Aquelas manhãs

Eram maravilhosas aquelas manhãs. Menino da cidade, eu realizava o sonho do ano inteiro: passar as férias na roça. E sair na manhã luminosa da serra era viver intensamente o contato com a natureza, que cidade grande nenhuma poderia proporcionar.

O céu era incrivelmente azul, um manto cobrindo o mundo, apoiado no topo dos montes e contrastando com a massa verdejante da folhagem, aqui e ali pontilhada pelas folhas cor de prata da embauba, que, como espelhos, refletiam a luz forte do sol.

Muitas e muitas vezes, nesses passeios matinais, meu destino era o córrego que passava sobre o pontilhão da linha do trem. Essa estrutura de ferro também brilhava ao sol, permitindo ver o esmero dos ingleses nessas construções metálicas, com as longarinas de ferro engenhosamente entrelaçadas. Sobre ela, o trem passava resfolegando, ganhando velocidade para enfrentar a subida da serra, uns quatro ou cinco quilômetros adiante.

No trajeto, às vezes, eu descia por um caminho serpenteante em meio ao capim, até chegar a um bambuzal. Diante daquela touceira majestosa, feita de verdes das folhas e de amarelos dos bambus, eu quedava ouvindo e vendo a ação do vento matinal. Em movimentos cadenciados, as folhas do bambuzal se moviam como que acarinhadas por u’a mão imensa, e produzindo um som surdo, cavo, como um ronronar vindo de algum lugar onde se situa o cerne da vida da natureza.

Pisando com cuidado nas folhas secas, por lembrar que cobras adoram bambuzais, eu tirava uma vara que, depois de limpar com o canivete, se transformava numa perfeita vara de pescar.

O córrego, límpido, rumorejando na manhã feliz, era um espetáculo à parte. Nos arbustos próximos da margem, havia sempre uma libélula, ou uma cigarra produzindo seus zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz, que davam vontade de fechar os olhos e dormir, ali mesmo, à sombra de alguma folhagem, cedendo a uma preguiça condizente com o ritmo, lento, calmo, compassado, da vida vivida no interior.

Pescar, realmente fisgar o peixe e tirá-lo da água era o objetivo menor. O importante era sentir cada momento e preparar tudo, exercitando a calma proverbial dos verdadeiros pescadores: cortar a linha de nylon no tamanho certo, amarrá-la na varinha de bambu, prender o anzol na linha…

Agora era hora de preparar as iscas. Num lugar junto ao barranco, num canto ensombrado e úmido, eu cavava, com as mãos mesmo, revolvendo a terra até encontrar as minhocas, que punha com um pouco de terra numa lata, onde as bichinhas de um marrom escuro ficavam furando a terra quase negra, com movimentos lentos de seus anéis.

A luz intensa do sol da manhã, em cumplicidade com o vento, produzia um espetáculo lindo de se ver. Movida pelo vento, a superfície da água mostrava-se toda escamada, com cada dobra desse tapete de luz e movimento refletindo, facetadamente, o dourado do sol.

Vez por outra, as piabas, como desejando saudar a manhã maravilhosa, saltavam da água. Era como se, também, desejassem desafiar o pescador de meia-tijela que eu era, muito mais interessado em ver e sentir a vida do que, de fato, em pescar.

Mas, muitas vezes, eu voltava com alguns peixinhos numa fieira de capim, esta criativa forma de carregar os peixes reais – porque os peixes virtuais são carregados é na fieira de mentiras de certos pescadores!

Não existem, claro, manhãs exatamente como aquelas que tenho vívidas na memória, com suas cores, sons e até cheiros. No entanto, mesmo aqui na cidade, certas manhãs luminosas, próprias para celebrar a beleza da vida, me fazem reviver aquelas manhãs. Então, chego até a pescar no córrego da existência, revendo pérolas de luz formadas pelo sol sobre a água, enquanto tento fisgar minhas piabinhas de saudade.

 

 

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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