas vezes era eu quem fazia a abertura do programa, no estúdio:

– E agora, senhoras e senhores, de qualquer ponto da cidade, chamamos o repórter Nelson Rosenbrock para apresentar mais um programa “A Vida com Alegria é outra Coisa! Alô Nelson, pode falar:

Entrava no ar a gravação, que só era interrompida quando o técnico de som/sonoplasta colocava a música que a dona de casa tinha escolhido. Até o disco o Nelson já havia colocado na mão do sonoplasta, para não haver falhas. Tocada a música, voltava ao ar a gravação e o Rosenbrock fazia o encerramento.

O programa ia ao ar às 13,00 horas, de segunda a sexta feira, logo após “A Marcha do Esporte”.

Tempos depois, Nelson Rosenbrock iria reafirmar sua popularidade com o programa “Picape da Frigideira”, que foi o que mais marcou a sua carreira de radialista.

2 respostas
  1. Adalberto Day says:

    Sr. Braga Mueller
    Muita coincidência abrir “O Caros Ouvintes” e deparar com esse seu belo texto, justamente eu que já tenho aqui preparado, para o mês de dezembro comentar sobre este assunto no Cantinho da Saudade, no Jornal O GARCIA. Os assuntos claro que escrevi são parecidos, mas pretendo ajustar alguns assuntos com seu trabalho. Lembro-me perfeitamente desses dois programas, dos dois também Nelson, o Tófano e o Rosembrock. Como disse o que escrevi e será postado em dezembro,fala quase tudo como o Sr. Relata., mas coloco uma observação, que eles também levavam um relógio já com a hora previamente registarda e parada, para que o morador acertasse o horário. Ambos estiveram nos anos 60 em nossa residência e região. Era muito charmoso. O Café me parecesse que era o Úru.
    Um abraço e parabéns pelo belo texto.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história

  2. Carlos Braga Mueller says:

    Meu prezado Adalberto Day,

    Fico contente em poder acompanhar o depoimento deste assunto, sob outro ângulo.
    Eu era o “locutor do horário”, como se dizia, e chamava o Nelson Rosenbrock para entrar no ar.
    Já o teu depoimento é importantíssimo, porque mostra aquele clima de amizade que imperava entre o apresentador Nelson e o ouvinte que estava sendo visitado, no caso você, sua família.
    É assim que a história é escrita, com a colaboração de todos nós.
    Abraços
    Braga Mueller

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