Faleceu Cândido Norberto, o mais importante radialista gaúcho

Moonlight Serenade, com a The Glenn Miller Orchestra, já não soa mais do mesmo jeito. Não anuncia o comentário de Cândido Norberto, o Pensando em Voz Alta, na Gaúcha dos anos 1950.

O microfone da Gaúcha já não se movimenta pela redação de Zero Hora e transforma em marca a Sala de Redação hertziana da década de 1970, líder de audiência até hoje. Cigarro fumado com prazer, após cigarro, o radialista já não cria astros como Paulo Sant’ana, uma de suas tantas descobertas, hoje a coluna mais lida do jornal mais lido do Sul do país.

Cândido não grita mais do fundo do auditório da Gaúcha, no imponente Edifício União, décadas atrás, e descobre em um rapaz franzino, Jorge Alberto Mendes Ribeiro, aquele que, carreira como radialista e jornalista à parte, vai ser o deputado federal mais votado da história lá, naquele futuro do pretérito, em 1986. Foi-se como o último café e o último cigarro saboreados com prazer. Uma fumaça voluta que não sai da memória, algo tênue, mas persistente.

Morreu Cândido Norberto na noite de domingo, dia 1º de fevereiro de 2009, aos 83 anos, poucos dias antes do aniversário oficial da sua Rádio Gaúcha, a emissora à qual dedicou a sua vida.

Quis a história que uma frase sua definisse uma época. Quando a TV roubou o espetáculo das novelas, dos humorísticos e dos programas de auditório, para o Cândido, o rádio acovardou-se. Quis a história que ele engendrasse parte da mudança, fazendo do radiojornalismo um caminho.

Um caminho, de início, percorrido, com a timidez da emissora a buscar espaço, mas com a segurança e a desenvoltura de um grande profissional, de Cândido Norberto, aquele a perambular pelo jornal Zero Hora, microfone da Gaúcha na mão, entrevistando repórteres e editores, criando uma marca: Sala de Redação.

Cândido, faça agora o caminho tranquilo da eternidade. Vá ouvindo seu radinho de pilha, lendo seus jornais. Tenha a certeza, de deixares, por aqui, um legado: o do mais importante radialista da história do Rio Grande do Sul.

Lá, no ponto de chegada, onde te aguardam velhos colegas, aproveita para relembrar grandes momentos. Do início de carreira, recém-chegado de Bagé, troca uma ideia com o João Bergmann, o JB, colega da Folha da Tarde e da Rádio Difusora. Te aproxima da roda onde Arthur Pizzoli, que te levou para a Gaúcha, bate um papo com Mauricio Sirotsky Sobrinho, o fundador da RBS, teus ex-patrões que tanto admiravas.

Lembra com Adroaldo Guerra e Walter Ferreira do tempo que vocês faziam os três homens maus, aqueles de mentirinha da novela lá de 1948. Encontre Estelita Bell e receba, dela e do marido Pery Borges, um abraço agradecido por aquela estada deles na Gaúcha no início dos anos 1950. Narra de novo um jogo de futebol, só por brincadeira, com Guilherme Sibemberg.

E sonha, sonha muito, neste longo sono que se inicia.

4 respostas
  1. Carlos A says:

    Luíz Artur, belo texto! Quantos nomes: Glenn Miller, Cândido Norberto, Mendes Ribeiro, Maurício Sirotsky! Somos passageiros do Sonho-Vida!

  2. Jair Brito says:

    Tive a grata satisfação de conviver profissionalmente, nos anos de 1975/1976, com o talentoso Cândido Norberto. O programa Sala de Redação – referencial de sua carreira – deu a partida para que, progressivamente, a Rádio Gaúcha adotasse uma programação cem por cento jornalística, o qual, ainda hoje, é seu grande sustentáculo.
    O Rio Grande do Sul perdeu um grande jornalista do rádio que, segundo o jornal Zero Hora, “Passou os últimos dias da vida ouvindo rádio. Acordava ouvindo rádio. Pegava no sono com o rádio ligado ao lado da cama, dia e noite, inseparável do aparelho e de todos os seus significados. Poucos fizeram tanto pela magia do rádio quanto ele”.
    Lá no céu, onde já deve estar, Cândido Norberto – com certeza – está convocando seus companheiros de radiojornalismo, já falecidos, para a primeira edição da Sala de Redação Celestial.

  3. Maria Lucia Sampaio says:

    Prezado Ferraretto
    linda e merecida homenagem ao Candido!
    Infelizmente, a ZH não teve um jornalista como tu para fazer a matéria à altura dele.O texto estava uma vergonha…
    Atenciosamente, Maria Lucia

  4. solange roso says:

    procuro por cronicas escritas por JORGE ALBERTO MENDES RIBEIRO. ACHO VERGONHOSO NAO ENCONTRARMOS NEM NA INTERNET O LEGADO MARAVILHOSO DESTE GENIO DAS CRONICAS

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