Apenas semeadores ou também jardineiros?

“Navegar é preciso, viver não é preciso”. (Fernando Pessoa)

Poderíamos dizer também que “semear é preciso”. Sementes lançadas ao solo e cultivadas e colhidas nos trazem o necessário à mesa, a vida. Logo, notamos que uma mesma palavra quase sempre pode ter ou criar vários sentidos.

O educador alemão, Friedrich Froebel (1782-1852), criador do – Jardim de infância fez uma linda analogia. Comparou as crianças a plantinhas e seus professores a jardineiros. Não há dúvidas de que nossas crianças são como plantinhas; estão em desenvolvimento, necessitam de orientações, cuidados, carinho, amor (isso inclui vacinar as crianças; elas precisam que alguém as leve para tomar a vacina), enfim, elas precisam de muito mais do que foi dito até aqui. Os jardineiros (professores) têm recebido nos seus jardins plantinhas bem cuidadas, as quais esses jardineiros continuarão regando e cuidando com carinho e competência, pelo menos é isso o que se espera de quem escolheu essa “jardinagem”. No entanto, há plantinhas que chegam aos jardins mal cuidadas; não receberam água na medida adequada, não sentiram nem o calor do sol e nem a brisa refrescante, foram de um jeito ou de outro crescendo quase que sozinhas, quase. Pouco foram regadas. Seus jardineiros cuidaram de outras tarefas, mas esqueceram do seu mais belo jardim ou nem se deram conta que tinham um.

Aqueles que decidem ter filhos e ter filhos deve ser uma decisão tomada a dois, seja pelo método natural ou pela linda adoção passam a ter um jardim, tenha ele uma ou várias plantinhas. Agora é a vez dos pais tornarem-se jardineiros.

Há poucos dias publiquei que os pais que mais comparecem às reuniões escolares, sejam reuniões entre pais e professores ou outros eventos que a escola promove, de maneira geral são aqueles que – teoricamente – nem precisam ir, e não precisam justamente porque vão a cada convite, a cada reunião, pegar os boletins, festa da família na escola, uma apresentação em que talvez nosso filho ou filha esteja vestido de alface, mas para ele é como se estivesse concorrendo ao Oscar, e ainda mais felizes e realizados quando veem os pais ali, assistindo, aplaudindo e por que não, babando? E os que menos ou quase nunca vão são justamente aqueles que vão na “amarra”, porque a direção chamou, o filho aprontou.

Ah, mas eu não tenho tempo, trabalho demais… Um saudoso amigo costumava dizer: “Quem é bom em dar desculpas não é bom em mais nada”. O ponto é que o tempo é igual para todos nós. Claro que sempre há pais com uma jornada de trabalho muito pesada. Há também os que trabalham longe e não conseguem uma liberação do patrão. Mas não conseguem por quê? Já tentaram? Já explicaram que isso é muito importante? Será que pelo menos um dos dois não pode comparecer à escola com frequência, mesmo que só para visitar o professor e agradecer por tudo o que tem feito pelas nossas plantinhas?

Muitos desses pais não perdem uma partida de futebol do seu time do coração. Time que mais vezes lhes traz indignação e revoltas. Não deixam de passar no bar da esquina para beber e jogar conversa fora. Já com seus filhos…

Froebel fez uma linda analogia: professor – jardineiro. Creio que ele não tivesse dúvidas de que os primeiros e sempre jardineiros que nossos filhos tiveram e terão são os pais. Nós semeamos de um jeito ou de outro, agora é o momento de ser jardineiro. Regar, cuidar, orientar, dar carinho, manifestar amor. E uma palavra que causa pavor aos que desconhecem seu significado: Disciplinar. Só discordará quem não conhece o significado dessa palavra e não disciplina o filho.

“Eduque a criança no caminho em que ela deve andar; mesmo quando ela envelhecer não se desviará dele”. Provérbios 22:6. Bíblia.

Ainda há espaço para refletir sobre uma frase de Fernando Pessoa; lembrando de interpretações de sentidos e palavras: Navegar é preciso, não é necessário para todos nós, mas navegar num barco ou navio exige – precisão; sem margens para erros; então, navegar é preciso, exige precisão, exatidão. Viver não é preciso; não comandamos com exatidão nosso amanhã. Um fato é que colhemos o que plantamos, outro, é que a vida tem lá suas surpresas, portanto, viver é maravilhoso, mas não pode haver a precisão dos grandes navegadores ou de modernos equipamentos. Viver com responsabilidade, respeito a vida, a nossa e a do próximo é procurar a “precisão” dos navegadores, mas na vida real há tantas ou mais surpresas do que em alto mar.

Para quem tem filho ou filhos há um jardim. Que eles tenham prestimosos e competentes jardineiros desde o jardim de infância e pelos anos que continuarem na escola, mas nossas plantinhas têm os pais como seus principais jardineiros.

Essa tarefa é tanto desafiadora quanto artística. Desafiador e necessário é assumirmos o papel de jardineiro; a arte, um lindo jardim. Um jardim que não agradará apenas os que passarem por ele e o admirarem, mas quando o espelho da vida revelar a eles, aos nossos filhos, o nosso jardim, o quão belo se tornou, os fará mais felizes e completos.

Como pais não vemos em nossos filhos um troféu, antes uma plantinha; amanhã um lindo jardim; depois um semeador que tornou-se um dedicado jardineiro.

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Por Deivison Hoinascki Pereira

Jornalista, barbeiro, acadêmico em Letras Língua Portuguesa pela Faculdade Estácio de Sá, escritor, produtor e apresentador do programa de rádio - Na cadeira do barbeiro. Mantem o blog: http://deivisonnacadeiradobarbeiro.blogspot.com.br/ E colunas nos Jornais Biguaçu Em Foco. Cronista do Portal Caros Ouvintes.
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