Aquela voz no rádio

Nasci em janeiro de 1973, em Florianópolis, mas sempre morei em São José. A infância dos meninos dos anos 70 e 80 foi muito especial. É claro que a das meninas também foi muito diferente das de hoje, especial.

Futebol de rua; 5 vira 10 ganha, pipas, bang bang, pega-pega, esconde-esconde, bilboquê e peão; nesse último nunca foi bom, e nos demais mais ou menos, mas era divertido e era só o que importava.

Certa manhã do ano de 1981 algo diferente aconteceu. Na escola onde estudava chegou um repórter com um daqueles gravadores que logicamente não caberia no bolso.

Ele falou com vários alunos e cada um pedia uma música e oferecia a alguém. Participei. Não lembro a música e nem para quem ofereci, mas no dia marcado para ir ao ar as participações fiquei sentado esperando ouvir minha voz no rádio.

Para a infeliz surpresa do leitor e também minha creio que a gravação não foi exibida ou me passou despercebida.

O tempo passou e mantive as brincadeiras com os amigos. E eis um mistério, não sei a data exata e nem o motivo, mas de repente eu estava apaixonado. Era mais uma paixão; havia a Daniela, uma linda loirinha da escola. A nova paixão aconteceu dentro de casa, na cozinha, em cima de um lindo balcão, daqueles feitos para durar décadas. Em cima dele entre outros apetrechos de minha mãe, dona Olga, havia um lindo rádio. Devia ter uns 20 centímetros de comprimento por uns 10 de largura e altura. Com aquele revestimento de madeira e a classe dos rádios dos anos 70, tinha um charme especial.

Mas é bem verdade que a beleza de um rádio é acrescida de vida com a voz do radialista.

E foi nessa vida dada ao rádio, ora pela música ora pela voz do locutor que me via por inúmeras vezes parado diante ele, outras vezes o ouvia fora da cozinha, debruçado na janela.

Passei a ouvir alguns programas nos horários em que não estava na escola ou em dias sem aula. Diário da Manhã, com o Walter Filho e seu “assustador” quadro – Aconteceu; Guarujá, Cultura, mas em especial a rádio Santa Catarina.

Naquela rádio havia ótimos programas, grandes comunicadores e um em especial me chamou a atenção; Nabor Prazeres. Sua voz, seu modo de conduzir o programa, a ênfase nas notícias. Foi uma espécie de cupido nessa paixão que nascia.

Nabor Prazeres apresentava um programa durante as manhãs. Aquela voz no rádio encantava as pessoas em muitas regiões.

Devido aos muitos prêmios que a rádio sorteava; ingressos para o cinema, circo, parque de diversões e até tortas percebi duas oportunidades. Como se diz: “Matar dois coelhos com uma só paulada”. Não levem a frase tão a sério, afinal de contas, é linguagem conotativa.

Além de ganhar prêmios teria a oportunidade de conhecer a rádio por dentro, e até de conhecer o radialista. Já pensou – ver de perto Nabor Prazeres; saber se era alto ou baixo, gordo ou magro, negro ou branco, cabelos escuros ou grisalhos, se era gente boa ou um sujeito ranzinza. Isso seria demais. Ganhei muitos prêmios, de todos os quais mencionei.
Quase sempre quem me levava até a emissora, que ficava no bairro, Coqueiros, na rua: Jaú Guedes da Fonseca, era meu cunhado e amigo Lindomar.

Enquanto os amigos diziam: Lá vai ele outra vez ligar para a rádio, parece mulherzinha, parece maricas… E lá ia eu. Descia até o bairro Bela Vista, onde eu morava, no Jardim Cidade, não havia os orelhões, os famosos e muito usados telefones públicos. Eram várias fichas telefônicas todas as semanas, pelo menos uma ou duas por dia.

Na rádio havia uma secretária muito bonita. Era alta, magra, cabelos negros e muito atenciosa. A sala de recepção onde aguardávamos os prêmios era pequena e muito aconchegante.
E na minha garganta, quase na ponta da língua, o desejo de pedir para entrar e conhecer o estúdio, e o Nabor (nem sempre quando íamos na emissora era a hora do seu programa, às vezes era outro locutor naquele momento), mesmo assim não tinha coragem de pedir para entrar.

Quantos telefonemas, quantos brindes ganhei, quantas vezes o Nabor Prazeres disse o meu nome ao oferecer uma música ou citar que eu havia ganhado um prêmio.

Muitos anos se passaram. O menino cresceu. Trabalhou muito e se tornou barbeiro.

Mas quando alguém é “tocado” pela comunicação, isso fica no íntimo, como que num lugar secreto até que algo a mais aconteça para libertar e viver essa paixão com seus prazeres e dores.

Depois de uns 13 anos na barbearia comecei a escrever: Livros, colunas em jornais, blog, e fui convidado para dar muitas entrevistas, em jornais, TVs e para emissoras de rádio.

Passei a entrar com certa frequência em estúdios de rádios; CBN, na Guarujá muitas vezes. Estive também na rádio Record, Guararema e outras.

