Ao velho vento

Escrevo vendo pela janela uma dança de árvores. Soltaram o ventão de novo. Quando menino, eu me perguntava em que lugar o vento ficava enroscado, descansando, depois que passou por nossa vila fazendo as árvores dançarem. Mais tarde, aprendi dois desses esconderijos dele.
Por Flávio José Cardozo

O vento sul criou em mim um automatismo: me traz à mente duas referências artísticas, uma verbal, de grande força plástica, outra plástica, de grande força narrativa.
A verbal são os conhecidos versos de Cruz e Sousa. Mago da metáfora, o poeta esculpiu um vento de carne e alma, deu-lhe mãos e emoções, mobilidade infinita no espaço e no tempo, um vento que (ele vai dizendo) rosna sonolento, erra por campanários, sonha por bosques solitários, apóia-se num bordão e vai pelas estradas murmurando rezas de monge, solta pesadelos por campos e florestas, contas velhas lendas nas harpas da tempestade, enche os lagos de réquiens e hieróglifos secretos, traz das origens do mistério uma palavra de carinho, cambaleia como um ébrio por tardes de nuvens feias, lembra no seu clamor a tortura dos ímpios inquisidores. É um vento que tem a memória dos séculos e é, quer o poeta, um libertador do sentimento. Olho as árvores dançando e indago se a prece de Cruz e Sousa foi ouvida, se o velho e velado vento fez o afago que ele quis, se o envolveu na sua sombra, se o dissolveu nos astros. Acho que sim, o poeta está nos astros. E está no vento como o vento está para sempre em seu poema.
A segunda lembrança é o quadro de Hassis, Vento sul com chuva, um dos primores da rica primeira fase do artista. É uma obra insinuante, em que pulsam as sutilezas da vida. Raras vezes já se captou com igual felicidade um flagrante existencial da Ilha e nunca esse intemporal ilhéu que é o vento sul foi surpreendido numa tal vibração. Envolvidas vigorosamente nele, as pessoas que ali estão compõem um instantâneo de luta que remete o espectador à idéia de outras lutas. O vento lhe dá impulso, pensamento. Para lá vai a moça, atrapalhada em segurar a saia e a sombrinha; para cá vêm um homem cabisbaixo, às volta com o imenso guarda-chuva, e um marinheiro lépido, a mão protegendo o boné. Se bem percebo, naquele ventaréu todo, moça e marinheiro arriscam um olhar, mas que vento! Na calçada, guarda-chuva fechado, uma capa que vem quase aos pés, um cidadão enigmático assiste às façanhas do vento e o corre-corre daquela gente, ou mastiga algum drama próprio? O vento está nessa pequena tela com a inteira força que vejo ali nas minhas árvores.
O mesmo vento. Aprisionado e solto no poema de Cruz e Sousa, aprisionado e solto no quadro de Hassis. Homenagem para sempre de dois ilhéus sensíveis.
(Do livro Senhora do meu Desterro, Florianópolis, Lundardelli / Fundação Franklin Cascaes, 1991)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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