Já havia se passado 5 anos que eu tinha me mudado da rua Santa Luzia, onde vivi por 35 anos. Então, aos 40 anos de idade, passava pela rua que me havia deixado tantas boas recordações. Para minha surpresa e despertar de sonhos e desejos ao caminhar por ali vi uma placa de uma rádio – Rádio Comunitária – Luar FM 98,3. Aquela rádio na esquina da rua onde passei a maior parte da minha vida, uns 50 ou 60 metros de onde eu morava. Aquilo não me saía da cabeça.

Pensei, troquei ideias com o amigo repórter cinematográfico, Agenor Neto e o coordenador da rádio, Cristiano Souza, elaborei um programa, busquei apoiadores culturais. Joia, havia um projeto bem adiantado e modesto. O programa se chamaria – Na cadeira do barbeiro. Teria músicas antigas, nacionais e internacionais e em especial, entrevistas. Queria levar para o rádio a vida, as histórias de vida e das profissões daqueles que costumam estar do outro lado; de ouvintes a participantes com suas histórias. A ideia evoluiria para entrevistas com comunicadores de todas as áreas.

Mas faltava algo, as vinhetas. Num estalo me veio à mente: Já pensou se eu conseguisse falar com o Nabor Prazeres e pedisse para ele gravar as vinhetas; a voz dele anunciando meu programa.

Fiz alguns contatos e o Rubens Flores, mais conhecido como Rubinho, me passou o número de telefone do Nabor.

A ligação. Do outro lado da linha quase 30 anos depois não era a secretária para anotar meu nome, era ele, o Nabor. Claro que ele não me conhecia. Disse a ele que gostaria de ter sua voz em minhas vinhetas. Ele, educadamente, disse que estava aposentado e não gravaria as vinhetas.

Então, diferente de 30 e tantos anos antes quando queria conhecê-lo e não falava, dessa vez falei. Eu disse ao Nabor: “Sabe seu Nabor, eu costumava ouvir o senhor quando apresentava seus programas na rádio Santa Catarina. Ganhei muitos prêmios com a intenção de conhecê-lo e estive na emissora muitas vezes e nunca tive coragem de pedir para conhecer o senhor e os estúdios. Agora, aos 40 anos, vou estrear no rádio e a emissora em que eu vou apresentar o programa fica exatamente na esquina da rua onde morei por 35 anos e que por tantas vezes saí para ligar para a rádio. Então, seu Nabor, eu apenas havia pensado na honra que seria ter sua voz em minhas vinhetas, mas se está aposentado e não pode, entendo”.

Do outro lado da linha o homem que eu nunca havia visto pessoalmente falou: “Do que mesmo você precisa? Vou gravar suas vinhetas”. Fiquei emocionado e perguntei o preço, talvez eu nem pudesse pegar. Ele disse: “Não vou te cobrar nada, será uma honra para mim”.

Eu enviei a ele por e-mail os textos das vinhetas, abertura, passagem e etc. Dias depois ele me enviou as gravações. Não me cansava de ouvir o Nabor dizendo: “Agora, na rádio Luar FM o melhor da música e bate-papo – Na cadeira do barbeiro com Deivison Pereira”. “Você está acompanhando o programa – Na cadeira do barbeiro com Deivison Pereira”. “Você acompanhou pela rádio Luar FM o programa Na cadeira do barbeiro com Deivison Pereira”.

Por maior que fosse a expectativa de ouvir o primeiro programa que iria ao ar no domingo, dia 02 de junho de 2013, às 22h, gravado dias antes com o primeiro convidado, o jornalista, Clayton Ramos; só de ouvir as vinhetas já me sentia realizado. Quando imaginária isso?

Uma entrevista mais do que especial. Finalmente, uns 3 meses depois da estreia do programa, eu iria entrevistar o dono da voz e da competência que tanto havia contribuído para o desejo de trabalhar em rádio. Fui até buscá-lo em sua casa. Inacreditável. Ele estava ali no estúdio, não no da rádio Santa Catarina onde os estúdios eu nunca conheci, e sim na rádio onde eu apresentava o programa e agora o entrevistava.
Ouvir sua história, trajetória, inúmeros fatos interessantes sobre sua atuação como radialista e coordenador de várias emissoras, sua opinião sobre a qualidade do rádio atualmente; foi mais que especial. Ao sairmos do estúdio pude mostrar para ele a casa na qual havia morado por 35 anos.

Em 1981 não lembro de ter ouvido a minha voz no rádio naquela gravação feita na escola.

Mas em meados dos anos 80 a voz do Nabor marcou algo em minha vida; o amor pelo rádio e a comunicação.

Até hoje, quando paro para ouvir algumas das mais de 50 entrevistas é marcante a presença do Nabor Prazeres em cada programa, em cada vinheta. Na verdade o nome do programa – Na cadeira do barbeiro – ganhou força na voz do Nabor – Aquela voz no rádio!

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